<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590</id><updated>2012-02-16T21:41:28.256-02:00</updated><title type='text'>Um dedo de prosa</title><subtitle type='html'>Germana Telles</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>53</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-229510122377419998</id><published>2010-10-12T22:55:00.004-03:00</published><updated>2010-10-12T23:01:17.376-03:00</updated><title type='text'>No meio do caminho</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TLUSbE-REAI/AAAAAAAAAfY/KTLeCvuK44Y/s1600/treeandboy.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="180" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TLUSbE-REAI/AAAAAAAAAfY/KTLeCvuK44Y/s320/treeandboy.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Meio-dia, sol de rachar e quatro meninos dispostos a desafiar as  impossibilidades a qualquer custo. A missão era mais importante que os  obstáculos e eles sabiam disso, apesar do pouco tempo no mundo.&lt;br /&gt;Enquanto os mais velhos apressavam cada vez mais os passos, os  menores iam mais lentos, aproveitando tudo que viam pelo caminho. E não  era pouco. Tinha de tudo naquela estrada. Pedra grande, pedra pequena,  flor rasteira, flor estranha, espinho, barro, resto de bicho e, de vez  em quando, carroças, bodes e lagartos enormes.&lt;br /&gt;Com perninhas de sabiá, a menorzinha fazia cantar as sandálias,  tentando pegar o que de melhor havia entre aquilo tudo e acompanhar a  pisada do irmão. O silêncio só era quebrado por alguns assovios do  garoto, buscando imitar os pássaros ou chamar o cachorro, que vinha  atrás, se perdia e os achava, cambaleando de cansaço. Valente, o  bichinho não desistia também, embora desconhecesse o rumo da viagem e o  porquê.&lt;br /&gt;Eram cinco, na verdade. Porque aquele cachorro era mais esperto que  muita gente, diziam. “Não fala para não ir à escola”, sempre lembrava o  pai.&lt;br /&gt;Nada levavam além da certeza de que era preciso seguir em frente,  apesar da fome, do calor, da sede e das bolhas nos pés. Além das  brotoejas, que brotavam às centenas, no pescoço, atrás das orelhas e nas  costas. Aquilo coçava que era um inferno. Doía, coçava, ardia e  alfinetava a pele, por baixo das roupas.&lt;br /&gt;Eles não desistiam. Iriam até o fim. E assim foram, até que o mais  velho avistou o que queriam. E pediu que os irmãos apressassem o passo.  Correram e quase cortaram os pés, em meio aos pedregulhos.&lt;br /&gt;Entraram pelo mato, em meio às urtigas, carrapateiras e ao  desconhecido, atrás do maior. É ali, peguem tudo que puderem levar, nas  mãos e nos bolsos.&lt;br /&gt;Ágeis, foram catando os matinhos que o irmão mostrava e enchendo a  roupa. Cheirava forte aquela erva. Cheiro bom, como se a terra deixasse  ali sua seiva, sua essência. Dava vontade até de comer, pelo cheiro e  pelo vazio na barriga. Mas não podiam desperdiçar. Quanto mais, melhor,  lhes falaram em casa, antes da saída, quando os galos ainda cantavam e o  sol era um tímido rasgo no céu.&lt;br /&gt;Fizeram o caminho de volta bem mais animados e até ensaiaram um  canto qualquer, aprendido nas inúmeras andanças, naquele mundo que era  só deles.&lt;br /&gt;Ao dobrarem a última curva, viram a mãe na soleira, com a mão sobre a  testa, tentando busca-los à distância. O aceno rápido da mulher os fez  correr ainda mais. Podia não dar tempo e tudo teria sido em vão.&lt;br /&gt;Entregaram tudo e sacudiram cada pedaço de pano, para ver se tinham  entregue todo o mato colhido. O chá foi feito, mas o caçula não resistiu  e nem chegou a tomar do remédio trazido pelos irmãos. O cheiro da terra  ficou no ar e não foi capaz de estancar as lágrimas dos pequenos, que  sentiram a dor mais amarga de se provar nessa vida. A fome passou, os  calos adormeceram e a noite chegou mais cedo, deixando para sempre o sol  do meio-dia queimando a retina. Naquele momento, a esperança virou pó.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-229510122377419998?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/229510122377419998/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/10/no-meio-do-caminho.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/229510122377419998'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/229510122377419998'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/10/no-meio-do-caminho.html' title='No meio do caminho'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TLUSbE-REAI/AAAAAAAAAfY/KTLeCvuK44Y/s72-c/treeandboy.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-3011243473980870711</id><published>2010-08-29T04:37:00.002-03:00</published><updated>2010-08-29T04:39:32.650-03:00</updated><title type='text'>Inédito</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/THoOqzOIeZI/AAAAAAAAAeM/LZSN5SBAmV8/s1600/sert%C3%A3o.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/THoOqzOIeZI/AAAAAAAAAeM/LZSN5SBAmV8/s320/sert%C3%A3o.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Era de nome que falavam. Dos nomes das pessoas, dos bichos, das coisas, mas principalmente das pessoas. Ou melhor, do seu nome.&lt;br /&gt;Ele não gostava da escolha, nem poderia, coitado. Danada de decisão  do pai, que se abestalhou com uma palavra bonita e jogou no filho, como  se fosse marca, para a vida toda.&lt;br /&gt;A moça _ que mal havia chegado da cidade grande e tentava mudar as  coisas em meio àquele sertão perdido _ lhe dizia para dar nome ao  cachorro da família, que sempre atendia aos assovios, e só.&lt;br /&gt;Ele precisa de um nome, precisa de um nome, dizia a moça. Quem  precisava de nome novo era ele, pensava. Onde já se viu batizar o filho  de “Inédito”? Alguém, além dele, daquele menino franzino, de andar meio  torto, sozinho em meio à caatinga, brincando com um cachorro sem nome,  seria Inédito? É claro que não, respondia (antes mesmo de dar chance a  outra explicação enfadonha), desconcertado, enfurecido, enquanto chutava  o barro do chão.&lt;br /&gt;Acabou se contentando com o “Detinho”, que sua santa mãe  providenciou para pôr no lugar do Inédito, que ela não sabia pronunciar.  “É muita letra pra um nome só”, dizia entre sorrisos, quase sem dentes.&lt;br /&gt;Pela vontade da mãe, ele seria João, Antônio, Pedro, José. Qualquer  nome que coubesse no juízo de um cristão e na boca de quem chamasse.  Menos Inédito.&lt;br /&gt;A moça bem que tentava controlar o sorriso. Ria mais pela fúria  declarada do menino do que da infelicidade de levar pela vida aquela  pecha ou da ingenuidade do pai, que achou fazer um favor à criança com  nome lindo daquele.&lt;br /&gt;Pense que no mundo inteiro, só há você. Você foi o primeiro, tentava  a moça. E até que aquilo fazia sentido, combinava com a estranheza  toda.&lt;br /&gt;Não adiantava. O menino não levantava os olhos. Só batia com força  nas pedras, socava o barro vermelho e balançava a cabeça, em negação.&lt;br /&gt;Moça, a senhora tem nome bonito, de princesa _ Maria Amália. Olhe  só, que nome mais do lindo! Eu nem ligo mais para o meu, até esqueci  dele. Só lembrei agora porque a senhora disse pra dar nome ao cachorro.  Mas pra que cachorro precisa de nome? Ele responde no assovio e pronto.  Precisa de nome não, declarava, como quem implanta uma lei, a sua lei,  naquele lugar _ que mesmo pobre, perdido no meio do mundo, era seu.&lt;br /&gt;O cachorro chegou junto, olhou a criança, cheirou suas mãos e abanou  o rabo, pedindo brinquedo, folia, afeto. Sem nome, era mais feliz  assim.&lt;br /&gt;A moça desistiu de tentar convencer aquele menino, tão mais forte  que ela e tão calejado pela vida. Foi lá dentro da casa, onde ergueria o  seu mundo, pegou o instrumento e desandou a tocar.&lt;br /&gt;Sem licença ou despedidas, o menino levantou, assoviou e correu pelo terreiro, com o cachorro sem nome.&lt;br /&gt;Era verdade o que ele dizia. Para que complicar as coisas? Ele era o  menino, que brincava com o cachorro, no sertão que era todo seu.  Ninguém precisava mudar aquilo, porque daquele jeito tudo corria bem, do  modo que eles sabiam, da forma que conheciam o que nunca foi dito, o  nome que não se falava: a felicidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-3011243473980870711?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/3011243473980870711/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/08/inedito.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/3011243473980870711'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/3011243473980870711'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/08/inedito.html' title='Inédito'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/THoOqzOIeZI/AAAAAAAAAeM/LZSN5SBAmV8/s72-c/sert%C3%A3o.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-1081398181641092112</id><published>2010-08-23T13:54:00.004-03:00</published><updated>2010-08-23T15:52:14.085-03:00</updated><title type='text'>Inspiração</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/THKojJHp1SI/AAAAAAAAAeE/4JoJzLZ84io/s1600/luzaofundodotunel_4discovery.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/THKojJHp1SI/AAAAAAAAAeE/4JoJzLZ84io/s320/luzaofundodotunel_4discovery.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;A força que morava naqueles olhos me deixava sem graça, mas me empurrava  para a vida com a certeza de que eu poderia chegar mais perto de Deus,  através dela.&lt;br /&gt;Jamais conheci alguém tão grande, tão determinado, tão generoso e  desprendido de ambições desmedidas quanto ela. Vivia e renascia todos os  dias pelo amor que havia em si e que ela, sem medida, entregava a quem  passasse por perto.&lt;br /&gt;A formiguinha ligeira, incansável em sua labuta, acordando todos os  dias antes do sol, era a corda que nos amarrava num círculo iluminado de  segurança e fé. Sabíamos que com ela, estando ali, dividindo o lar e os  dias com ela, seríamos felizes. &lt;br /&gt;Não importavam os obstáculos, as tristezas que  vez em quando batiam  à nossa porta, as distâncias que precisamos vencer, tantas vezes, em  busca de paz. Tudo com ela era bom. E tudo começava e terminava de  maneira tão fácil de se levar, com uma simplicidade tão desconcertante,  que nos comovia, ao vê-la agarrar a vida com tanta vontade.&lt;br /&gt;Até nos dias piores,  _diante da perda do filho, da doença,  que lhe  roubou o direito de andar, das saudades que ela acumulou em sua estrada  _  ela não desdisse a sua fé, a sua força. Eu queria ter aprendido com  ela. Era o que eu mais queria. Aquela capacidade de ser gente, de  acreditar nas outras gentes que nem sempre mereciam o seu afeto e que  sempre, sempre, tinham o seu abraço,  o seu sorriso e o seu perdão. &lt;br /&gt;Nem sei se aquilo que ela oferecia era mesmo perdão. Talvez fosse o  esquecimento, a falta de registro do lado negativo de qualquer coisa,  qualquer pessoa. Sei que queria ter aprendido com ela. &lt;br /&gt;Sou pequena demais, no entanto, e perdi a oportunidade de fazer do  meu caminho algo tão melhor. Eu devia ter seguido seus conselhos, ter  anotado cada um deles, ter ido dormir na hora que ela falasse, ter  respeitado mais o meu tempo, ter aprendido a tocar melhor o piano, ter  largado o cigarro, ter prestado atenção aos caminhos que escolhi e que  não estavam em seus planos.&lt;br /&gt;Juro que eu não sabia que doeria tanto crescer e ter que tocar a  vida sem aquela luz que jorrava em minha volta e me fazia tão feliz. Sei  que se pudesse voltar atrás, jamais teria lhe dito um não, jamais teria  me atrasado para os almoços de domingo (quando ela sempre estava  pronta, sentada na rede, com seu melhor vestido, cabelos bem penteados,  olhar ansioso, me esperando chegar).&lt;br /&gt;Queria seus recados em meu celular, sempre dizendo antes quem era  (“Minha filha, sou eu, sua mãe”) _ como se eu não soubesse, como se  fosse preciso _ me deixando recomendações ou contando algo corriqueiro,  que ela fazia especial e repartia conosco, extensões do seu corpo, da  sua vida.&lt;br /&gt;Busco, inquieta, outro olhar como aquele, outra voz como aquela,  outra luz que me faça feliz como naqueles melhores dias da minha vida.  Tenho a fé, que ela me deixou de herança, como guia. Vou, abrindo  trilhas. Hei de achar a inspiração que me devolva a capacidade de  atravessar a vida com um sorriso nos lábios, o coração leve e as mãos  sempre prontas para acolher, sem esperar recompensa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-1081398181641092112?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/1081398181641092112/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/08/inspiracao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1081398181641092112'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1081398181641092112'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/08/inspiracao.html' title='Inspiração'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/THKojJHp1SI/AAAAAAAAAeE/4JoJzLZ84io/s72-c/luzaofundodotunel_4discovery.