Um dedo de prosa

Germana Telles

Quem partiu já vem 11:17

“Quem partiu já vem, quem partiu já vem”. O aviso chegava, em meio às arvores do quintal, no muro que cercava a casa e pelas brechas das janelas, enchendo nosso ninho de esperança. Na verdade, tudo que aquele canto fino do pássaro nos dizia mesmo era que algo mudaria naquelas redondezas, no caso, para nós. Era isso, pelo menos, que falava a minha mãe, convicta das suas crenças.


Nós também passamos a acreditar que o bem-te-vi, dono daquele canto e fiel transmissor dos presságios, era profeta.

Aquilo mexia, e ainda mexe, com a gente. O dia parecia ser especial quando ele vinha. As tarefas ganhavam mais sentido, mais urgência. Qualquer coisa saindo um centímetro da normalidade ganhava tom de sinal. E mesmo que nunca uma coisa possa ter sido influência do passarinho, algo sempre acontecia, alguém de longe sempre dava sinal de vida, chegava carta, notícia qualquer de parente ou amigo, renovando as nossas crenças.

Tenho vivido dias de bem-te-vi na janela. Hoje acordei ouvindo um deles, no quintal do vizinho _ que faz reforma interminável em sua casa. Minha alma parece acompanhar a reforma e tomou susto grande com o “quem partiu já vem” ao amanhecer.

Passamos a vida inteira buscando construir sobre bases sólidas, achamos que encontramos o caminho, a rota certa, e investimos o melhor que há em nós nessa aposta, na certeza de que vamos deixar algo impresso _ uma história, uns dias, uns amigos, uns parentes, uns filhos, um trabalho, um livro, um conselho qualquer, um amor.

Cada passo, escolha, renúncia, dinheiro guardado, dinheiro gasto, estrada vencida, sonho plantado. Tudo passa a girar em torno dessa obra a que nos propomos ser autores e que se transforma no sentido de existirmos.

Acordar, levantar, comer, se mover, plantar, respirar. Tudo é agulha e linha na costura desse plano bem traçado, para que a vida seja feliz, plena, dentro do que estabelecemos como a meta principal de estarmos aqui.

Um dia, porém, a obra atrasa. Faltam tijolos, argamassa, concreto, telhas, fios, canos. Falta querência, vontade, sentido. E quando menos esperamos, tudo precisa ser interrompido, a obra fica inacabada e um bem-te-vi bate à janela com o seu “quem partiu já vem”.

Olhei o quintal do vizinho, ouvi o passarinho perambulando lá fora, respirei fundo e fiz as minhas orações da manhã, pedindo a Deus que seja bom presságio esse canto fino, em meio ao inverno rigoroso de agosto.

“Mesmo que a gente chore, maldiga, fique com muita raiva do destino, ele sempre é o dono da verdade. Ele sabe o que faz e o que é melhor para nós. Nunca pense que foi a última vez, que foi o último gole, o último pão. Tudo se repete nessa vida, não importa o cenário ou quem está em cena, para que possamos retomar o nosso caminho”, diria a minha mãe.

Não vou duvidar do que ela me faria acreditar. Ela sempre acertou em tudo. Até nos dias em que nos fazia levantar mais contentes, bendizendo a manhã que chegava com o canto de um bichinho minúsculo, avisando: “Quem partiu já vem, quem partiu já vem”.

O melhor presente 04:37

Desde criança ela quis muito ter o que seria o melhor presente do mundo. Pedia ao pai insistentemente. Fazia as propostas mais difíceis de serem cumpridas _ como ficar sem presente de Natal por toda a vida ou abrir mão do sorvete no fim de semana. Nada adiantava. Aquela casa não era lugar para cachorros.
Tinha raiva da vizinha, que ainda colocava mais lenha na fogueira: “Cachorro só faz sujeira, bagunça tudo, fica doente e ainda foge, deixando todo mundo maluco”.

