Um dedo de prosa

Germana Telles

Michael and Neverland 07:23

Andávamos apressadas pelas ruas do Centro de Caruaru, eu e minha irmã mais velha, numa tarde de agosto de 1977. As idas ao Centro sempre eram uma farra para mim. Todas aquelas vitrines, o caminhar ligeiro de quem passava, o barulho dos vendedores ambulantes, carrinhos de pipoca, bicicletas. Tudo exigia pressa e nós obedecíamos ao ritmo ditado pela coletividade aflita de tempo, que não tinha mais como ser esticado.
Nada parecia poder deter aquele motor acelerado do dia, nada seria grande o suficiente para impedir a engrenagem, pensávamos. E minha irmã era exímia aprendiz. Cortava carros, ruas, desviava carrinhos-de-mão, postes e mexeriqueiras com arte. Eu ia junto, levada por ela, que apertava tanto minhas mãos a ponto de me fazer pensar que os ossos saltariam, esmagados. Perninhas de sabiá, finas, pés pequenos compondo xotes, sambas, xaxados, no bater das alpercatas nas calçadas: chelépt, chelépt, chelépt. Naquele dia, eles devem ter impresso um rock no asfalto.
A tarde, enfim, cedeu à notícia gritada aos quatro ventos pelos alto-falantes da Igreja Matriz: Elvis está morto. Nada, ninguém teria a força de deter a pressa? Engano. Elvis fez a história mudar e girou o mundo ao contrário naquele instante. Todos os ponteiros enlouqueceram, o tempo engatou a ré e puxou o freio de mão. Parecia mágica, pirlimpimpim. Tudo se rendeu à tristeza.
As mãos da minha irmã finalmente me deram carta de alforria e foram enxugar suas lágrimas. Músicas quentes encheram a cidade. Foi a primeira vez que me dei conta daquela voz, meio rouca, de algodão, cantando “Always on My Mind”. Cada poro se abriu pra deixar entrar aquela ternura, aquele conforto que a voz me trazia.
Conheci Elvis no dia da sua morte e descobri o poder de suas canções e sua voz em meio ao choro de uma cidade inteira, consternada, cortada pela dor. Os carros berraram menos, as buzinas pararam de tocar, as mulheres desistiram das fruticas, os homens cerraram as portas do comércio e o dia acabou antes das seis.
Essa semana voltei àquela tarde, quando o Rei do Rock deixou os palcos para virar lenda. Lembrei cada detalhe do dia em que o mundo começou a duvidar da morte do rei. Alguns ainda duvidam que ele sequer existiu: foi um sonho coletivo e, de repente, acabou. Outros garantem que ele anda disfarçado por aí, observando como conseguimos viver sem ele, desfrutando do anonimato, feliz da vida. Só os grandes têm esse poder, de deixar o corpo e virar lenda.
O mundo revive o mesmo torpor com a repentina saída de cena do Rei do Pop. Michael Jackson pregou uma peça em seus fãs e fugiu das despedidas. Alguns com certeza teimam em dizer que este foi mais um sonho. Era grande demais, estranho demais, luminoso demais para ser verdade. Agora, é hora de acordar e enfrentar a realidade, sem ele.
O 25 de junho vai entrar no calendário como o dia em que a Terra pariu mais uma lenda. Talvez Michael tenha se coberto com uma capa mágica, saído pelos fundos, em busca de outros caminhos. Ou, quem sabe, ele era mesmo o menino encantado, que vive entre fadas, duendes e piratas, e agora partiu feliz para a Terra do Nunca _ onde os ponteiros não andam e a juventude é eterna.

Receita perfeita 22:04

E então, de repente, você se vê diante daquele mesmo sorriso que lhe fez tão feliz por breves instantes que duraram uma eternidade. Ou sente novamente o cheiro que tirava o fôlego _ misto de solo molhado pela chuva e frutas da estação. Pressente, de longe e vindo sem pressa, aquele som gostoso de brisa, de água corrente batendo nas pedras, e tudo vira um grande parque de diversões.