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-5122306321685426015</id><published>2010-08-16T11:58:00.003-03:00</published><updated>2010-08-16T12:01:11.164-03:00</updated><title type='text'>Por que?</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TGlSqbFj7GI/AAAAAAAAAd8/IfWIoVuQ3lk/s1600/por+que.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" ox="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TGlSqbFj7GI/AAAAAAAAAd8/IfWIoVuQ3lk/s320/por+que.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;É engraçado como a gente vai mudando os conceitos, à medida que o tempo passa. Temos fases, como a lua (como diria a Cecília), e tudo começa na idade do por que (?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabo de constatar isso, conversando com amiga, que está na fase do “mais ou menos”, “sei lá” e “pode ser”. Fase chata, já adianto, para aqueles que certamente também deverão experimentá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No por que, tudo é novidade. A gente está como brinquedo novo, que acabou de sair da caixa, olhando tudo em volta com olhos de descobridor. Por isso, não nos aguentamos em meio a tantos rostos desconhecidos, tantos lugares novos, tanto mistério. Desandamos a mandar por ques pra tudo quanto é lado, irritamos pais, tios e irmãos, mas vale a pena. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por uma boa causa que vivemos as interrogações: para que possamos começar a experimentar a vida. Bom lembrar: nunca devemos nos esquivar dos por ques dos pequenos. Nada de dizer “porque sim”, “porque não”, “porque é assim e pronto”, quando surgirem aquelas perguntinhas básicas: “Mãe, por que a Terra gira e eu não fico tonto?” ou “Por que eu não posso pular da janela?” ou ainda “Por que aquela criança mora na rua e eu tenho um quarto só pra mim?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os por ques sempre têm um porquê. Merecem ser respondidos, devem ser respondidos, com clareza e verdade, para que os pequenos tenham a visão certa das coisas, criem valores, abram seus olhos e seu coração para o mundo, para o outro, para o semelhante e o desigual. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos desses por ques também servem para nos dar um belo “sacode”. É chato ter que olhar o óbvio em nossa frente, ver face a face nossos erros, nossas fraquezas, nossa falta de sensibilidade gritando à nossa frente, batendo em nosso estômago como um soco, após um “por que?” lançado por uma criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adoro a fase do “por que?”, que já me chegou quatro vezes, através de quatro menininhas minhas e lindas. Mesmo quando fiquei muito irritada, tendo que controlar a metralhadora mandando por que, por que, por que, numa velocidade impressionante, e eu me vendo louca, tendo que buscar a resposta mais clara possível para o que não costumamos nos preocupar em explicar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a fase do “mais ou menos”, “sei lá” e “pode ser” é insuportável. Credo. Ou uma coisa é ou não é. Ou é boa ou é ruim. Ou é feia ou bonita. Ou é claro ou é escuro, frio ou quente, alegre ou triste. Não é mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou alguém quer ou não quer uma coisa. Ou vai ou não vai. Ou serve ou não. Sei lá o escambal. Sei lá...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pior ainda é quando vem o “pode ser”, que na verdade quer dizer “não pode ser, não dá, não quero, mas vou te cozinhar mais um pouquinho”. Pode ser é o pior, mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, vou lançar mão da sabedoria infantil agora, sempre que me jogarem um mais ou menos, pode ser ou sei lá. Criatura terá como troco um belo “por que” e não vale mentir de volta, eu já conheço bem o truque.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-5122306321685426015?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/5122306321685426015/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/08/por-que.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/5122306321685426015'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/5122306321685426015'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/08/por-que.html' title='Por que?'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TGlSqbFj7GI/AAAAAAAAAd8/IfWIoVuQ3lk/s72-c/por+que.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-1217825339214124237</id><published>2010-08-07T11:17:00.003-03:00</published><updated>2010-08-07T11:20:41.487-03:00</updated><title type='text'>Quem partiu já vem</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TF1rrjE6XVI/AAAAAAAAAd0/F7iEFVIFHDk/s1600/bem_te_vi.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" bx="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TF1rrjE6XVI/AAAAAAAAAd0/F7iEFVIFHDk/s320/bem_te_vi.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;“Quem partiu já vem, quem partiu já vem”. O aviso chegava, em meio às arvores do quintal, no muro que cercava a casa e pelas brechas das janelas, enchendo nosso ninho de esperança. Na verdade, tudo que aquele canto fino do pássaro nos dizia mesmo era que algo mudaria naquelas redondezas, no caso, para nós. Era isso, pelo menos, que falava a minha mãe, convicta das suas crenças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós também passamos a acreditar que o bem-te-vi, dono daquele canto e fiel transmissor dos presságios, era profeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo mexia, e ainda mexe, com a gente. O dia parecia ser especial quando ele vinha. As tarefas ganhavam mais sentido, mais urgência. Qualquer coisa saindo um centímetro da normalidade ganhava tom de sinal. E mesmo que nunca uma coisa possa ter sido influência do passarinho, algo sempre acontecia, alguém de longe sempre dava sinal de vida, chegava carta, notícia qualquer de parente ou amigo, renovando as nossas crenças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho vivido dias de bem-te-vi na janela. Hoje acordei ouvindo um deles, no quintal do vizinho _ que faz reforma interminável em sua casa. Minha alma parece acompanhar a reforma e tomou susto grande com o “quem partiu já vem” ao amanhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passamos a vida inteira buscando construir sobre bases sólidas, achamos que encontramos o caminho, a rota certa, e investimos o melhor que há em nós nessa aposta, na certeza de que vamos deixar algo impresso _ uma história, uns dias, uns amigos, uns parentes, uns filhos, um trabalho, um livro, um conselho qualquer, um amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada passo, escolha, renúncia, dinheiro guardado, dinheiro gasto, estrada vencida, sonho plantado. Tudo passa a girar em torno dessa obra a que nos propomos ser autores e que se transforma no sentido de existirmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordar, levantar, comer, se mover, plantar, respirar. Tudo é agulha e linha na costura desse plano bem traçado, para que a vida seja feliz, plena, dentro do que estabelecemos como a meta principal de estarmos aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, porém, a obra atrasa. Faltam tijolos, argamassa, concreto, telhas, fios, canos. Falta querência, vontade, sentido. E quando menos esperamos, tudo precisa ser interrompido, a obra fica inacabada e um bem-te-vi bate à janela com o seu “quem partiu já vem”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei o quintal do vizinho, ouvi o passarinho perambulando lá fora, respirei fundo e fiz as minhas orações da manhã, pedindo a Deus que seja bom presságio esse canto fino, em meio ao inverno rigoroso de agosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mesmo que a gente chore, maldiga, fique com muita raiva do destino, ele sempre é o dono da verdade. Ele sabe o que faz e o que é melhor para nós. Nunca pense que foi a última vez, que foi o último gole, o último pão. Tudo se repete nessa vida, não importa o cenário ou quem está em cena, para que possamos retomar o nosso caminho”, diria a minha mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vou duvidar do que ela me faria acreditar. Ela sempre acertou em tudo. Até nos dias em que nos fazia levantar mais contentes, bendizendo a manhã que chegava com o canto de um bichinho minúsculo, avisando: “Quem partiu já vem, quem partiu já vem”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-1217825339214124237?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/1217825339214124237/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/08/quem-partiu-ja-vem.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1217825339214124237'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1217825339214124237'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/08/quem-partiu-ja-vem.html' title='Quem partiu já vem'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TF1rrjE6XVI/AAAAAAAAAd0/F7iEFVIFHDk/s72-c/bem_te_vi.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-8136207722510742675</id><published>2010-08-03T04:37:00.001-03:00</published><updated>2010-08-03T04:41:45.668-03:00</updated><title type='text'>O melhor presente</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TFfILfh0p8I/AAAAAAAAAds/yK9u_veCjE8/s1600/vira-lata3.JPEG" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TFfILfh0p8I/AAAAAAAAAds/yK9u_veCjE8/s320/vira-lata3.JPEG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Desde criança ela quis muito ter o que seria o melhor presente do mundo.  Pedia ao pai insistentemente. Fazia as propostas mais difíceis de serem  cumpridas _ como ficar sem presente de Natal por toda a vida ou abrir  mão do sorvete no fim de semana. Nada adiantava. Aquela casa não era  lugar para cachorros. &lt;br /&gt;Tinha raiva da vizinha, que ainda colocava mais lenha na fogueira:  “Cachorro só faz sujeira, bagunça tudo, fica doente e ainda foge,  deixando todo mundo maluco”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que a futriqueira não sabia é que cachorros pulavam alto,  brincavam de tudo que se poderia imaginar, não se cansavam de querer  agradar, eram amigos como poucos e ainda entendiam os recados  silenciosos, se por acaso ela estivesse triste e apenas quisesse ficar  quietinha, ali no canto, sem esboçar gesto algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não importava, eles não queriam e pronto. Tantas tentativas em vão a  fizeram esquecer o pedido. Um dia, porém, ela cresceu e a aquele sonho  ficou possível. Um amigo, sabendo do seu desejo de menina, nem perguntou  se caberia ou não cachorro naquela casa. Levou o bichinho, dentro de  uma caixa de papelão.&lt;br /&gt;Amor instantâneo, recíproco e  arrebatador. “É menina”, disse o  amigo. Pretinha, com uma mancha branca minúscula no peito, patas  redondinhas e olhar de quem pede: “Me cuida”. Chorava e balançava o  rabo, buscava refúgio entre as roupas da nova dona, que quase explodia  de tanto querer bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não houve quem não a quisesse. Conquistou todo mundo com aqueles  olhos cor de ameixa e o rebolado desajeitado, enquanto tentava se  equilibrar sobre as quatro patas. Os pais acabaram se apaixonando também  e comprariam qualquer briga para mantê-la em casa. Fiel, acompanhava o  pai, todas as noites, quando ele se recolhia, e dormia sobre os  chinelos. Ninguém perturbaria o sono. Era a criança, a parceira,  ensinando lealdade e afeto aos donos daquela casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia a moça precisou ir morar muito longe. Sem despedidas,  recomendou cuidados e disse que voltaria logo, para muitas tardes de  caminhada à beira-mar e brincadeiras sem hora para acabar. Não pôde  cumprir a promessa. Tuca não segurou a distância. Foi deixando de  brincar, de atender aos chamados, de comer... e um dia não acordou mais.  Morreu de saudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça pensou na menina, na mãe dizendo não a vida toda, naquele  amor imenso que o bichinho lhe fez conhecer e entendeu que não se deve  abandonar quem realmente se importa, quem faz a diferença. Nem que seja  uma criatura pequena, de quatro patas, andar desajeitado e que só  consiga lhe falar com os olhos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-8136207722510742675?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/8136207722510742675/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/08/o-melhor-presente.