O que a futriqueira não sabia é que cachorros pulavam alto, brincavam de tudo que se poderia imaginar, não se cansavam de querer agradar, eram amigos como poucos e ainda entendiam os recados silenciosos, se por acaso ela estivesse triste e apenas quisesse ficar quietinha, ali no canto, sem esboçar gesto algum.

Não importava, eles não queriam e pronto. Tantas tentativas em vão a fizeram esquecer o pedido. Um dia, porém, ela cresceu e a aquele sonho ficou possível. Um amigo, sabendo do seu desejo de menina, nem perguntou se caberia ou não cachorro naquela casa. Levou o bichinho, dentro de uma caixa de papelão.
Amor instantâneo, recíproco e arrebatador. “É menina”, disse o amigo. Pretinha, com uma mancha branca minúscula no peito, patas redondinhas e olhar de quem pede: “Me cuida”. Chorava e balançava o rabo, buscava refúgio entre as roupas da nova dona, que quase explodia de tanto querer bem.

Não houve quem não a quisesse. Conquistou todo mundo com aqueles olhos cor de ameixa e o rebolado desajeitado, enquanto tentava se equilibrar sobre as quatro patas. Os pais acabaram se apaixonando também e comprariam qualquer briga para mantê-la em casa. Fiel, acompanhava o pai, todas as noites, quando ele se recolhia, e dormia sobre os chinelos. Ninguém perturbaria o sono. Era a criança, a parceira, ensinando lealdade e afeto aos donos daquela casa.

Um dia a moça precisou ir morar muito longe. Sem despedidas, recomendou cuidados e disse que voltaria logo, para muitas tardes de caminhada à beira-mar e brincadeiras sem hora para acabar. Não pôde cumprir a promessa. Tuca não segurou a distância. Foi deixando de brincar, de atender aos chamados, de comer... e um dia não acordou mais. Morreu de saudade.

A moça pensou na menina, na mãe dizendo não a vida toda, naquele amor imenso que o bichinho lhe fez conhecer e entendeu que não se deve abandonar quem realmente se importa, quem faz a diferença. Nem que seja uma criatura pequena, de quatro patas, andar desajeitado e que só consiga lhe falar com os olhos.

Bicho-papão 15:31

Ela era criança normal, dizem. Aprontava travessuras, brincava com panelinhas de barro, costurava roupinhas de bonecas para suas espigas de milho, se banhava no açude, era feliz.
Tudo isso são coisas que os pais dos meus pais contaram, passaram às crianças que eles foram um dia e de lá, nos trouxeram a herança. Cada relato envolvendo a pobre moça _ que um dia ousou passar da conta nas malcriações com a mãe e teve como castigo a maldição de virar cabra nas noites de lua cheia _ vinha em três dimensões. Interjeições, falas cansadas do narrador temeroso, nos faziam tremer e querer nos aproximar dos anjinhos de candura pintados na capela do vilarejo distante.
Dizem que tudo começou quando ela se viu completamene rendida aos encantos de um jovem, recém-chegado, de férias dos seus estudos na capital. Filho do dono da única mercearia nas redondezas, onde de tudo se encontrava.
Moço rico, cheio de vontades estranhas, de modos esquisitos e que, diferente da maioria dos moleques que andavam pela vila, não usava bigode e ainda ostentava cavanhaque curtinho, enfeitando o queixo quadrado.
Num final de tarde, foi comprar o que faltava para a ceia _ costume dos mais velhos, que não iam dormir sem antes saborear um “quase banquete”, servido às oito da noite, regado a bom trago (para os homens) e chá de ervas (para as mulheres).
Paixão instantânea, fulminante. Era dele todo o amor que havia guardado. Não haveria outro.
O moço, completamente desinteressado, não se fez de rogado, porém. Aceitou a ingenuidade da jovem e, em troca, lhe deu enganos e desprezo. “Caiu na boca do povo, caiu na boca do povo”, foi a sentença em cada esquina.
Mãe viúva, desesperada, pôs a “perdida” de castigo, trancafiada em casa, e a proibiu de voltar a encontrar o enganador, que não tardou em escapolir da vila, com medo de ser obrigado a pagar pelo “mal feito”. Apaixonada, a filha desafiou a autoridade materna e levantou as mãos àquela que lhe dera à luz. O castigo veio a cavalo - ou melhor, em uma cabra, que lhe tomava o corpo nas noites em que a Terra encarava a lua.
Pior: a moça ganhava asas escuras _ tipo ave de rapina _ e rasgava o sereno da madrugada com seus gemidos altos, causando arrepios até nos mais incrédulos. Nunca mais amou, nunca mais pôde voltar, a “Cabra alada”. Perambulava na mata, viveu não se sabe como nem até quando. “Talvez pra sempre, na solidão dos ingratos”, refletiam os mais velhos.
Toda essa contação nos era repetida, sempre que alguém ousava desrespeitar os mais velhos ou tentar desafiar a autoridade dos pais. Funcionava que era uma beleza e ninguém precisava de lei impressa para que o respeito se estabelecesse. Tudo era feito na base da confiança, dos causos ingênuos, da cumplicidade e da partilha.
Palavra dos mais velhos era a própria lei. Bichos-papões iam embora quando a criança dava lugar ao adulto e as histórias de cabras aladas ficavam entre as boas lembranças dos tempos de meninos e meninas, criados com amor.