O estômago revira, como se a estrada que se abre bem à sua frente fosse uma enorme montanha russa ou seus pés ganhassem velocidade e lhe empurrassem numa pista de corrida, sem freios e sem medo algum.

Nada pode lhe deter, porque você tem a força dos deuses. Nada é mais saboroso do que aquele estalo na face, nada é mais quente do que aquele ardor queimando o rosto. As palmas das mãos viram fontes, de onde jorra um suor frio, regando todas as sementes do mundo. E, assim, um canteiro colorido preenche todos os espaços.

O frio na barriga, os tambores no peito, a sensação de paz. É assim que a gente fica quando a paixão chega, sem aviso, sem motivo aparente. Você se vê preso àquela vontade de estar perto do ser humano que resume todas as alegrias, todos os lugares queridos. Uma só pessoa resume tudo que lhe faz bem.

Não é por aquele cabelo, de um tom negro inigualável, nem pelo jeito de andar que desconcerta ou pela voz que joga todas as canções preferidas, todas as preces fervorosas, todos os versos dos grandes poetas no ar. Muito menos porque ele faz o melhor brigadeiro de colher ou sabe tocar violão como ninguém. Não é porque naquela noite chuvosa, quando o dinheiro parco no bolso só dá para comprar uma pipoca, ele abre um guaraná e finge que é vinho branco e sorri ao seu lado vendo desenhos animados e transforma isso no melhor programa do mundo.

É tudo isso junto, é uma panela cheia de coisas boas que lhe é servida à mesa, num prato cheio de felicidade. Estar encantado, enamorado, apaixonado é ficar completamente cego, sem chance alguma de enxergar defeitos ou o resto do planeta em volta. É sentir-se anestesiado, embasbacado, sem direção, embora a vida ganhe todos os sentidos.

Descobri, enquanto passeava por dentro de mim, pensando em todas as escolhas que já fiz para me manter feliz, viva, com a sensação de que achei meu verdadeiro intento nessa vida. É simples, é fácil assim. Descobri isso ontem mesmo: buscamos no outro o que de melhor existe em nós. Não é de um estranho que ganhamos o maior presente. É das melhores lembranças da vida que se faz um grande amor.

Quero mais! 03:19

Mais um almoço de domingo. Mesa posta, barulho de sempre, cheiro bom vindo do fogão a lenha. Falação interrompida coma chegada de convidados à porta. Dona Maria, sertaneja calorosa, se apressou para receber o povo esperado.
Eram os parentes do turco Abdala, vizinho que havia se instalado em Barreiros há mais de trinta anos, casando e criando os filhos na cidadezinha que os adotou, ao longo do tempo. Passaram a viver sob as regras e costumes do lugar, unindo os hábitos orientais aos modos pernambucanos de sua esposa, Chiquinha. No fim, a receita deu certo.
A mulher, brasileira, era a comadre preferida de Dona Maria. Por isso, as duas resolveram fazer o almoço unindo as duas famílias e os convidados de fora. O planejado foi um farto cozido, buchada de bode e galinha à cabidela. Na sobremesa, doces de mamão com coco, jaca e banana em calda.
Para abrir o apetite, a entrada seria a boa cachaça “de cabeça”, produzida na usina local. E quanto mais o tempo passava, mais as mulheres se animavam e caprichavam no almoço, transformando a cozinha em festa. Na hora de servir, a mesa enorme se encheu de comida e gente festeira.
Os convidados, a essa hora, já haviam tomado quase toda a cachaça, embolando mais ainda a língua, sem entender nada do que os anfitriões falavam, a não ser quando Abdala resolvia colaborar, se desvencilhar dos pratos e dar colher de chá aos compatriotas.
Foi então que Dona Chiquinha resolveu dar uma pitada do jeitinho brasileiro na festa. Aos cochichos, resolveu que a brincadeira ficaria mais engraçada. Falou algo ao convidado do marido e esticou o braço em sinal de sirva-se.
O homem provou de tudo um pouco, fez suas preces e mandou ver na buchada. Antes de terminar a primeira etapa da refeição, já suava feito chaleira e esfregava o lenço pelo pescoço, mãos e rosto, completamente encharcados. Sentindo que não daria conta do recado, chamou Dona Chiquinha e perguntou algo em mais um cochicho.
Sorrindo, a mulher esperou o pedido. Eis que o homem solta um “quero mais”. Dona Maria, feliz da vida, fez questão de colocar mais bucho, pirão e um pouco da galinha à cabidela no prato do convidado. “Prove a galinha também, aposto que vai querer repetir”.
Espantado, o convidado não fez desfeita. Passou mais uma vez o lenço entre o riacho que brotava da pele e comeu tudo _ dessa vez mais devagar.
E assim a cena se repetiu por mais umas três vezes. “Quero mais, quero mais, quero mais!”, bradava o moço do Oriente. E mais bucho, galinha e cozido. Até que alguém se compadeceu e perguntou ao chefe da família vizinha se havia algo errado com o convidado, que a essa altura já mudava de cor.
O marido, então, recobrou a lucidez e percebeu Dona Chiquinha passando mal de tanto gargalhar, nos fundos da cozinha. O homem achava que ao dizer quero mais encerraria a refeição, caindo na lábia brasileira, quase morrendo de congestão depois.
A história foi contada durante anos nos almoços de família. E todas as vezes que se repetia “quero mais” à mesa, lá vinha a imagem do pobre convidado e a certeza de que todos já estavam satisfeitos. Tendo como sobremesa as fartas gargalhadas de minha avó Maria, com sua alma de criança solta pela casa, até o último dia.