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/8136207722510742675'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/8136207722510742675'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/08/o-melhor-presente.html' title='O melhor presente'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TFfILfh0p8I/AAAAAAAAAds/yK9u_veCjE8/s72-c/vira-lata3.JPEG' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-6680481921562146063</id><published>2010-07-24T15:31:00.001-03:00</published><updated>2010-07-24T15:34:14.560-03:00</updated><title type='text'>Bicho-papão</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TEsyFbEjFfI/AAAAAAAAAdI/j6hAnVhjSZ4/s1600/cabra.jpeg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TEsyFbEjFfI/AAAAAAAAAdI/j6hAnVhjSZ4/s320/cabra.jpeg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Ela era criança normal, dizem. Aprontava travessuras, brincava com  panelinhas de barro, costurava roupinhas de bonecas para suas espigas de  milho, se banhava no açude, era feliz. &lt;br /&gt;Tudo isso são coisas que os pais dos meus pais contaram, passaram às  crianças que eles foram um dia e de lá, nos trouxeram a herança. Cada  relato envolvendo a pobre moça _ que um dia ousou passar da conta nas  malcriações com a mãe e teve como castigo a maldição de virar cabra nas  noites de lua cheia _ vinha em três dimensões. Interjeições, falas  cansadas do narrador temeroso, nos faziam tremer e querer nos aproximar  dos anjinhos de candura pintados na capela do vilarejo distante.&lt;br /&gt;Dizem que tudo começou quando ela se viu completamene rendida aos  encantos de um jovem, recém-chegado, de férias dos seus estudos na  capital. Filho do dono da única mercearia nas redondezas, onde de tudo  se encontrava. &lt;br /&gt;Moço rico, cheio de vontades estranhas, de modos esquisitos e que,  diferente da maioria dos moleques que andavam pela vila, não usava  bigode e ainda ostentava cavanhaque curtinho, enfeitando o queixo  quadrado.&lt;br /&gt;Num final de tarde, foi comprar o que faltava para a ceia _ costume  dos mais velhos, que não iam dormir sem antes saborear um “quase  banquete”, servido às oito da noite, regado a bom trago (para os homens)  e chá de ervas (para as mulheres).&lt;br /&gt;Paixão instantânea, fulminante. Era dele todo o amor que havia guardado. Não haveria outro.&lt;br /&gt;O moço, completamente desinteressado, não se fez de rogado, porém.  Aceitou a ingenuidade da jovem e, em troca, lhe deu enganos e desprezo.  “Caiu na boca do povo, caiu na boca do povo”, foi a sentença em cada  esquina.&lt;br /&gt;Mãe viúva, desesperada, pôs a “perdida” de castigo, trancafiada em  casa, e a proibiu de voltar a encontrar o enganador, que não tardou em  escapolir da vila, com medo de ser obrigado a pagar pelo “mal feito”.  Apaixonada, a filha desafiou a autoridade materna e levantou as mãos  àquela que lhe dera à luz. O castigo veio a cavalo - ou melhor, em uma  cabra, que lhe tomava o corpo nas noites em que a Terra encarava a lua.&lt;br /&gt;Pior: a moça ganhava asas escuras _ tipo ave de rapina _ e rasgava o  sereno da madrugada com seus gemidos altos, causando arrepios até nos  mais incrédulos. Nunca mais amou, nunca mais pôde voltar, a “Cabra  alada”. Perambulava na mata, viveu não se sabe como nem até quando.  “Talvez pra sempre, na solidão dos ingratos”, refletiam os mais velhos.&lt;br /&gt;Toda essa contação nos era repetida, sempre que alguém ousava  desrespeitar os mais velhos ou tentar desafiar a autoridade dos pais.  Funcionava que era uma beleza e ninguém precisava de lei impressa para  que o respeito se estabelecesse. Tudo era feito na base da confiança,  dos causos ingênuos, da cumplicidade e da partilha.&lt;br /&gt;Palavra dos mais velhos era a própria lei. Bichos-papões iam embora  quando a criança dava lugar ao adulto e as histórias de cabras aladas  ficavam entre as boas lembranças dos tempos de meninos e meninas,  criados com amor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-6680481921562146063?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/6680481921562146063/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/07/bicho-papao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/6680481921562146063'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/6680481921562146063'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/07/bicho-papao.html' title='Bicho-papão'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TEsyFbEjFfI/AAAAAAAAAdI/j6hAnVhjSZ4/s72-c/cabra.jpeg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-87023116352716965</id><published>2010-07-17T14:09:00.002-03:00</published><updated>2010-07-17T14:28:08.001-03:00</updated><title type='text'>Uma paraíba no frio (3)</title><content type='html'>&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="col col-pair" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;div class="texto-noticia"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TEHoGeodyrI/AAAAAAAAAcs/2BR0UrFtZrQ/s1600/frio_2.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TEHoGeodyrI/AAAAAAAAAcs/2BR0UrFtZrQ/s320/frio_2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A coisa é complicada. Mesmo depois de cinco longos invernos, meu  pobre e franzino corpo não está pronto para enfrentar a maratona do  frio. Reclama, o bichinho, que dá dó. Não adiantam, porém, suas queixas,  porque eu realmente não sei o que fazer para aplacar a fúria gelada que  toma conta de tudo, invade as paredes, desafia os vidros das janelas, a  montanha de cobertas jogadas sobre a criatura indefesa _ ali, parada,  sem forças para se mover, deslocar qualquer ínfimo centímetro no colchão  que lhe abriga noite adentro.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Achando que já tinha o controle sobre esse tal frio, até zombei de  amigos catarinas, invernos passados. Não imaginava que aqueles eram  invernos atípicos, camaradas, bonzinhos comigo. Fui completamente  enganada pela estação, que deixa tudo bem bonito em volta, não posso  negar, mas que tem me atormentado dia e noite. É sério, está bem difícil  levar essa coisa...&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Gosto de ver as pessoas nas ruas, encasacadas, com mãozinhas nos  bolsos, cachecóis no pescoço, botas, gorros, luvas, exibindo o charme  que só o inverno traz. Gosto também de me sentir meio borboleta nesses  dias, me enclausurando em casa, me enchendo de sopas, massas, calorias,  filmes, chocolates quentes, músicas gostosas tocando enquanto escrevo,  enrolada na manta de lã, em paz.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mas isso tudo é muito bom enquanto o frio é suportável, enquanto não  chega a fase dos “ais” e “uis”, de dor mesmo, dor de tanto contrair os  ombros, dor de colar uma perna sobre a outra _ em vã tentativa de  aquecê-las _ nas mãos, na cabeça, na face. &lt;br /&gt;Quando o frio chega nesse ponto, a diversão vai embora e peço a Deus  que desligue o ar-condicionado, porque está perto de até o ar ficar  sólido e todo mundo virar picolé. &lt;br /&gt;Essa semana foi a mais fria de toda a minha vida _ e olha que já se  vão quase quatro décadas de existência sobre a face da Terra. Durante o  dia até que a coisa vai mais amena. À noite, no entanto, o bicho pega. &lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Primeira etapa: o banho. Terror no terceiro andar. Chuveiro ligado,  prestes a queimar a resistência, banheiro fechado e o ritual  desesperador, entre começo, meio e fim. Quilos de roupa, pulinhos para  aquecer. Seca cabelo, seca, seca, seca. Alívio. Abre porta. Toca o  terror parte dois. Mais pulinhos, breve corrida: quartos, sala, cozinha.  Vamos ao jantar.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Comida quente, espumando de tanta caloria. Capricho nas massas, nos  queijos, nata, bacon, pimenta. Vai de tudo um pouco. Jantar no sofá,  enrolada na coberta, com prato quente sobre almofadas estrategicamente  aprumadas no colo. Finda a refeição, hora de correr pra cama, ligar a TV  e pedir a Deus que tudo comece a aquecer o mais breve possível.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Dica: faça como as cobras, se arraste lentamente, vá reconhecendo a  área, para não ser pega pela parte que ainda está gelada. Desça sob a  montanha das cobertas, enfie a touca na cabeça, deixe apenas o nariz de  fora e espere o sono colaborar e lhe trazer a ausência dos sentidos  temporária, que lhe manda para longe do mundo gelado por algumas horas. A  paz, enfim. Até que o novo dia chegue e tudo recomece, enquanto o  inverno durar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-87023116352716965?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/87023116352716965/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/07/uma-paraiba-no-frio-3.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/87023116352716965'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/87023116352716965'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/07/uma-paraiba-no-frio-3.html' title='Uma paraíba no frio (3)'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TEHoGeodyrI/AAAAAAAAAcs/2BR0UrFtZrQ/s72-c/frio_2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-2262575655521345051</id><published>2010-07-11T22:34:00.004-03:00</published><updated>2010-07-14T13:41:37.482-03:00</updated><title type='text'>Feriado Nacional</title><content type='html'>&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TDpyVVc0SvI/AAAAAAAAAcc/e8Bj0BsISRo/s1600/selecao-brasileira.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TDpyVVc0SvI/AAAAAAAAAcc/e8Bj0BsISRo/s320/selecao-brasileira.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;É caso de amor estranho, esse do brasileiro com a gorducha. Jogada de pé  em pé, nos gramados, nos campinhos de várzea, tolerando todas as  pancadas em nome da paixão dos que lhe chutam, maltratam, mas não  saberiam viver sem ela. A coisa merecia ser estudada, tamanha a  idolatria, com suor e lágrimas.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Pois o que dizer da peregrinação de uma amiga, bem no dia da  eliminação do Brasil diante da Holanda em clínica da cidade (ela me  garante que foram seus agouros, sua indignação e seu desejo de vingança  que provocaram a partida antecipada dos atletas canarinhos)?&lt;br /&gt;“Marquei com antecedência, criatura, fiz tudo direitinho. Ainda  perguntei à moça que me atendeu se não teria problema marcar para a  manhã desse bendito jogo, porque eu já não ando bem de saúde e não  queria voltar para casa pior do que saí”, contou, indignada.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela saiu de casa às 8h30 (a consulta foi marcada para as 9h30),  caminhando pelas ruas largas da Cidade Azul, já percebendo a atmosfera  verde e amarela tomando conta de tudo. A euforia parecia se solidificar  no ar, que ia ficando mais estranho a cada minuto _ com vuvuzelas  estridentes soltando gritos fanhos em rápidas passagens de carros,  enfeitados de bandeirinhas, com ocupantes praticamente pendurados nas  janelas.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;“Definitivamente, eu não gosto de futebol. Mas Copa é diferente,  concordo, porque é o país sendo representado, são as cores da bandeira,  tem a coisa do hino... O que não dá pra engolir é transformar o dia do  jogo em feriado ou coisa pior. Tudo para!”, explodiu, visivelmente  indignada.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Eu, calada, fui ouvindo o desabafo.&lt;br /&gt;“Cheguei lá às 9h10, vinte minutos antes da consulta. Poucas pessoas  ainda sentadas nas cadeiras de espera, pareciam não acreditar no que  viam. Funcionários correndo de um lado ao outro, chamando os colegas às  caronas. Falaram na cara dura que eu havia chegado tarde e que o  expediente era até as dez, naquele dia especial. Mas que mané dia  especial? E que dez horas da manhã, minha filha? Ainda nem são nove e  meia!”, foi lembrando, furiosa, quase sem ar.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;“Uma funcionária com cara de vó quase me bateu, porque eu estava  querendo atrasar as pessoas pro jogo”, continuou. “Foi salva por parecer  avó. Vencida, dobrei o papel, a esquina e desejei _ do fundo do meu  coração _ que o Brasil perdesse a partida e fizesse todo mundo acordar  do transe”, despejou, quase mordendo os lábios.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;“Ontem guardei minha camisa, para 2014, com um belo sorriso nos  lábios. Lembrei da atendente com cara de vó e torci para que ela me  atenda na próxima consulta. Vou dar meu melhor bom dia, meu maior  sorriso, e jogar o placar da Holanda na cara dela, saboreando cada  palavra”.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Como dizia, caso de amor estranho esse. Mas amor que se preza tira o  bom senso, deixa todo mundo meio tolo. Ao final da conversa, ela se  despediu: “Vou indo. Não perco por nada esse jogo de hoje. Vou secar a  Argentina pra ver Maradona voltar mais cedo pra casa”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-2262575655521345051?