Uma paraíba no frio (3) 14:09


A coisa é complicada. Mesmo depois de cinco longos invernos, meu pobre e franzino corpo não está pronto para enfrentar a maratona do frio. Reclama, o bichinho, que dá dó. Não adiantam, porém, suas queixas, porque eu realmente não sei o que fazer para aplacar a fúria gelada que toma conta de tudo, invade as paredes, desafia os vidros das janelas, a montanha de cobertas jogadas sobre a criatura indefesa _ ali, parada, sem forças para se mover, deslocar qualquer ínfimo centímetro no colchão que lhe abriga noite adentro.
 

Achando que já tinha o controle sobre esse tal frio, até zombei de amigos catarinas, invernos passados. Não imaginava que aqueles eram invernos atípicos, camaradas, bonzinhos comigo. Fui completamente enganada pela estação, que deixa tudo bem bonito em volta, não posso negar, mas que tem me atormentado dia e noite. É sério, está bem difícil levar essa coisa...
 

Gosto de ver as pessoas nas ruas, encasacadas, com mãozinhas nos bolsos, cachecóis no pescoço, botas, gorros, luvas, exibindo o charme que só o inverno traz. Gosto também de me sentir meio borboleta nesses dias, me enclausurando em casa, me enchendo de sopas, massas, calorias, filmes, chocolates quentes, músicas gostosas tocando enquanto escrevo, enrolada na manta de lã, em paz.
 

Mas isso tudo é muito bom enquanto o frio é suportável, enquanto não chega a fase dos “ais” e “uis”, de dor mesmo, dor de tanto contrair os ombros, dor de colar uma perna sobre a outra _ em vã tentativa de aquecê-las _ nas mãos, na cabeça, na face.
Quando o frio chega nesse ponto, a diversão vai embora e peço a Deus que desligue o ar-condicionado, porque está perto de até o ar ficar sólido e todo mundo virar picolé.
Essa semana foi a mais fria de toda a minha vida _ e olha que já se vão quase quatro décadas de existência sobre a face da Terra. Durante o dia até que a coisa vai mais amena. À noite, no entanto, o bicho pega.
 

Primeira etapa: o banho. Terror no terceiro andar. Chuveiro ligado, prestes a queimar a resistência, banheiro fechado e o ritual desesperador, entre começo, meio e fim. Quilos de roupa, pulinhos para aquecer. Seca cabelo, seca, seca, seca. Alívio. Abre porta. Toca o terror parte dois. Mais pulinhos, breve corrida: quartos, sala, cozinha. Vamos ao jantar.
 