O Amigo da Onça 03:08

E aí ele aposta que você não vai conseguir, lhe dando cordiais tapinhas nas costas. Ele banca, ele solta lorota, ele é o esperto do grupo. Finge que é o dono da parada. E, no fundo, sem saber de nada, o homem esperto está por fora de tudo. Sabe a pipoca que flutua no copo do guaraná, em meio à festa sem graça? Esse é o cara, o arroz de festa, que se enche de falsa modéstia e segue em frente. Pois era assim “O Amigo da Onça”, que fez sucesso nos tempos dos meus pais e que ganhou fãs por todo o Brasil nas páginas da revista O Cruzeiro. Hoje, milhares de imitações baratas se espalham pelas esquinas e pegam muita gente de assalto. Os mais desavisados ainda se espantam, como eu. É triste, meus companheiros, perceber que o sentimento alimentado por décadas, anos, meses, dias, horas que sejam, de repente se mostra uma grande balela. E a humanidade nos prega dessas peças. A gente finge que não vê, deixa passar, quase sem querer perceber... Mas uma hora ou outra _ mais cedo ou mais tarde _ a madura essência nos cobra a lealdade, a coerência, o bom senso. Dia desses dei de lembrar dos casos contados por meu pai. Esbarrei com aquela figurinha, desenhada com traços finos e de fina ironia, que fez festa na minha infância, enquanto folheava as velhas revistas no arquivo da biblioteca. Pois, pois... O cara, que enfrentou a onça _ e deu origem ao personagem tão afamado _ foi aplaudido e adorado até os anos de 1960. Tudo para ele aconteceu num salto, literalmente. O famoso personagem um dia se viu cara a cara com uma onça, e não dispondo de armas ou amigos que insurgissem em seu favor não viu outro caminho que não dar um belo berro. A onça, reza a lenda, escapuliu louca de medo e nunca mais apareceu. O espanta-onça era baixinho, de rosto afinado, com brilhantina no cabelo e ar de sabe-tudo. Não sabia nada, não tinha certeza de nada, não fazia nada por nada, por ninguém e ainda assim acreditava que era “o cara”. Completo insignificante. De língua solta, talento nenhum e vontade de ganhar o mundo com um berro gigante, diante dos bichos graúdos que lhe impunham terror. O filme se repete, as tiras continuam as mesmas, nas calçadas, nos bares, por todos os lugares. Os amigos da onça vivem, senhores. É bom ter muito cuidado com eles. A história se repete, e eles continuam apostando que você não vai conseguir, dando cordiais tapinhas nas costas e inventando causos para o boi dormir. Ou melhor, a onça.