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/2262575655521345051/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/07/feriado-nacional.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/2262575655521345051'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/2262575655521345051'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/07/feriado-nacional.html' title='Feriado Nacional'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TDpyVVc0SvI/AAAAAAAAAcc/e8Bj0BsISRo/s72-c/selecao-brasileira.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-2119375470140009925</id><published>2010-07-05T01:17:00.004-03:00</published><updated>2010-07-05T01:25:32.482-03:00</updated><title type='text'>Olho vivo</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TDFeCVj-xMI/AAAAAAAAAcU/s-oXGmUEwyE/s1600/10816namorados.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TDFeCVj-xMI/AAAAAAAAAcU/s-oXGmUEwyE/s320/10816namorados.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Você sabe que mais cedo ou mais tarde ele virá. Desde muito cedo lhe  ensinaram: ele vai chegar. E então, começa a tal espera. Várias vezes  você pensa que a hora se fez, o momento mágico. Engano, quase acerto,  erros grosseiros. Quedas, depois de escaladas extenuantes, lágrimas,  sorrisos desconcertantes, mais lágrimas, centenas de negações,  desistências. Finalmente, vem o tempo de amaldiçoar o estranho convidado  que se recusa a chegar.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ele vem, ele vem, sopra a voz lá dentro. Um dia, a profecia se  cumpre e a vida faz um sentido danado. A mais simples lembrança vira o  bilhete premiado, que abre as portas à certeza: é amor.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Dali por diante tudo é festa. Não há o menor espaço, a menor  possibilidade para a dor. Não há tempo ruim ou coisa que se faça maior  que aquela paz tremenda que se instala, de mala e cuia, dentro de quem  se pega apaixonado.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Chegam, então, os dias de erguer a fortaleza em volta de si, para  que nada possa tocar o convidado _ que a essa altura já se fez maior que  você, se tornou seu dono, seu senhor, responsável pelos desejos, pelas  escolhas, pelas renúncias. &lt;br /&gt;Dois viram um, partilhando confidências, cama, estradas e o banquete  que ninguém mais pode provar. É tempo de falar baixinho, gritando nas  paredes do outro as palavras mais lindas, guardadas a vida toda para  aquele ser de outro mundo, único exemplar em todo o universo capaz de  lhe tornar feliz. &lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;É tempo de mãos grudadas, incansáveis no trato com a pele do outro.   Tempo de pedrinhas na janela, do mesmo copo, de tomar o leite com nata  para fazer o parceiro (que detesta nata no leite) mais contente no café  da manhã _ mal sabe ele que você passa mal só de pensar em nata nadando  sobre o seu café.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Chegam as horas das descobertas, do pedalinho no lago, das  caminhadas na praia, dos jantares à meia-luz, do cinema, da saudade  arrasadora quando o outro sai de perto por instantes, para em seguida  voltar, maior ainda do que antes em sua vida.&lt;br /&gt;Chega a hora de querer levantar e dançar coladinhos, na sala de  estar, sem motivo algum, e sem música alguma tocando no seu "três em  um".&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Vem o momento em que você respira fundo, olha o outro ali, ao seu  lado, e agradece a Deus por ter encontrado aquilo que ninguém mais no  mundo achou: aquele amor, o seu, o maior, invencível, para sempre.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Esse é o momento de você cair fora, companheiro. É a hora certa de  retomar sua vida, sair à francesa. Porque o amor é traiçoeiro, lhe  arranca de você, lhe dá o outro, lhe põe em transe e quando você pensa  que o tem, ele mostra quem manda e vai lhe deixando sem que você  perceba.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ele vem, mas ele vai embora sem cerimônia e ainda lhe cobra a conta  pela hospedagem. Leva de você a alegria, a certeza, a força, a fome, o  sono, todas as vontades, todos os sonhos. Ele nasce, cresce e morre, num  súbito ataque do coração (e isso não lhe ensinaram).&amp;nbsp; Faça de conta que acredita nele. Deixe-o pensar que lhe engana. Use e  abuse desse enganador. Peça que ele vá à esquina comprar cigarros e  suma, antes que ele possa voltar e desfazer de você. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-2119375470140009925?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/2119375470140009925/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/07/olho-vivo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/2119375470140009925'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/2119375470140009925'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/07/olho-vivo.html' title='Olho vivo'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TDFeCVj-xMI/AAAAAAAAAcU/s-oXGmUEwyE/s72-c/10816namorados.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-1352516325898460048</id><published>2010-06-17T11:23:00.003-03:00</published><updated>2010-06-17T11:27:29.085-03:00</updated><title type='text'>Ela e o mar</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TBowxKmJRfI/AAAAAAAAAbM/3DWPv1Iz7S4/s1600/Mulher_mar.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TBowxKmJRfI/AAAAAAAAAbM/3DWPv1Iz7S4/s320/Mulher_mar.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Jamais havia visto algo igual. Entre o  sertão e a nova cidade que lhe acolhia, tudo era novidade. Até mesmo as  pedras do caminho, a poeira escura, quase molhada, as nuvens _ tão  baixas que a impressão que tinha era de ter alcançado as alturas (ou  teria o céu descido à terra?). &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Os pássaros voavam bem perto do velho  caminhão, que levava a família inteira, agregados, mobília, lembranças e  os animais, que reclamavam de sede, calor e do sacolejo constante dos  pneus carecas na estrada esburacada. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;A esperança de que um dia voltariam os  mantinha vivos e com forças para suportar a distância, as ausências de  quereres e o enfrentamento com os novos costumes, que não lhes dariam  arrego: ceder ou desistir e voltar atrás. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Mas voltar para onde? _ pensava a menina,  prestes a completar treze anos, ainda amante das bonecas de pano, dos  banhos de chuva (quando havia a chuva) em meio à euforia nas ruas, dos  doces feitos com água e açúcar, no velho tacho da mãe, incansável  madeira, dura de envergar. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Maria só pensava em uma coisa. Martelava,  alimentava, acalentava somente aquele sopro bom que lhe haviam dado  antes da partida: ela certamente veria o mar. Teria o mar todinho pra  si, sem ter medo algum de que um dia ele pudesse ter fim. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;“O mar não seca. Finge que vai embora e  volta, o tinhoso”, contou Jandira, prima de sua mãe, antes do último dia  em casa. E foi falando, quase como quem dizia uma reza, contava  segredo, pra que o mundo não soubesse que ela sabia. Mas ela sabia. E  foi dizendo: “O mar brinca com os pés da gente, fica manso, fica brabo,  fica manso fica brabo... É como se fosse o céu, só que mexe o tempo  inteiro e tira a areia debaixo dos pés da gente”. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;A menina ia se embalando, pensando no  balanço que as palavras tinham e pôde sentir aquilo que lhe diziam ser o  mar. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;“Tem mar que parece gente. Canta, fala  baixinho, sopra coisa boa, sopra coisa ruim. Tem mar que bufa feito a  serra, quando cachimba no fim da tarde. Tem mar que só fica ali, quieto,  sem se mexer, pronto pra dar o bote. É preciso ter cuidado com o mar.  Porque ele às vezes enfeitiça e puxa a gente pra dentro dele. E o mar, o  mar não tem cabelo onde a gente possa se agarrar”, contou Jandira. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Aquela romaria lhe veio à mente, como se  aliviasse o cansaço da viagem. Até que, de repente o motor ficou calado.  Alguém lhe tirou do sono leve e mostrou a casa nova. O mar ainda não  estava ali. O encontro ficou para anos mais tarde, quando já tinha  marido, filhos e netos. Muitos netos _ nascidos e crescidos de cara para  o mar. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Naquela tarde, quase meio século depois da  despedida, do adeus a Jandira e ao sertão, ela não esquecia os  conselhos e a reza doce que falava do mar. Seu coração sertanejo avisava  às crianças, que traziam seus traços e repetiam seus gestos, sorriam,  quando ela repetia sem parar: “Voltem! Voltem! O mar não tem cabelo!”. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-1352516325898460048?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/1352516325898460048/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/06/ela-e-o-mar.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1352516325898460048'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1352516325898460048'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/06/ela-e-o-mar.html' title='Ela e o mar'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TBowxKmJRfI/AAAAAAAAAbM/3DWPv1Iz7S4/s72-c/Mulher_mar.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-6935846530974986109</id><published>2010-06-17T11:17:00.002-03:00</published><updated>2010-06-17T11:21:28.693-03:00</updated><title type='text'>A fábrica</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TBovMI5XAUI/AAAAAAAAAbE/KqN0dQUdSew/s1600/f%C3%A1brica.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TBovMI5XAUI/AAAAAAAAAbE/KqN0dQUdSew/s320/f%C3%A1brica.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Sabíamos que aquele lugar deveria guardar  muitos mistérios. Isso já nos bastava para sentirmos desejo enorme de  vencermos a montanha que não parava de crescer e gerar filhotes, dentro  dos muros de tijolos à vista, escurecidos pela fuligem e pelo tapete de  musgos. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Não tínhamos a menor ideia de como nem  quando fazer, mas faríamos, mais cedo ou mais tarde. Encasquetamos com  aquilo e estudávamos secretamente as possibilidades de driblarmos o  vigia, os funcionários e o gerente _ que era nosso vizinho e sempre  parecia enfurecido, pronto para nos manter distantes, com um belo  pontapé no traseiro. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Era melhor não arriscar enquanto as  máquinas funcionavam, pensava, já que eles estariam circulando pelos  corredores e nos teriam como presas fáceis, a um palmo das garras  afiadas. Fui convencida do contrário pelo resto do grupo: o barulho das  máquinas estaria a nosso favor. Poderíamos pular o muro sem nos fazer  notar e mesmo que desmontássemos o mundo, eles não ouviriam. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Meu sonho era deitar e rolar naquela  montanha de fibras _ extraídas dos cocos secos, maior riqueza da cidade.  Dali, as fibras eram jogadas nas máquinas, limpas e depois  transformadas em cordas, enviadas aos mais longínquos recantos. Antes  disso, bem que poderiam nos servir de brinquedo. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;No final de uma tarde morna, quando o sol  tentava a todo custo vencer o nublado de julho, corremos feito loucos  atrás de tanajuras, entrando e saindo de quintais, pulando poças,  rodeando a fábrica. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A tentação nos venceu e começamos a  escalada. Largamos as latas (carregadas de formigas cortadeiras),  aproveitamos as brechas no muro e caímos no monte de fibras. Subimos e  descemos tantas vezes que perdemos a conta. Pulamos, cavamos cavernas,  escorregamos e voltamos a subir. Até ouvirmos o grito rouco, lá de  dentro: “Traz água! Tem fogo nas máquinas!”. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Por um instante pensamos em pular e correr  para longe. Mas nos detivemos no desespero dos homens, que pareciam  loucos, tentando conter as chamas. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Pegamos nossos latões, nos livramos das  tanajuras e viramos formiguinhas _ juntando água do poço e agilizando o  trabalho dos funcionários. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Vizinhos foram chegando de todos os lados,  apressados em não deixar o fogo chegar ao telhado e se espalhar até as  fibras. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Não entendíamos totalmente a extensão do  problema, mas sabíamos que não podíamos parar de pegar água. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;A noite chegou com muita fumaça, cheiro de  querosene no ar, mulheres, homens e meninos esgotados. No entanto,  aquele dia tinha sido nosso. Éramos, enfim, bem-vindos à fábrica de  cordas, já que havíamos ajudado a salvá-la. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Foram muitas as tardes em que voltei lá,  até que aquela montanha foi me parecendo cada vez menor. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;A fábrica ainda existe, no mesmo lugar,  produzindo cordas fortes, trançadas pelas mãos calejadas de velhos  conhecidos, que um dia foram meninos sonhadores e brincaram comigo de  explorar qu&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;intais.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-6935846530974986109?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/6935846530974986109/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/06/fabrica.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/6935846530974986109'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/6935846530974986109'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/06/fabrica.html' title='A fábrica'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TBovMI5XAUI/AAAAAAAAAbE/KqN0dQUdSew/s72-c/f%C3%A1brica.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-1136373392729153807</id><published>2010-04-12T13:17:00.000-03:00</published><updated>2010-04-12T13:17:11.202-03:00</updated><title type='text'>Tarde demais</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S8NHezZ-n2I/AAAAAAAAAa8/Z5QZWvWBMFo/s1600/foto+pb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S8NHezZ-n2I/AAAAAAAAAa8/Z5QZWvWBMFo/s320/foto+pb.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: x-small;"&gt;                    &lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;Ela disse que não sei mais sonhar. Ela e sua mania de teimar                      em dizer o que pensa, mesmo quando o que pensa nada tem a                      ver com a verdade. A minha verdade, pelo menos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela me disse que já me viu melhor, que eu já                      tive mais viço, mais alma, mais paixão e mais vontade.                      Cobrou-me desejos dos vinte anos quando já beiro os                      quarenta. Cobrou-me a luz que me emprestou e esqueci de                      multiplicar, dividir e devolver.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela disse que nada mais em mim se parece                      comigo, que nada mais resta de bom, de tudo que já conheceu                      e lhe fez ter querência, afeto, admiração. Ela me disse.                      Disse tanto e com tamanha força que me despedaçou feio.                      Baqueei, tremi, suei frio e quente. Deixei-me levar por                      tristeza tão imensa que quase acreditei em tudo que ela                      disse. E com a mesma força.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Perdi o sono, a fome, a vontade. Perdi a fé,                      a esperança e tive medo, muito medo de ter morrido antes                      mesmo de viver tudo que eu pensei ter vivido. Tive medo de                      ter sonhado com tudo que achei tão meu, tão concreto, tão                      bonito e tão único. Tive medo de realmente não ser mais                      aquela menina. A que tudo enfrentava sem qualquer receio de                      não conseguir, a que buscava água na terra mais árida (e                      encontrava sempre), a que apostava, arriscava, com coragem e                      persistência. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela disse que era tarde demais para mim. E                      disse que não havia mais nada a ser feito por mim, comigo,                      para mim. Que os caminhos, todos, estavam fechados, apagados                      à minha frente. Que a luz no fim do túnel não existia, que                      os meus dias eram findos e minhas preces certamente não                      seriam mais ouvidas por Deus. E me falou em caridade... em                      caridade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ouvi tudo com amargo terrível nos lábios.                      Minhas lágrimas deixaram sulcos em meu rosto, marcaram a                      ferro a minha alma. Por onde passaram, arderam como brasa.                      Meu grito ficou contido na garganta, latejando, doendo,                      batendo forte _ como se o coração realmente pudesse me                      saltar à boca. Coração que eu já nem deveria ter, segundo                      ela. Já que tudo estava perdido em mim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mal sabia ela que havia um espelho em meu                      quarto, quando cheguei em casa. E que ele me salvou a vida.                     &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ainda havia em mim dois olhos. Dois olhos                      castanhos e lembranças. Lembranças coloridas. Havia também a                      música, que ouvi baixinho. Havia um pai, uma mãe e três                      irmãos em mim. Também encontrei lá quatro crianças lindas,                      que me sopraram a face, com uma ternura tão imensa que me                      fez sentir o beijo de Deus na primeira criatura.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ainda havia em mim a coragem de chorar.                      Chorar tudo, recobrando a força, a vontade, o desejo, a fé.                      Quebrei meu silêncio, o jejum e todas as correntes que me                      travavam os pés.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Não, não é tarde. Não tenho mais vinte anos,                      não tenho mais a inocência, não tenho mais o vigor de antes.                      Tenho, no entanto, dignidade, herança boa. Tenho valentia de                      sangue sertanejo, tenho saudade, tenho lembranças e muita                      estrada atrás e à minha frente, sim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Bendito espelho que me fez enxergar quem                      sou. Bendito amor que me tenho, que me fez e que me leva a                      querer continuar vivendo e apostando em mim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-1136373392729153807?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/1136373392729153807/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/04/tarde-demais.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1136373392729153807'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1136373392729153807'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/04/tarde-demais.html' title='Tarde demais'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S8NHezZ-n2I/AAAAAAAAAa8/Z5QZWvWBMFo/s72-c/foto+pb.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-1789760915016374144</id><published>2010-04-06T13:20:00.000-03:00</published><updated>2010-04-06T13:20:47.238-03:00</updated><title type='text'>Meninos pagãos</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7tfVRrLSiI/AAAAAAAAAa0/ucx9002uQCc/s1600/candomble-carybe.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7tfVRrLSiI/AAAAAAAAAa0/ucx9002uQCc/s320/candomble-carybe.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;Histórias que a gente ouve na                      infância ficam. Não tem jeito. Principalmente se o narrador                      é dos bons, daqueles que inventam vozes, recheiam as falas                      com sonoplastia digna dos melhores filmes de suspense e                      gesticulam como se vivessem a cena. &lt;/span&gt;                     &lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Eu tive bons narradores,                      dos melhores mesmo, nos primeiros anos da minha vida. E eles                      sabiam que eram, mesmo não tendo plena consciência das                      técnicas usadas. Caprichavam, rebuscavam efeitos e nos                      impressionavam de verdade. Deles ficaram também as lendas,                      os cuidados, os medos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Pois bem, sei que se                      quebrar o espelho do meu quarto não terei sete anos de azar.                      No entanto, torço para que não aconteça. Sei também que se                      tomar banho depois do almoço não vou entortar sem conserto,                      mas... Se fizer careta e o galo cantar, se passar embaixo de                      uma escada, se comer manga e tomar leite, se comer melancia                      depois das seis da tarde, se cruzar uma encruzilhada...                     &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Tudo isso é coisa besta,                      história pra boi dormir, mas eu não vou teimar com quem já                      viveu mais do que eu. Não mesmo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Então, uma das histórias                      que mais me meteram medo e que até hoje me rouba o sono só                      de lembrar é a dos meninos pagãos. Reza a lenda, lá nos                      confins de São José da Coroa Grande, que se uma criança                      morre pagã jamais deixa de assombrar a casa, até que se faça                      um batismo simbólico e a torne cristã. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Perto da minha casa havia                      enorme castanholeira, onde os meninos pagãos vinham chorar                      sempre que morria mais um na cidade. Sob essa árvore eram                      realizados os batismos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A estranha cerimônia era                      bonita de se ver. Mulheres vestiam branco, misturavam                      candomblé com orações cristãs, dançavam, se banhavam com sal                      e flores e ofereciam suas preces pelos anjinhos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Chegávamos a ouvir o choro                      _ que na verdade era uma cuíca qualquer tocada entre os                      atabaques e os gemidos das mulheres _ e todos os fios de                      cabelos se arrepiavam. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Não sei onde foram parar os                      meninos pagãos, que hoje não choram mais, já que a árvore                      foi cortada para dar lugar ao asfalto. Não sei onde estão                      aquelas mulheres, seus atabaques, orações e cuícas. &lt;/span&gt;                     &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Sei apenas que as                      histórias, os costumes e força daquela gente ficaram em mim.                      Para sempre. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-1789760915016374144?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/1789760915016374144/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/04/meninos-pagaos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1789760915016374144'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1789760915016374144'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/04/meninos-pagaos.html' title='Meninos pagãos'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7tfVRrLSiI/AAAAAAAAAa0/ucx9002uQCc/s72-c/candomble-carybe.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-6344239068634776626</id><published>2010-03-31T16:02:00.000-03:00</published><updated>2010-03-31T16:02:10.892-03:00</updated><title type='text'>O jubilado</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OcJOV8cgI/AAAAAAAAAag/4f3nixsYNOc/s1600/92858032_7da56f6e9d.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OcJOV8cgI/AAAAAAAAAag/4f3nixsYNOc/s320/92858032_7da56f6e9d.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O cheiro do café enchia o ar de bom dia. Aos poucos a cidade amanheceu. Fartura de expectativas e paz. O ruído no portão foi se transformando em algazarra quando elas entraram esbaforidas, aceleradas, falando ao mesmo tempo. Novidades à vista, pensamos.