Comida quente, espumando de tanta caloria. Capricho nas massas, nos queijos, nata, bacon, pimenta. Vai de tudo um pouco. Jantar no sofá, enrolada na coberta, com prato quente sobre almofadas estrategicamente aprumadas no colo. Finda a refeição, hora de correr pra cama, ligar a TV e pedir a Deus que tudo comece a aquecer o mais breve possível.
 

Dica: faça como as cobras, se arraste lentamente, vá reconhecendo a área, para não ser pega pela parte que ainda está gelada. Desça sob a montanha das cobertas, enfie a touca na cabeça, deixe apenas o nariz de fora e espere o sono colaborar e lhe trazer a ausência dos sentidos temporária, que lhe manda para longe do mundo gelado por algumas horas. A paz, enfim. Até que o novo dia chegue e tudo recomece, enquanto o inverno durar.

Feriado Nacional 22:34


É caso de amor estranho, esse do brasileiro com a gorducha. Jogada de pé em pé, nos gramados, nos campinhos de várzea, tolerando todas as pancadas em nome da paixão dos que lhe chutam, maltratam, mas não saberiam viver sem ela. A coisa merecia ser estudada, tamanha a idolatria, com suor e lágrimas.
 

Pois o que dizer da peregrinação de uma amiga, bem no dia da eliminação do Brasil diante da Holanda em clínica da cidade (ela me garante que foram seus agouros, sua indignação e seu desejo de vingança que provocaram a partida antecipada dos atletas canarinhos)?
“Marquei com antecedência, criatura, fiz tudo direitinho. Ainda perguntei à moça que me atendeu se não teria problema marcar para a manhã desse bendito jogo, porque eu já não ando bem de saúde e não queria voltar para casa pior do que saí”, contou, indignada.
 

Ela saiu de casa às 8h30 (a consulta foi marcada para as 9h30), caminhando pelas ruas largas da Cidade Azul, já percebendo a atmosfera verde e amarela tomando conta de tudo. A euforia parecia se solidificar no ar, que ia ficando mais estranho a cada minuto _ com vuvuzelas estridentes soltando gritos fanhos em rápidas passagens de carros, enfeitados de bandeirinhas, com ocupantes praticamente pendurados nas janelas.
 

“Definitivamente, eu não gosto de futebol. Mas Copa é diferente, concordo, porque é o país sendo representado, são as cores da bandeira, tem a coisa do hino... O que não dá pra engolir é transformar o dia do jogo em feriado ou coisa pior. Tudo para!”, explodiu, visivelmente indignada.
 

Eu, calada, fui ouvindo o desabafo.
“Cheguei lá às 9h10, vinte minutos antes da consulta. Poucas pessoas ainda sentadas nas cadeiras de espera, pareciam não acreditar no que viam. Funcionários correndo de um lado ao outro, chamando os colegas às caronas. Falaram na cara dura que eu havia chegado tarde e que o expediente era até as dez, naquele dia especial. Mas que mané dia especial? E que dez horas da manhã, minha filha? Ainda nem são nove e meia!”, foi lembrando, furiosa, quase sem ar.
 

“Uma funcionária com cara de vó quase me bateu, porque eu estava querendo atrasar as pessoas pro jogo”, continuou. “Foi salva por parecer avó. Vencida, dobrei o papel, a esquina e desejei _ do fundo do meu coração _ que o Brasil perdesse a partida e fizesse todo mundo acordar do transe”, despejou, quase mordendo os lábios.
 

“Ontem guardei minha camisa, para 2014, com um belo sorriso nos lábios. Lembrei da atendente com cara de vó e torci para que ela me atenda na próxima consulta. Vou dar meu melhor bom dia, meu maior sorriso, e jogar o placar da Holanda na cara dela, saboreando cada palavra”.
 