Louro da Sanfona 05:03

Ele tinha sete anos e nunca tinha visto a chuva. Uma vez só, ele quase encontrou com ela, quase chegou a vê-la, mas caiu doente, justo no dia que ela veio e não pode sair da cama. Diziam que foi a coisa mais linda de se ver. Ele só ouviu o barulho dos latões e a algazarra dos amigos, dos velhos, moços e o chororô das mulheres, agradecendo aos santos por toda a lama que invadia a cidade e lambuzava a cara de todo mundo.

Chalapt, chalapt, chalapt. As alpargatas zunindo no meio do mundo... E ele doido pra levantar daquela cama de palha, sair do quarto escuro e se fartar de chuva. Não foi. Ele sempre não ia, não sabia, não conhecia, ficava para trás.

Por isso, tomou força, cresceu bem muito aquele intento: ele faria chover, faria sim. Mas como fazer? Um dia ele ouviu Zé da Gaita dizer que a música chamava coisa boa, trazia fartura das boas. Quem canta os males espanta, dizia a mãe. Pois aprenderia a tocar um instrumento. E foi atrás de Xerém, porque ele era sanfoneiro conhecido, tocava em tudo que era festa, e sabendo o motivo pelo qual ele precisava aprender, não se negaria a ensinar. Afinal, quem não queria ver a chuva descendo à terra?

O homem abriu aquele sorriso amarelo _ porque sim, tudo era amarelo naquela pessoa: dentes, mãos, unhas, olhos e cabelo. “Tocador? Você quer ser tocador, menino?”. O homem ainda zombava dele? Depois de muito balançar a pança redonda, bater os pés com força no chão, jogar o chapéu sobre o balcão e olhar bem firme para ele, Xerém tossiu de leve, cuspiu fora o fumo e aceitou a tarefa. “Pois se você fizer chover mesmo, nem precisa me pagar nada”. Trato feito.

A sanfona pesava, machucava as pernas finas, calejava, doía. Mas era preciso suportar. O nhém, nhém, nhém desafinado aos poucos foi tomando corpo e ele olhando pro céu. Nenhuma nuvem aparecia, mesmo com os primeiros acordes, depois de duas semanas de aulas _ quando Xerém achava tempo e vontade pra ensinar ou quando não estava bêbado demais para isso.

Numa noite quente, enquanto tentava tirar algumas notas da sanfona velha, pensou: não adianta, vou morrer e não vejo a chuva. Foi sentar embaixo do umbuzeiro no quintal. Desistiu de ser homem, de trancar aquela mágoa da terra seca que lhe impedia de ser feliz, e chorou. Chorou mesmo, de soluçar, feito menino chora. Deixou que toda a raiva saísse pela garganta, que todos os sonhos escapassem nas lágrimas e fossem embora de uma vez, para nunca mais voltar. Porque não adianta sonhar quando a única certeza que se tem é que nada acontece para quem tem sete anos, se mete a besta e quer desafiar Deus nessa vida. A chuva não era para aquela gente. Ali, naquele fim de mundo só tinha era desgraça mesmo, pensou.

O choro cresceu, o lamento foi ficando fino, feito som de sanfona velha. A música mais triste que ele já havia tocado saía de seu peito pequeno, apertado feito fole gasto. Os primeiros pingos tocaram o chão. Ele não se deu conta, porque era tanta lágrima que nem ligava mais. Mais um, mais outro e mais uns vinte pingos fortes. De repente, ele parou de chorar. Viu as portas dos vizinhos se abrirem. Amuados, sem jeito, como se sentissem vergonha dos seus desejos, eles ganharam a calçada.

A chuva! A chuva veio! Gritaram os amigos, lhe chamando para a festa. Era a sua vez, era chegada a hora. Sem medo algum de estar sonhando _ e se fosse sonho, ele morreria dentro dele _ Lourival tirou a roupa, correu pro centro do terreiro vermelho e se deixou tocar por Deus, ali, no meio da lama quente.

Nasciam ali, naquele instante, as melhores canções que o sertão conheceu. Morria ali o menino e surgia Louro da Sanfona, o maior tocador que existiu no Pajeú.