Como dizia, caso de amor estranho esse. Mas amor que se preza tira o bom senso, deixa todo mundo meio tolo. Ao final da conversa, ela se despediu: “Vou indo. Não perco por nada esse jogo de hoje. Vou secar a Argentina pra ver Maradona voltar mais cedo pra casa”.

Olho vivo 01:17


Você sabe que mais cedo ou mais tarde ele virá. Desde muito cedo lhe ensinaram: ele vai chegar. E então, começa a tal espera. Várias vezes você pensa que a hora se fez, o momento mágico. Engano, quase acerto, erros grosseiros. Quedas, depois de escaladas extenuantes, lágrimas, sorrisos desconcertantes, mais lágrimas, centenas de negações, desistências. Finalmente, vem o tempo de amaldiçoar o estranho convidado que se recusa a chegar.
 

Ele vem, ele vem, sopra a voz lá dentro. Um dia, a profecia se cumpre e a vida faz um sentido danado. A mais simples lembrança vira o bilhete premiado, que abre as portas à certeza: é amor.
 

Dali por diante tudo é festa. Não há o menor espaço, a menor possibilidade para a dor. Não há tempo ruim ou coisa que se faça maior que aquela paz tremenda que se instala, de mala e cuia, dentro de quem se pega apaixonado.
 

Chegam, então, os dias de erguer a fortaleza em volta de si, para que nada possa tocar o convidado _ que a essa altura já se fez maior que você, se tornou seu dono, seu senhor, responsável pelos desejos, pelas escolhas, pelas renúncias.
Dois viram um, partilhando confidências, cama, estradas e o banquete que ninguém mais pode provar. É tempo de falar baixinho, gritando nas paredes do outro as palavras mais lindas, guardadas a vida toda para aquele ser de outro mundo, único exemplar em todo o universo capaz de lhe tornar feliz.
 

É tempo de mãos grudadas, incansáveis no trato com a pele do outro. Tempo de pedrinhas na janela, do mesmo copo, de tomar o leite com nata para fazer o parceiro (que detesta nata no leite) mais contente no café da manhã _ mal sabe ele que você passa mal só de pensar em nata nadando sobre o seu café.
 

Chegam as horas das descobertas, do pedalinho no lago, das caminhadas na praia, dos jantares à meia-luz, do cinema, da saudade arrasadora quando o outro sai de perto por instantes, para em seguida voltar, maior ainda do que antes em sua vida.
Chega a hora de querer levantar e dançar coladinhos, na sala de estar, sem motivo algum, e sem música alguma tocando no seu "três em um".
 

Vem o momento em que você respira fundo, olha o outro ali, ao seu lado, e agradece a Deus por ter encontrado aquilo que ninguém mais no mundo achou: aquele amor, o seu, o maior, invencível, para sempre.
 

Esse é o momento de você cair fora, companheiro. É a hora certa de retomar sua vida, sair à francesa. Porque o amor é traiçoeiro, lhe arranca de você, lhe dá o outro, lhe põe em transe e quando você pensa que o tem, ele mostra quem manda e vai lhe deixando sem que você perceba.
 

Ele vem, mas ele vai embora sem cerimônia e ainda lhe cobra a conta pela hospedagem. Leva de você a alegria, a certeza, a força, a fome, o sono, todas as vontades, todos os sonhos. Ele nasce, cresce e morre, num súbito ataque do coração (e isso não lhe ensinaram).  Faça de conta que acredita nele. Deixe-o pensar que lhe engana. Use e abuse desse enganador. Peça que ele vá à esquina comprar cigarros e suma, antes que ele possa voltar e desfazer de você.

Ela e o mar 11:23

Jamais havia visto algo igual. Entre o sertão e a nova cidade que lhe acolhia, tudo era novidade. Até mesmo as pedras do caminho, a poeira escura, quase molhada, as nuvens _ tão baixas que a impressão que tinha era de ter alcançado as alturas (ou teria o céu descido à terra?).
Os pássaros voavam bem perto do velho caminhão, que levava a família inteira, agregados, mobília, lembranças e os animais, que reclamavam de sede, calor e do sacolejo constante dos pneus carecas na estrada esburacada.
A esperança de que um dia voltariam os mantinha vivos e com forças para suportar a distância, as ausências de quereres e o enfrentamento com os novos costumes, que não lhes dariam arrego: ceder ou desistir e voltar atrás.
Mas voltar para onde? _ pensava a menina, prestes a completar treze anos, ainda amante das bonecas de pano, dos banhos de chuva (quando havia a chuva) em meio à euforia nas ruas, dos doces feitos com água e açúcar, no velho tacho da mãe, incansável madeira, dura de envergar.
Maria só pensava em uma coisa. Martelava, alimentava, acalentava somente aquele sopro bom que lhe haviam dado antes da partida: ela certamente veria o mar. Teria o mar todinho pra si, sem ter medo algum de que um dia ele pudesse ter fim.
“O mar não seca. Finge que vai embora e volta, o tinhoso”, contou Jandira, prima de sua mãe, antes do último dia em casa. E foi falando, quase como quem dizia uma reza, contava segredo, pra que o mundo não soubesse que ela sabia. Mas ela sabia. E foi dizendo: “O mar brinca com os pés da gente, fica manso, fica brabo, fica manso fica brabo... É como se fosse o céu, só que mexe o tempo inteiro e tira a areia debaixo dos pés da gente”.
A menina ia se embalando, pensando no balanço que as palavras tinham e pôde sentir aquilo que lhe diziam ser o mar.
“Tem mar que parece gente. Canta, fala baixinho, sopra coisa boa, sopra coisa ruim. Tem mar que bufa feito a serra, quando cachimba no fim da tarde. Tem mar que só fica ali, quieto, sem se mexer, pronto pra dar o bote. É preciso ter cuidado com o mar. Porque ele às vezes enfeitiça e puxa a gente pra dentro dele. E o mar, o mar não tem cabelo onde a gente possa se agarrar”, contou Jandira.
Aquela romaria lhe veio à mente, como se aliviasse o cansaço da viagem. Até que, de repente o motor ficou calado. Alguém lhe tirou do sono leve e mostrou a casa nova. O mar ainda não estava ali. O encontro ficou para anos mais tarde, quando já tinha marido, filhos e netos. Muitos netos _ nascidos e crescidos de cara para o mar.
Naquela tarde, quase meio século depois da despedida, do adeus a Jandira e ao sertão, ela não esquecia os conselhos e a reza doce que falava do mar. Seu coração sertanejo avisava às crianças, que traziam seus traços e repetiam seus gestos, sorriam, quando ela repetia sem parar: “Voltem! Voltem! O mar não tem cabelo!”.

A fábrica 11:17

Sabíamos que aquele lugar deveria guardar muitos mistérios. Isso já nos bastava para sentirmos desejo enorme de vencermos a montanha que não parava de crescer e gerar filhotes, dentro dos muros de tijolos à vista, escurecidos pela fuligem e pelo tapete de musgos.
 
Não tínhamos a menor ideia de como nem quando fazer, mas faríamos, mais cedo ou mais tarde. Encasquetamos com aquilo e estudávamos secretamente as possibilidades de driblarmos o vigia, os funcionários e o gerente _ que era nosso vizinho e sempre parecia enfurecido, pronto para nos manter distantes, com um belo pontapé no traseiro.
 
Era melhor não arriscar enquanto as máquinas funcionavam, pensava, já que eles estariam circulando pelos corredores e nos teriam como presas fáceis, a um palmo das garras afiadas. Fui convencida do contrário pelo resto do grupo: o barulho das máquinas estaria a nosso favor. Poderíamos pular o muro sem nos fazer notar e mesmo que desmontássemos o mundo, eles não ouviriam.
 