A parte do morto 02:18

Ele não era igual aos outros. Tinha fama. Sabia que os colegas o respeitavam pelos feitos extraordinários e por isso queria mais. Seguidores? Alguns. Toda a confraria: vinte e poucos bêbados enchendo o lugarejo com festas e lendas. Maior orgulho de Vanderlei: trânsito livre entre as mesas das autoridades. Do boteco da Nadir ao famoso Castelinho - melhor bar do Abreu do Una - não havia quem lhe negasse um copo. Sabia usar a majestade com maestria.

"Vanderlei morreu", grito na madrugada. Foi um Deus nos acuda. Nunca se viu tantas velas acesas, tantos lençóis nas varandas, tantas casas silenciosas. Bares arriaram as portas. Caminhões de bebuns dos engenhos vizinhos lotaram a praça. A molecada nova se acabou de tomar cachaça e oferecer ao morto. Travanca, Satú, Ferreiro e Marvina - companheiros de copo - costuravam vielas, sem rumo. Choro e pinga, encharcando golas e punhos amarelados.

Era simples a rua onde morava o rei. A vizinhança tinha lá os arranca-rabos de praxe nos vilarejos do interior, mas isso era coisa de família. E eles eram assim, quase parentes. Dividiam o quarteirão: autoridades, pescadores, pedreiros, lavadeiras. Gente graúda e gente simples. Povo bom de partilhar a calçada e os dias.

Vanderlei, apesar de viver nos balcões, contando histórias, arrancando risos dos frequentadores, dava duro para garantir sua pinga. Isso lhe garantiu certo respeito. E virou personagem diário dos contos nos fins de tarde. Levava marmita para os vizinhos, carregava feixes de lenha, limpava quintais, vendia frutas.

Entre os delírios e a razão, encontrou Lica. Morena, baixa, tosca. Corpo levado pelo vento. Braba feito siri na lata. Batia nos filhos e no homem com carrasqueiras, tiradas dos coqueiros e guardadas na soleira, deixando todos de sobreaviso. Catava piolhos, fazia comida, lavava roupas, limpava o terreiro, avançava com unhas e dentes em quem tentasse violar seu reinado. Com ela, seis filhos. Dizem que Vanderlei descendia de europeus puro-sangue. Olhos azuis, pele clara, nariz pontudo, alto, cabelo bom. Porte de rei.

Sua pompa, temperada com a morenice da mulher, deram aos filhos beleza exaltada no lugar. No dia de sua morte, a algazarra ganhou a rua, depois do susto e do silêncio. Baldes, caldeirões e latas choravam nas mãos dos bebuns. Música desencontrada, suor e cachaça na procissão do enterro - que demorou duas horas até chegar ao cemitério. Flores murchas jogadas no caixão roxo, pronto para se despedaçar.

Calor e sede agoniavam os bêbados, loucos para pôr fim à demora. Até que Zé Alcides, coveiro, encarnou um zombeteiro e cobrou todas as garrafas. O homem estrebuchava, se esticava, soltava palavras estranhas. Afasta, afasta! Toda a cachaça deveria ser jogada aos pés da tumba. Multidão dispersa, bêbados tristes, cidade quieta. O coveiro recolheu seu estoque. Contam que, na mesma noite, Vanderlei deu seu último passeio pela terra e entregou cetro e coroa. O Abreu já tinha um novo rei.

O apito do trem 02:04

Desde criança eu quis experimentar. Era sonho fácil, daqueles que a gente desenha, cena por cena, como será na hora em que se fizer real. Mas a vida correu e fui deixando para depois, já imaginando que teria que deixá-lo. O que me incomodava era a certeza de que eu gostaria. Eu já gostava, para ser franca. Sabe aquelas frutas que você nunca comeu e sabe que têm sabor inconfundível? Aquele lugar que você nunca foi e mesmo assim chega a se emocionar só em pensar nele? Assim era minha relação com os trens.