Meu sonho era deitar e rolar naquela montanha de fibras _ extraídas dos cocos secos, maior riqueza da cidade. Dali, as fibras eram jogadas nas máquinas, limpas e depois transformadas em cordas, enviadas aos mais longínquos recantos. Antes disso, bem que poderiam nos servir de brinquedo.
No final de uma tarde morna, quando o sol tentava a todo custo vencer o nublado de julho, corremos feito loucos atrás de tanajuras, entrando e saindo de quintais, pulando poças, rodeando a fábrica.
 
A tentação nos venceu e começamos a escalada. Largamos as latas (carregadas de formigas cortadeiras), aproveitamos as brechas no muro e caímos no monte de fibras. Subimos e descemos tantas vezes que perdemos a conta. Pulamos, cavamos cavernas, escorregamos e voltamos a subir. Até ouvirmos o grito rouco, lá de dentro: “Traz água! Tem fogo nas máquinas!”.
 
Por um instante pensamos em pular e correr para longe. Mas nos detivemos no desespero dos homens, que pareciam loucos, tentando conter as chamas.
Pegamos nossos latões, nos livramos das tanajuras e viramos formiguinhas _ juntando água do poço e agilizando o trabalho dos funcionários.
Vizinhos foram chegando de todos os lados, apressados em não deixar o fogo chegar ao telhado e se espalhar até as fibras.
 
Não entendíamos totalmente a extensão do problema, mas sabíamos que não podíamos parar de pegar água.
A noite chegou com muita fumaça, cheiro de querosene no ar, mulheres, homens e meninos esgotados. No entanto, aquele dia tinha sido nosso. Éramos, enfim, bem-vindos à fábrica de cordas, já que havíamos ajudado a salvá-la.
 
Foram muitas as tardes em que voltei lá, até que aquela montanha foi me parecendo cada vez menor.
A fábrica ainda existe, no mesmo lugar, produzindo cordas fortes, trançadas pelas mãos calejadas de velhos conhecidos, que um dia foram meninos sonhadores e brincaram comigo de explorar quintais.

Tarde demais 13:17

Ela disse que não sei mais sonhar. Ela e sua mania de teimar em dizer o que pensa, mesmo quando o que pensa nada tem a ver com a verdade. A minha verdade, pelo menos.
Ela me disse que já me viu melhor, que eu já tive mais viço, mais alma, mais paixão e mais vontade. Cobrou-me desejos dos vinte anos quando já beiro os quarenta. Cobrou-me a luz que me emprestou e esqueci de multiplicar, dividir e devolver.
Ela disse que nada mais em mim se parece comigo, que nada mais resta de bom, de tudo que já conheceu e lhe fez ter querência, afeto, admiração. Ela me disse. Disse tanto e com tamanha força que me despedaçou feio. Baqueei, tremi, suei frio e quente. Deixei-me levar por tristeza tão imensa que quase acreditei em tudo que ela disse. E com a mesma força.
Perdi o sono, a fome, a vontade. Perdi a fé, a esperança e tive medo, muito medo de ter morrido antes mesmo de viver tudo que eu pensei ter vivido. Tive medo de ter sonhado com tudo que achei tão meu, tão concreto, tão bonito e tão único. Tive medo de realmente não ser mais aquela menina. A que tudo enfrentava sem qualquer receio de não conseguir, a que buscava água na terra mais árida (e encontrava sempre), a que apostava, arriscava, com coragem e persistência.
Ela disse que era tarde demais para mim. E disse que não havia mais nada a ser feito por mim, comigo, para mim. Que os caminhos, todos, estavam fechados, apagados à minha frente. Que a luz no fim do túnel não existia, que os meus dias eram findos e minhas preces certamente não seriam mais ouvidas por Deus. E me falou em caridade... em caridade.
Ouvi tudo com amargo terrível nos lábios. Minhas lágrimas deixaram sulcos em meu rosto, marcaram a ferro a minha alma. Por onde passaram, arderam como brasa. Meu grito ficou contido na garganta, latejando, doendo, batendo forte _ como se o coração realmente pudesse me saltar à boca. Coração que eu já nem deveria ter, segundo ela. Já que tudo estava perdido em mim.
Mal sabia ela que havia um espelho em meu quarto, quando cheguei em casa. E que ele me salvou a vida.
Ainda havia em mim dois olhos. Dois olhos castanhos e lembranças. Lembranças coloridas. Havia também a música, que ouvi baixinho. Havia um pai, uma mãe e três irmãos em mim. Também encontrei lá quatro crianças lindas, que me sopraram a face, com uma ternura tão imensa que me fez sentir o beijo de Deus na primeira criatura.
Ainda havia em mim a coragem de chorar. Chorar tudo, recobrando a força, a vontade, o desejo, a fé. Quebrei meu silêncio, o jejum e todas as correntes que me travavam os pés.
Não, não é tarde. Não tenho mais vinte anos, não tenho mais a inocência, não tenho mais o vigor de antes. Tenho, no entanto, dignidade, herança boa. Tenho valentia de sangue sertanejo, tenho saudade, tenho lembranças e muita estrada atrás e à minha frente, sim.
Bendito espelho que me fez enxergar quem sou. Bendito amor que me tenho, que me fez e que me leva a querer continuar vivendo e apostando em mim.

Meninos pagãos 13:20


Histórias que a gente ouve na infância ficam. Não tem jeito. Principalmente se o narrador é dos bons, daqueles que inventam vozes, recheiam as falas com sonoplastia digna dos melhores filmes de suspense e gesticulam como se vivessem a cena.
Eu tive bons narradores, dos melhores mesmo, nos primeiros anos da minha vida. E eles sabiam que eram, mesmo não tendo plena consciência das técnicas usadas. Caprichavam, rebuscavam efeitos e nos impressionavam de verdade. Deles ficaram também as lendas, os cuidados, os medos.
Pois bem, sei que se quebrar o espelho do meu quarto não terei sete anos de azar. No entanto, torço para que não aconteça. Sei também que se tomar banho depois do almoço não vou entortar sem conserto, mas... Se fizer careta e o galo cantar, se passar embaixo de uma escada, se comer manga e tomar leite, se comer melancia depois das seis da tarde, se cruzar uma encruzilhada...
Tudo isso é coisa besta, história pra boi dormir, mas eu não vou teimar com quem já viveu mais do que eu. Não mesmo.
Então, uma das histórias que mais me meteram medo e que até hoje me rouba o sono só de lembrar é a dos meninos pagãos. Reza a lenda, lá nos confins de São José da Coroa Grande, que se uma criança morre pagã jamais deixa de assombrar a casa, até que se faça um batismo simbólico e a torne cristã.
Perto da minha casa havia enorme castanholeira, onde os meninos pagãos vinham chorar sempre que morria mais um na cidade. Sob essa árvore eram realizados os batismos.
A estranha cerimônia era bonita de se ver. Mulheres vestiam branco, misturavam candomblé com orações cristãs, dançavam, se banhavam com sal e flores e ofereciam suas preces pelos anjinhos.
Chegávamos a ouvir o choro _ que na verdade era uma cuíca qualquer tocada entre os atabaques e os gemidos das mulheres _ e todos os fios de cabelos se arrepiavam.
Não sei onde foram parar os meninos pagãos, que hoje não choram mais, já que a árvore foi cortada para dar lugar ao asfalto. Não sei onde estão aquelas mulheres, seus atabaques, orações e cuícas.
Sei apenas que as histórias, os costumes e força daquela gente ficaram em mim. Para sempre.