Até que, numa tarde comum de trabalho, fui informada de que faria uma matéria sobre um breve passeio _ entre Imbituba e Tubarão.
Euforia contida, acordei cedo e peguei a carona que me levaria até a estação. Esperei o grupo que estaria comigo na viagem, contando os segundos, ansiosa. Embarcamos no início de uma tarde iluminada, com um sol escancarado fazendo festa, abrindo os caminhos.


Olhei a locomotiva, ensaiei passos trôpegos sobre os trilhos, fiz reverência silenciosa. Tentei ouvir o coração da velha máquina. Ela parecia me olhar, desafiadora. Sentia sua respiração, seus olhos fixos na linha reta que teria que vencer. Portas abertas, toquei de leve o vagão e subi. Embarque feito, encantamento de criança.

Fechando os olhos eu seria capaz de rever todas as pessoas que já estiveram ali. Todas as idas e vindas, felizes, desesperadas, tristes, solitárias. Quantas expectativas encheram aquele corpo de madeira, impecavelmente arrumado para receber seus ilustres convidados. Dia após dia.
Lembrei o velho poeta Ascenso Ferreira e seu “vou danado pra Catende com vontade de chegar...”. Sentei e abri as janelas. O peito deu um salto. Avisando que partiria, num choro doído, ela mostrou valentia e soltou fumaça pelas ventas. “Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar...”

E lá fomos nós, entre o mar e pequenos montes, estradas largas e estreitas, encantados com o respeito que ela impõem por onde passa. Já fui menina de correr atrás dos trens que cortavam minha terra. Muitas vezes me adiantei e esperei ele chegar em alguma curva, para acenar sozinha, sem que me vissem, esperando um dia ir com ele. Cachorros assustados, meninos em busca de doces, mulheres largando as roupas nos varais, homens no roçado. Todos pararam o que faziam para simples acenar e sorrir, num ritual fraterno. Presente saudando o passado.

A estrada de ferro aproxima, enfeitiça. Só há aquele caminho. Não há ultrapassagem, não há retorno. Fogo no peito, olhar fixo no horizonte e vontade, muita vontade de chegar. O trem é vivo, parece bicho do mato, tem alma de criança. “Cada maquinista tem seu jeito de puxar o apito. Depende do estado de espírito de cada um, do recado que queira dar”, me diz meu companheiro de viagem.

Na tarde, que terminou num desembarcar na estação de Tubarão, meu grito ganhou o canto do trem, rasgou os caminhos com um apito longo e avisou ao mundo inteiro que meu sonho foi o maquinista daquele passeio. Deixei a criança que ainda insiste em me conduzir, encontrar o seu tempo, o seu espaço. Fui feliz.
*Foto minha feita no dia do passeio.

Banzo 12:44

Menino quieto só pode estar doente ou aprontou alguma travessura. Essa era a regra dos adultos nos anos de minha infância. E era bem difícil lidar com essa lei torta, pensávamos nós. Afinal, o que mais valia a pena: ser arteiro ou obedecer todas as ordens dos mais velhos? Sim, porque aqueles que saíam da linha eram sempre pegos, de uma forma ou de outra, recebendo algum castigo. E os que mostravam o banzo do vento Nordeste, fatalmente eram levados à casa do pinhão roxo. Era lá que morava seu Biu, o benzedeiro.

Ali moravam todos os mistérios e temores do mundo. Pequena, mal aprumada no pau-a-pique, com palhas sobre as ripas frágeis, teto quase tocando o chão. Na soleira, troncos de coqueiros descascados, cobrindo o barro vermelho do piso tosco. Embaixo do barro do chão deveriam se esconder todos os segredos da cidade, colhidos pelas rezas fortes.

Gatos, dois cachorros magros e muitas galinhas no terreiro, cercado pela plantação do pinhão roxo, usado para arrancar os males de qualquer cristão.

O banzo, sem querer me encontrou um dia. Não comia, perdi o viço, os ossos saltavam à pele, diziam as comadres de minha mãe. Dona Iracema, preta velha - que me fazia todas as vontades e me dava torrões de café com açúcar nos fins de tarde – pediu e foi atendida. Seu Biu era o remédio.

Busquei o topo da goiabeira. Meus irmãos me encontraram e me entregaram de bandeja. As batidas em meu peito explodiam nos ouvidos, na testa, na palma da mão, nos pés. O banzo só piora, o banzo só piora, leva logo minha comadre. Ouvi a romaria por todo o caminho.

Entrei quase arrastada, mais de medo que de doença. Fechei os olhos e senti o bafo quente do fumo de rolo invadindo meu rosto. Tossi e abri os olhos. Um enorme chapéu tomava todo o espaço do casebre. Dele surgia o rosto caboclo, perfurado, com poros enormes, talhos profundos esculpidos pelas rugas. Aquela mão crespa, descomunal, de unhas marrons, tocou rapidamente meu rosto. “Não tenha medo, menina-nova”. O que veio depois parecia ser dito em língua de outro mundo. O pouco que entendi, enquanto o pinhão roxo lambia meu corpo, jamais esqueci.

“Todo o mal, seja macumbeiro e seja feiticeiro, saia do teu corpo pelas mãos de Deus. Todo o mal, seja macumbeiro e seja feiticeiro, saia do teu corpo pelas mãos de Deus”. Em seguida, vinha o refrão afinado das comadres de minha mãe: “Amém, Amém”.

Aquilo deve ter durado menos de meia hora, mas para mim foi a eternidade. O pinhão, depois de balançado, batido, maltratado, murchara. “Olhado forte na menina quebrou todo o pinhão. Mas a coisa ruim foi embora. Banho de lavanda e mingau de milho”.

De vez em quando o banzo do mundo tenta me pegar. Espanto o quebranto com as lembranças, com os amigos e mingau de milho. E, sempre que posso, tento trazer de volta a pureza de minha gente simples, que desconhecia completamente os verdadeiros males do mundo.

Meia-noite 13:21

Dizem que as crianças são puras, ingênuas. Penso que sabem tudo e escondem o jogo, para que possam desfrutar em paz dos melhores anos de suas vidas. Dizem também que os cachorros são companheiros, leais. Os gatos ariscos e os cavalos misteriosos. Mas nada dizem das cabras. Sim, sim, as cabras. Com uma delas aprendi que os bichos nos mantêm cativos, e não o contrário.

Morando numa cidadezinha do interior pernambucano - onde o apito da usina de açúcar mantinha a vida dos moradores sob controle e os banhos de rio eram o melhor programa do fim de semana - meus companheiros de brincadeiras eram os filhos dos marceneiros, pedreiros e aboiadores.


Nossa rotina era escola, campinho tomado de lama perto da linha do trem, bolas de gude, piões, pipas e circos improvisados no quintal de casa. Meninos e meninas desempenhavam o mesmo papel: o de exercer a liberdade plena.

Um dia, porém, a cabra do vizinho deu cria. Rebuliço geral. Larguei as sandálias de borracha, esqueci tudo e corri para ver. De dentro da bolsa rosada, vimos a cabeça abrir caminho. O dono dos bodes e cabras, que dividiam a rua conosco durante o dia, ajudou o filhote. Fêmea, preta, com uma mancha branca em forma de nuvem na testa. Pernas tortas e frágeis. Tratou de ficar de pé. Quis, no mesmo minuto, ela para mim.

“Por favor, eu como tudo, durmo cedo, vou para a escola sem chorar e nunca mais brigo na rua”, prometi em casa. A ladainha durou dias. Meus apelos foram ouvidos. Voltei da escola e passei na garagem de tábuas úmidas onde ela morava. Não estava mais lá. “Foi vendida”.

Entrei na cozinha com a gola do uniforme encharcada. Culparia meus pais até o fim dos meus dias pela maldade de me afastar dela. Meu lamento não durou cinco minutos. Um berro estridente e fino chamou minha atenção e me levou ao quintal. Lá estava ela. Amarrada, com sino de latão no pescoço, tentando se livrar da corda entre saltos e balançar de cabeça, agitada.

Meia-noite, batizei. Chamava e ela atendia correndo. Levei para o campinho e surpreendeu nas roubadas de bola, enlouquecendo os meninos – que tentavam ensinar o truque aos seus tolos cachorros. Esperava minha chegada das aulas feito cão de guarda. Ao primeiro sinal de meus passos na esquina, apoiava as patas no muro e berrava. Foi assim por quase três anos.

Num sábado, igual a todos os sábados, fizeram almoço de despedida da cidade em nossa casa. Pai transferido para a capital. Vida nova. Festa. Vizinhos, colegas da repartição, parentada.
Estranhei o silêncio no quintal. Corda jogada num canto. Baque no peito. “Ela fugiu”, me disseram. “E não teremos como procurar. Mudamos amanhã”. Chorei a viagem inteira. Pensava que ela voltaria e encontraria tudo vazio, sem ninguém. Sofri por mim e por ela.

Anos mais tarde, numa conversa informal de domingo - enquanto saboreávamos o bode na brasa em casa – me contaram a verdade. “Você comeu a Meia-noite no almoço de despedida. Não havia como trazer”.
Meus vinte e poucos anos não adiantaram de nada. Fechei os olhos, corri para aquele quintal, naquela casa de cidade pequena, soltei a corda e deixei que fugisse. “Desculpe, minha filha, não havia como trazer”, repetiram. “Ela veio, ela veio”, disse em meio a um sorriso desbotado. Perdoamos.

Manga com leite 13:10

Misturar manga com leite pode fazer mal. Assim como tomar banho depois do almoço, lavar cabelo em noite de lua cheia, vestir a roupa pelo lado avesso. Crendices que regem a vida e vão nos ensinando, sob o carinho das mães e avós, a ter limites. Demorei a tomar manga com leite e ainda hoje vou guiando meus passos segundo o que me ensinaram em casa.

Por via das dúvidas, por exemplo, não corto encruzilhadas, não passo embaixo de escadas, não vou nadar depois do almoço. Se uma coruja pia perto de casa, bato na madeira, peço proteção aos céus. Se alguém engasga, apelo para São Braz, levanto os braços e acredito ter salvado a vida do cristão afogado. Tem coisas que são assim, não saem de nós e vão moldando nosso caráter, desenhando nosso destino.

Entre as coisas que ficaram em mim, grudadas entre a pele e a alma, está o meu modo de olhar o ser humano. E, falando muito sério, não consigo achar que um carro do ano possa valer mais do que um bom amigo. Não consigo entender como há quem meça o valor de gente como quem põe preço num saco de farinha.

Dia desses, lá em casa, me falaram que preciso ter mais ambição nessa vida. Que o mundo não gosta de quem gosta do mundo. Eu não sei não. Prefiro mesmo apostar no que me ensinaram. Eu gosto de gostar das pessoas. Claro que não é qualquer um que atravessa minha intimidade. Dou preferência a quem me encara e me enxerga. Compro briga por quem tem os pés no chão e conhece a textura da areia fina. Argumentando com a pessoa que tentava me dar mais rumo na vida, contei a história de Maria e seus sapatos finos.

Ela colecionava mais de oitenta pares. Botas, sandálias, tênis, altos, baixos, pretos, brancos, coloridos... Tinha um orgulho, a moça, de seus sapatinhos... Um dia, olhou meus pés e queixou-se do meu velho tênis esfolado. Mas ele está em meus pés, criatura! O que te incomoda? "Não parece com você e não vai lhe levar a lugar algum", argumentou. Não tentei lhe dizer o que pensei, naquele momento. Palavras ao vento, apenas.

Voltei para casa tentando entender como alguém poderia viver assim: num relacionamento apaixonado com oitenta pares de sapatos. Eu, com meu tênis surrado, andei em mil estradas, fiz mil amigos e estiquei minha história. Ela não pisou solo algum além dos limites de seu quarto. Desde aquele dia, não a procurei mais. Não daria certo levar adiante aquele convívio. Somos feitas de massas distintas, moldadas por oleiros bem desiguais. Dei razão à minha mãe, minhas tias e minha avó. Não se deve misturar manga com leite. A mistura pode ser bem ácida e pode fazer mal.