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left" dir="ltr" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Na cozinha o fuzuê estava armado. Minha mãe tentava acalmar as falastronas, que zumbiam, gesticulavam, despejando nomes conhecidos, entre goles fartos de café e enormes pedaços de bolo. "Jubilado, o menino, comadre! Jubilado", anunciava Sônia. "Dizem que a festa vai ser grande dessa vez. Já mandaram benzer a capela nova, tem banda de música ensaiando no salão paroquial e dizem que vem gente de tudo o que é canto para as homenagens", soltou Luzia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" dir="ltr" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Nos entreolhamos - eu e meus irmãos - e tentamos entender o porquê de tanta confusão. Afinal, quem era o jubilado, santo Deus? E por que festa para uma coisa assim? "O menino fez bonito", refletiam, reticentes. Batata! Elas não sabiam que o "feito" do menino era na verdade uma tragédia. Nos divertimos com aquilo, já no primeiro instante em que entendemos o engano. Dona Nadir atravessou o caminho entre o terraço e a cozinha feito um raio. O pano de prato gasto, amarelado, jogado nos ombros, indicava a sofreguidão dos curiosos. Lenço retocado de minuto em minuto. Corpo estourando em bolhas. Era conhecida a alergia da bodegueira, madrinha de todos os bêbados do vilarejo. O balcão de Dona Nadir era ponto de encontro de todos eles, dia e noite. Tudo que acontecia nos arredores chegava primeiro por lá. Era a imprensa local, aquele balcão tosco.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" dir="ltr" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Dessa vez ela soube com atraso e a urticária deu sinal de vida. "Mas já avisaram ao prefeito?". Sim, sim, o prefeito já havia sido avisado, as diretoras dos grupos escolares, as benzedeiras, cozinheiras, fazendeiros, todo mundo sabia do grande triunfo de Vandelson na Capital. Jubilado. Minha mãe tentava falar, mas não conseguia. "Não tem que fazer festa, gente. O menino foi jubilado", tentou. Os olhares praticamente a fuzilaram. Podíamos quase ouvir os pensamentos das futriqueiras. "Ela está é com inveja porque não foi filho dela". Saíram em cortejo silencioso, dizendo voltar mais tarde.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" dir="ltr" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Corremos pra calçada. Sentada no muro de casa, vi passar meninos de pernas finas empurrando carros-de-mão com gelo e pó-de-serra, cabritos com pés amarrados (prontos para o abate)e engradados de cerveja. Todo mundo queria dar sua contribuição para o herói da cidade. À noite a festa foi inesquecível. Discursos, foguetório, forró, comida e bebida até não se querer mais. No palanque, Vandelson tremia - mudava de cor, sorria amarelo, nos olhava sem jeito. Ele sabia que nós sabíamos. A diversão foi maior do que pensávamos. Jubilado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" dir="ltr" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Jamais vou esquecer o dia seguinte. Faixas no chão, restos de festa. Na parada do ônibus, antes de ir para a escola, encontrei o homenageado, triste, com mochila do lado. Depois da festa, foi forçado a não iludir mais os pais. Expulso de casa. Vergonha. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" dir="ltr" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Durou pouco tempo a mágoa. O jubilado hoje é respeitado pai de família, longe da cidadezinha que lhe fez herói. A história nunca foi esquecida por lá. Dizem que pensaram até em erguer estátua. Sorte que alguém achou um dicionário a tempo. O dono de todas as pompas e glórias acabou virando a piada do século.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-6344239068634776626?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/6344239068634776626/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/o-jubilado.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/6344239068634776626'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/6344239068634776626'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/o-jubilado.html' title='O jubilado'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OcJOV8cgI/AAAAAAAAAag/4f3nixsYNOc/s72-c/92858032_7da56f6e9d.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-1053177968501026734</id><published>2010-03-31T15:53:00.000-03:00</published><updated>2010-03-31T15:53:26.319-03:00</updated><title type='text'>A companheira</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OaGAozDtI/AAAAAAAAAaY/r-F48IyYUU8/s1600/2007_mae_filha_menina_mother_daughter_girl.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OaGAozDtI/AAAAAAAAAaY/r-F48IyYUU8/s320/2007_mae_filha_menina_mother_daughter_girl.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Era a minha apresentação no teatrinho da escola. Estávamos vestidos com as túnicas azuis (horrorosas, por sinal) da cor do céu, com uma corda grossa amarrada à cintura, imitando os apóstolos, em pleno altar da capela do colégio. Minha única fala era anunciar que o Salvador havia nascido, e só. O resto era acompanhar as falas em que todos faziam aclamações. Tudo muito fácil, não tivesse a personagem principal apenas seis anos de idade. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Aquela minha estreia poderia ter sido apenas mais um trabalho de escola, mas foi bem mais, porque naquele dia descobri que havia alguém do meu lado, sempre, com uma força descomunal me empurrando para tudo que era bom nessa vida. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Assim que me lancei à frente e soltei a fala, a vi chegar. Trazia uma sacola de feira pendurada num dos braços e o rosto corado. Não sei se de emoção ou pelo sol de quarenta graus lá fora. Não sei mesmo se o sol estava lá fora ou se ela era, inteira, o próprio sol. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Fomos cúmplices, eu e ela, a vida inteira. Dela eu herdei os altos e baixos. Em alguns momentos sou um mar de águas calmas e bastam alguns segundos para me transformar num rio pronto para despencar corredeira abaixo. Herdei também o horror pelas injustiças, pela deslealdade, pelo egoísmo, pela ganância. Levo comigo o apego à família, às raízes, a vontade de festa em cada coisa do dia. Levo comigo a fúria destemperada ao ver um amigo ou irmão sendo desmerecido ou pisado. Levo comigo as canções de ninar, o colo macio, o abraço silencioso, as histórias antes de dormir. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Levo comigo as broncas, o leite quente nas noites com febre, o sorriso iluminado, as danças em nossa sala, o amor maior. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Já quis muitas coisas nessa vida, entre os seis e os trinta e seis anos de estrada. Já quis cantar, ela me deu violão e voz. Quis ganhar o mundo, ela me abriu as estradas, me entregando a todos os anjos e santos quando partia. Quis voltar para casa, ela me acolheu sem porquês nem senões. Já quis muito, sonhei alto. Mas nada me fazia mais contente do que chegar em casa e encontrá-la. Do que ter a quem pedir a bênção, do que saber que em algum lugar eu tinha um pedaço de mundo que me acolheria. Eu tinha para onde voltar. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Hoje, trocaria todos os anos da minha vida _ os que já tive e os que, porventura, terei. Trocaria todas as festas, todos os encontros, todas as estradas, tudo que fiz, pelo direito de tê-la de volta. Sei que ainda há muito a buscar, que não há por que parar quando o caminho ainda aponta para muito longe além do que os olhos alcançam. Mas ela fazia a diferença. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Ontem troquei ideias com alguém bem próximo e vimos que pensamos igual. Não há coisa melhor no mundo que mãe. Sem ela, parece que todo o nosso corpo deu um nó. Os pés travam, a voz falta, a infância volta a bater na porta e todos os bichos-papões saem de suas tocas. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Não há um dia em que eu não pense em nossa amizade. Mesmo que eu viva até esquecer de mim, mesmo que eu consiga tudo que eu pensei, não a esquecerei, nem por um segundo sequer. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-1053177968501026734?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/1053177968501026734/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/companheira.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1053177968501026734'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1053177968501026734'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/companheira.html' title='A companheira'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OaGAozDtI/AAAAAAAAAaY/r-F48IyYUU8/s72-c/2007_mae_filha_menina_mother_daughter_girl.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-2551509798301881661</id><published>2010-03-31T15:48:00.000-03:00</published><updated>2010-03-31T15:48:38.178-03:00</updated><title type='text'>O enterro do anjinho</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OY7ZtqlSI/AAAAAAAAAaQ/8qH7j17zBh0/s1600/CRIAN%C3%87AS+BRINCANDO+NA+PRAIA.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OY7ZtqlSI/AAAAAAAAAaQ/8qH7j17zBh0/s320/CRIAN%C3%87AS+BRINCANDO+NA+PRAIA.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Ele sempre pareceu diferente dos outros meninos. Nasceu menor do que os outros, chorava menos que os outros, dormia bem mais que os outros e tinha um jeito estranho de sorrir. Parecia um adulto num corpo de criança. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Entre os cinco filhos da casa, todos mulatos, ele chamava a atenção com a pele clara e os olhos azuis. Aos dez meses, enquanto aguardava pacientemente a hora dos afagos da mãe e dos irmãos no berço, chegava a cruzar as perninhas e colocava a mão no queixo, como se entendesse o mundo e divagasse sobre as coisas mais complexas. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Família pobre demais. Todos precisavam correr atrás do sustento. Pai pescador, ensinava a arte de trançar redes e cestos. As mãos pequenas dos irmãos mais velhos teciam o instrumento de trabalho e tangiam moscas que perturbavam o sono do caçula. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Eu gostava de participar da festa, embora nunca tenha aprendido a fazer as tais redes. Mesmo depois de tentar comprar as aulas com bolas de gude, piões, bonecas e algumas voltas de bicicleta, fui rebaixada a assistente. Minha única obrigação era embalar o anjinho, caso ele acordasse enquanto os outros trabalhavam. Aquelas tardes sempre terminavam com mergulhos no mar e brindes de água de coco, então eu colaborava. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Um dia minha mãe nos acordou e nos trouxe a notícia: o menino havia morrido. Antes de completar um ano de vida, ele deve ter chegado à conclusão _ em suas divagações no berço _ que esse mundo não era mesmo para ele. Os mais velhos disseram que Jesus o havia chamado, porque ele era bonzinho demais e merecia ir logo para o céu. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Foi então que veio o estranho convite. Os pais da criança estavam convocando todas as crianças da vizinhança para acompanhar o cortejo até o cemitério. Precisavam de outros anjos para apresentá-lo ao paraíso. Lá fomos nós, com nossas melhores roupas, entoando canções de ninar pelas ruas estreitas, sem entender direito se era para rir ou chorar. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Entregue o anjinho nos braços de Deus, voltamos para casa cheios de balas coloridas nos bolsos e nas mãos. Era o costume do lugar: os pais da criança deveriam adoçar os sonhos dos pequenos, para que eles não temessem a morte e valorizassem ainda mais a delícia de viver. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Nunca esqueci aquele dia. Lembro bem do menino estranho até hoje. E de como aprendi que, mesmo diante da dor, há pessoas que são capazes de abrir as mãos e entregar ao próximo doces oferendas.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-2551509798301881661?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/2551509798301881661/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/o-enterro-do-anjinho.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/2551509798301881661'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/2551509798301881661'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/o-enterro-do-anjinho.html' title='O enterro do anjinho'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OY7ZtqlSI/AAAAAAAAAaQ/8qH7j17zBh0/s72-c/CRIAN%C3%87AS+BRINCANDO+NA+PRAIA.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-8049678222155498604</id><published>2010-03-31T15:44:00.001-03:00</published><updated>2010-03-31T15:45:13.903-03:00</updated><title type='text'>Sobre a doçura da vida</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OX6BXymuI/AAAAAAAAAaI/bcjA4iKLRg8/s1600/20+crian%C3%A7a.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OX6BXymuI/AAAAAAAAAaI/bcjA4iKLRg8/s320/20+crian%C3%A7a.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Voltávamos da escola, sempre falantes, mais juntos do que em qualquer outro momento _ afinal, aquele era o nosso instante, quando éramos só nós dois, dividindo as primeiras horas dos nossos dias. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Os mais velhos seguiam à frente, porque andar de mãos dadas com o pai era coisa para quem ainda levava lancheira e usava uniforme infantil demais. Eu adorava ser a caçula e ter o privilégio que eles desperdiçavam. Tolos, que não aproveitavam os conselhos, que não desfrutavam dos sorrisos silenciosos (fazendo o corpo dançar, como se a alma se divertisse e mandasse lhe acompanhar na festa). &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Quando as minhas frases soltas jogavam mais ingenuidade do que o costume, então eram gargalhadas fortes que enchiam o ar. Eles, os mais velhos, fingiam não se importar, mas então eu gargalhava junto, balançava o corpo junto, provocava com a nossa farra. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Num daqueles dias, porém, abusei da paciência do meu velho, quase ganho umas palmadas, mas entendi o significado da doçura, primã-irmã do amor de pai. Passamos por uma vitrine tentadora, loja nova no caminho, com filhotes de cães pulando para todos os lados. Latidos finos, patas minúsculas e arredondadas, pelos fofinhos, olhos espertos pedindo colo. “Quero um, compra?”, o pedido. “Não”, a sentença curta e definitiva. “Quero um, quero um, quero um” foi a ladainha pelo longo trajeto, uma quadra após a outra. Atrasei os passos, empaquei, ameacei greve de silêncio, reclamei da vida. E ele, firme. Até que _ com aquela compaixão que só os pais sentem frente ao choro de um filho _ ele sugeriu: “Que tal um pão doce?”. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Amuei e foi difícil desfazer a tromba. Onde já se viu oferecer um pão doce em troca daquele cachorrinho perfeito? Havia perdido a batalha. Fui rendida e cedi aos encantos dos pães cheios de coco açucarado. Ele parou no balcão, pediu os pães e ficou ali, pacientemente, esperando que desfrutássemos do lanche em horário indevido e que certamente lhe renderia reclamações em casa. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Entre uma mordida e outra, seus olhos me acertaram. Toda a malcriação já havia sumido, da minha parte. Todo o amor do mundo permanecia com ele, feliz diante das crias. Terminado o lanche, seguimos adiante, de volta para casa. Colamos novamente nossas mãos e retomamos os sorrisos de onde paramos. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Entre tantas outras coisas boas que meu pai me deixou, a doçura dos seus gestos é meta que tento alcançar diariamente. Mas, confesso: estou longe de chegar aos pés de tamanha grandeza. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-8049678222155498604?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/8049678222155498604/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/sobre-docura-da-vida.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/8049678222155498604'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/8049678222155498604'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/sobre-docura-da-vida.html' title='Sobre a doçura da vida'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OX6BXymuI/AAAAAAAAAaI/bcjA4iKLRg8/s72-c/20+crian%C3%A7a.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-4455390466401574844</id><published>2010-03-31T15:40:00.000-03:00</published><updated>2010-03-31T15:40:47.875-03:00</updated><title type='text'>Apaguem as luzes</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OXJPqakwI/AAAAAAAAAaA/HAKbOVQaGiw/s1600/1518355.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OXJPqakwI/AAAAAAAAAaA/HAKbOVQaGiw/s320/1518355.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Chegando do trabalho, durante a semana, fui surpreendida com o apartamento das minhas vizinhas às escuras. Somos sempre levados a buscar respeitar os que dividem conosco o mesmo espaço no condomínio, mas isso fica complicado quando os apartamentos são praticamente colados. Da janela da minha cozinha _ onde me debruço por alguns bons minutos, assim que chego em casa, para fazer o jantar _, não há como não olhar para a casa alheia. Bem que tento, mas não dá mesmo. A não ser que eu vende meus olhos, torça o pescoço para as costas ou não tire os olhos da pia, sem elevar a cabeça um só instante. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Pois bem, as moças estavam sem luz. Pagavam por uma falha de ex-moradores, que desocuparam o imóvel sem pagar as contas. Cortaram. Imaginei como seria ruim, estar ali, sem o barulho da televisão, a luminosidade da luz elétrica fazendo a noite virar dia, a possibilidade de um belo banho quente... Até que, entre as velas acesas sobre a mesa, onde elas conversavam, sorriam e bebericavam alguma coisa, percebi o quanto estavam bem, o quanto aquele apagão havia aproximado as duas. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Como disse, não quero ficar olhando a vida alheia, não é mesmo do meu feitio, mas não pude evitar. Sempre que cheguei, nos dias em que a luz imperava naquela casa, o local parecia vazio. Com luz, mas vazio. Não via ninguém passar, não ouvia vozes, mas a televisão sempre estava ligada. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Penso que, para não perder nenhum lance das novelas, elas preferiam ficar quietas, sem muita conversa, sem tempo para perder (uma com a outra), sem trocas. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Lembrei dos velhos dias de apagão, quando faltar energia era algo comum nos vilarejos da infância, principalmente no verão, quando a praia se enchia de turistas. A sobrecarga sempre nos deixava na mão. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Numa das noites mais esperadas do ano, perto do Natal, quando toda a vizinhança havia combinado fazer quitutes e se reunir para ver o show de Roberto Carlos, a distribuidora não suportou e a luz foi embora bem na hora marcada. Lembro que praguejamos por alguns minutos, esperamos que a sorte batesse à porta e nos trouxesse a luz de volta, até que alguém pegou um violão. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Fomos todos para o terraço, onde mangueiras, cajueiros e coqueiros nos protegiam e sopravam a brisa que vinha da praia. Jogamos esteiras no chão, forramos toalhas e trouxemos os quitutes. Deitei na esteira e ganhei de presente todas as luzes do universo, ali, só para mim. Não poderia haver espetáculo maior do que aquele, nenhum show chegaria aos pés. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Homens, mulheres, crianças, todos cantando juntos canções nossas, dos nossos pais, dos nossos avós, e as velhas canções de Roberto. Comemos, rimos, e de repente já nem lembrávamos que a luz havia ido embora. Estávamos completamente iluminados. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Vendo as luzes apagadas na casa das minhas vizinhas tive a vontade de também apagar as minhas, pegar o violão e acender minha alegria, com o violão em punho. De vez em quando, tenho para mim, é bom apagar as luzes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-4455390466401574844?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/4455390466401574844/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/apaguem-as-luzes.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/4455390466401574844'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/4455390466401574844'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/apaguem-as-luzes.html' title='Apaguem as luzes'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OXJPqakwI/AAAAAAAAAaA/HAKbOVQaGiw/s72-c/1518355.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-1439840369054960871</id><published>2010-03-31T15:19:00.000-03:00</published><updated>2010-03-31T15:19:56.922-03:00</updated><title type='text'>Mágoa de cabocla</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OSQJcuV1I/AAAAAAAAAZ4/TdvCLTzVPas/s1600/Magoada-e-Triste.gif" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OSQJcuV1I/AAAAAAAAAZ4/TdvCLTzVPas/s320/Magoada-e-Triste.gif" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mágoa é veneno quente que entorpece e mata devagar. Mágoa é pior que cigarro, cachaça, mais letal que qualquer droga. Mágoa anestesia os sentidos, faz tremer as pernas, tira o ar, rouba a razão, cobre a gente de frio. Mágoa é coisa ruim, tipo mau-olhado: põe nódoa no viço, deixa os olhos fundos, corrói o corpo e a alma, em silêncio. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Um dos amigos do meu pai disse uma vez, naquelas conversas das sextas-feiras na varanda: “Prefiro uma dor de dente a sentir angústia. Não há nada pior do que levar nas costas uma mágoa mal curada, uma bordoada”. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Estava certo o amigo do meu pai. A dor de sentir-se traído, incompreendido, desrespeitado, ultrajado, é nó cego, como dizem os matutos. Não há ser humano que suporte calado. Não há quem diga que não está doendo, não há disfarce. E a tal da mágoa é coisa ruim de curar. Até se encontra o perdão, numa esquina qualquer. Contudo, perdoar não é esquecer. E isso é bem coisa de mágoa entranhada. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;A mágoa bate na porta quando você pensa que já vai dormir em paz. Martela centenas de vezes as palavras que lhe cuspiram na face. Repete, feito disco arranhado, a romaria desafinada, badala aos quatro ventos a dor que lhe faz chorar. Faz questão de lembrar o que você pagaria qualquer preço para esquecer. Basta ensaiar um “não lembro mais” e a bruxa da mágoa diz “estou aqui”. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Há coisas que não se deve dizer a quem se quer bem. Porque isso quebra o elo sagrado que une os amigos, os irmãos, os amores. Há coisas que não se deve dizer a ninguém, porque o vento pode mudar a direção, a bola pode quicar e o tiro sair pela culatra. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Há sentenças que podem e devem ser ditas, mas há a escolha pelo caminho suave ou pela agressividade. E tem mais: a verdade é relativa e não foi comprada por ninguém. Portanto, cada um com a sua verdade, com a sua medida do que é certo e errado, sem julgar ou condenar ninguém por pensamentos opostos. Só quando a minha medida ultrapassar o limite do meu vizinho. Enquanto isso não acontece, cada um na sua e todo mundo junto. Isso é harmonia. É assim que a banda toca. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Essa história de que “a verdade tem que ser dita” dá nos nervos e só causa estragos. Tem gente que perde a mão e descamba a plantar mágoa quando cai no erro de que “a verdade tem que ser dita, a verdade tem que ser dita”. Cada um com sua verdade, cada um com suas querências, cada um com suas escolhas. E... todo mundo junto. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Hoje acordei com uma mágoa danada no peito. E dói que chega a dar arrepios. Uma hora vai passar, mas eu sei que não vou esquecer. Tudo porque alguém achou de tentar me dizer “verdades”. Alguém que quero tanto bem e que me é tão caro, cismou em me dizer verdades que não são minhas, que não me servem, que eu não compraria, que não quero para mim. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Mas não dá nada. Vou tocar em frente e fazer um dia melhor acontecer. Quem sabe a mágoa resolve me deixar cantar um samba, enquanto mando meu recado a esse amigo querido, tão equivocado a meu respeito? Eu sou feliz assim. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-1439840369054960871?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/1439840369054960871/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/magoa-de-cabocla.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1439840369054960871'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1439840369054960871'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/magoa-de-cabocla.html' title='Mágoa de cabocla'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OSQJcuV1I/AAAAAAAAAZ4/TdvCLTzVPas/s72-c/Magoada-e-Triste.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-8807067369560561691</id><published>2010-03-31T15:16:00.003-03:00</published><updated>2010-03-31T15:22:48.839-03:00</updated><title type='text'>A estranha</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7ORdJTm0HI/AAAAAAAAAZw/yE0cpGNpok0/s1600/0815068.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7ORdJTm0HI/AAAAAAAAAZw/yE0cpGNpok0/s320/0815068.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;table border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" height="457"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td colspan="3" dir="ltr" height="347" width="100%"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Fazia frio naquela noite. O menino não se importava, queria ver a chegada da estranha. Há algum tempo o comentário no pequeno arruado era um só: ela vai chegar. Só falavam nela, só tinham olhos para a casinha amarela de janelas e portas sempre cerradas. E ele sentia que com ela algo de bom poderia acontecer ali, no lugar onde ninguém mais queria ir. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Plantou os pés na soleira. Agachou, levantou e sacudiu poeira tantas vezes que nem lembrava mais se estivera em outro lugar que não aquele: o batente da casa amarela. O pai havia saído cedo, quando a serração encobria o terreiro e não deixava passagem para visão alguma. O rio só dava sinal de estar ali porque era cantor dos bons e nunca parava de soprar a cantilena. Dia e noite. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;As mãos gelavam. Juntava, levava à boca, jogava todo o ar dos pulmões para aquecer. Bermuda e camisa de tecidos gastos não lhe ofereciam o conforto necessário para o frio da serra. Chinelos rasos. Quase raspava os pés na areia grossa. Frio, frio, frio. Mas ele estava decidido: não arredaria o pé. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Quando o sono começava a lhe render, ouviu o ranger das rodas no caminho. Limpou os olhos, levantou e juntou-se ao cachorro, que latia alto na porteira torta. Demorou para perceber os vultos, que aos poucos se desvencilhavam da neblina baixa. Pararam em frente à casa e ele pôde ver então os longos cabelos finos e negros. Desde então, jamais saíram dos seus olhos. A pele parecia ter esquecido de brincar no sol. As mãos traziam dedos longos e delicados. Jamais haviam arado a terra, pensou. A estranha, apesar de não parecer com ninguém que conhecia, se fez parente próxima quando sorriu. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Obedecendo às ordens do pai, foi ajudar. Malas, caixas e aquele malote estranho, de couro preto. Tudo cheirava a cidade grande, a estrada e a mundo de verdade. A mãe chegou depressa, secou as mãos, que sempre estavam a serviço, ajeitou o lenço na cabeça e deu abraço tímido na moça. Ela era herdeira daquele pedaço de chão que ninguém era louco de querer. Pois ela quis. E ele ainda não entendia o porquê. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Café e bolo de milho, ao lado do fogão à lenha, finalmente trouxeram calor à madrugada que também resolveu chegar. E um brazeiro se formou no ar quando a moça abriu o malote de couro preto, tirou de dentro o instrumento de madeira e tocou para os anfitriões cansados. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;O nome era difícil de aprender: “Rebeca?”, tentou o pai. “Rabeca, Chico, rabeca”, disse sorrindo a moça. Ficaram amigos. A rabeca o provocou por dias a fio, com a música que jogava todos os sons do mundo no ar. Às vezes gemia, reclamava, soluçava como as viúvas da seca com saudade dos maridos distantes. Outras, era alegre, serpenteava, gargalhava entre o riacho teimoso e a caatinga _ que se espalhava, malvada entre os resquícios de plantação. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;O menino pegou paixão por aquilo, descobriu que a vida poderia lhe trazer surpresas boas, como a moça da cidade e a rabeca cantadeira. A música, aquela estranha maneira de juntar o céu e a terra através das cordas de metal, virou musgo na pele e no coração. &lt;/span&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt; &lt;td colspan="3" height="1" width="100%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-8807067369560561691?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/8807067369560561691/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/fazia-frio-naquela-noite.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/8807067369560561691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/8807067369560561691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/fazia-frio-naquela-noite.html' title='A estranha'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7ORdJTm0HI/AAAAAAAAAZw/yE0cpGNpok0/s72-c/0815068.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-799521435033532514</id><published>2010-03-31T15:10:00.000-03:00</published><updated>2010-03-31T15:10:06.547-03:00</updated><title type='text'>Canção das lavadeiras</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OP82hx7QI/AAAAAAAAAZY/aMwF0UgbnxE/s1600/13lavadeiras.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OP82hx7QI/AAAAAAAAAZY/aMwF0UgbnxE/s320/13lavadeiras.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Elas passavam cantando, antes mesmo do sol se exibir por inteiro e chamar todo mundo à vida, quando o friozinho da madrugada tentava segurar as horas, molhando a grama verdinha lá fora. Adorava o ritual dos sábados. Bastava ouvir o chiado dos chinelos e o burburinho do grupo, saltava da cama, lavava o rosto e me jogava. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;A maioria (entre as quinze) já havia dado o filho para meus pais batizarem, então, me deixavam seguir estrada afora. O que para elas era um ritual, misturando obrigação e prazer, dever e alegria, para mim era a mais perfeita festa. O caminho era longo, mas quase não sentia o barro do chão querendo virar braseiro sob meus pés. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;A empreitada tinha que valer a pena e render várias tarefas ao mesmo tempo. Já que eu insistia tanto naquilo, teria que me fazer útil e ajudá-las. Era preciso catar carrasqueiras, coquinhos da estrada, pitanga, caju e araçá, que seriam jogados dentro da antiga saca de farinha _ maloca da nossa produção da beira de estrada. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;As árvores do caminho eram de todos que passassem por ali, então, se eram de todos também nos pertenciam. Os restos mortais dos coqueiros também, por isso podíamos pegar toda a lenha do mundo, que ninguém nos cobraria depois. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Como dançarinas, equilibravam, sobre as cabeças, rolos de pano bem montados, onde levavam as bacias de alumínio, divinamente brilhosas, areadas, espelhando cada uma de nós. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Elas riam da minha festa e quando íamos nos aproximando do riacho, como mágica, começavam a cantoria. Uma chamava os versos, as outras cobriam o refrão. Saudades de maridos, roubados pelo mar. Louvações à Iemanjá, às sereias. Até a produção das casas de farinha virava música. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Eu me esbaldava de rio, de música, histórias e sorrisos fartos. O almoço era feito ali mesmo. Latões serviam de panela, onde caranguejos (catados no mangue ao lado) eram cozidos. Ostras eram tiradas nos talos finos das árvores fincadas na lama e comidas cruas, com sal. A água era levada em pequenas cumbucas de barro, fria e saborosa. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;Não havia passeio melhor. Chegava em casa, no final da tarde, com o sol se despedindo do mundo, feliz. Depois de um bom banho, um belo prato de sopa e de aconchego de mãe, me entregava ao sono, embalada pelas cantigas do rio e pela felicidade pura, colhida das lavadeiras.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-799521435033532514?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/799521435033532514/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/cancao-das-lavadeiras.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/799521435033532514'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/799521435033532514'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/cancao-das-lavadeiras.html' title='Canção das lavadeiras'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OP82hx7QI/AAAAAAAAAZY/aMwF0UgbnxE/s72-c/13lavadeiras.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-4662761944091705808</id><published>2010-03-31T15:06:00.000-03:00</published><updated>2010-03-31T15:06:22.720-03:00</updated><title type='text'>A tiriva</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OPEycxOHI/AAAAAAAAAZQ/5jcTiMpmyso/s1600/tiriva.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OPEycxOHI/AAAAAAAAAZQ/5jcTiMpmyso/s320/tiriva.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Foi um caso de amor com final infeliz, aquele. Trágico, digamos. A tiriva chegou em sua casa meio por acaso e a pegou de jeito. Ela, que sempre pareceu não dar a mínima para os bichinhos que vez por outra tentavam seduzi-la e serem recolhidos das ruas, caiu de amores pelo rascunho de papagaio. Não havia quem duvidasse que a recíproca era verdadeira. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;O bicho também lhe tinha o maior afeto. Era até bonito de se ver. Ai de quem se metesse a besta e dissesse que a tiriva era feia, ou ameaçasse a integridade física da bichinha. A dona, zelosa, virava uma fera e devolvia na mesma moeda. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Quando ia para a escola, antes de sair, pegava a bichinha nas mãos, afagava, prometia voltar logo e se deixava bicar de leve. Ao voltar para casa, mal largava a mochila, era recepcionada pela serelepe prima das araras, que abanava o rabinho comprido, sacodia as penas e balançava a cabeça, em gestos frenéticos. O pai dizia que a tiriva só não falava para não ir à escola, de tão esperta que era. Parecia gente. Se estava zangada, se recusava a comer. Quando estava feliz, pulava entre as poltronas, ensaiava piados estridentes e mostrava festa com as bicadinhas gentis. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Mas o destino às vezes pode ser cruel, apronta armadilhas e havia um inimigo à espreita. Certo dia, sem aviso, a vizinha também caiu de amores por um bicho. O gato mais peludo e de olhos maquiavélicos que ela já havia conhecido. “Não gosto de gatos, não gosto de gatos”, repetia, defendendo-se da presença ameaçadora à sua tiriva. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Passou a não deixar mais a bichinha passear solta pela casa. Seu mundo _ enquanto o gato da vizinha permanecesse por perto _ seria resumido às quatro paredes do quarto. Enchia de mimos, para que ela não sofresse e pensava que assim tudo estaria bem. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Um dia, voltando da escola, correu para o afago corriqueiro e, ao vencer a sala, veio o susto: alguém havia deixado a porta do quarto aberta. Baque no peito. Chamou pela tiriva, correu todos os cômodos, pânico crescendo. Ao chegar ao quintal, viu o peludo de olhos amarelos, cruéis, feliz da vida, empapuçado, pensando na vida sobre o muro. No cantinho da parede, as penas coloridas eram o sinal de que a tiriva escapou e foi direto para as garras da morte. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Chorou, lamentou, prometeu nunca mais ter bicho algum. Jurou ódio mortal a todos os gatos. Cresceu, comprou um peixe beta. E foram felizes para sempre... até ele morrer mofado no aquário.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-4662761944091705808?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/4662761944091705808/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/tiriva.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/4662761944091705808'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/4662761944091705808'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/tiriva.html' title='A tiriva'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7OPEycxOHI/AAAAAAAAAZQ/5jcTiMpmyso/s72-c/tiriva.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-6845585469438584102</id><published>2010-03-30T13:46:00.000-03:00</published><updated>2010-03-30T13:46:04.278-03:00</updated><title type='text'>Banho de Chuva</title><content type='html'>&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7IqJgCmDBI/AAAAAAAAAZI/bu9ZhjWMYT4/s1600/Crian%C3%A7a+na+chuva.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7IqJgCmDBI/AAAAAAAAAZI/bu9ZhjWMYT4/s320/Crian%C3%A7a+na+chuva.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Aquele dia comprido parecia que não ia                      acabar mais. Chuva que não parava. Fina, grossa, com vento,                      silenciosa. Chuva, chuva, chuva. E eu ali, dentro de casa,                      olhando pelas frestinhas que me restavam pela janela.                      Querendo brincar lá fora, sem poder. "Invente algo pra fazer                      em casa", disse meu pai. "Já pensou nas crianças que não têm                      onde morar?", soltou, lá da cozinha, a minha mãe.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Eu não estava muito querendo saber das                      outras crianças, sinceramente. Nem queria perder meu tempo                      com invencionices de menina dentro de casa. Queria mesmo era                      aquela chuva. Sim, lá fora. Queria pular na lama e me sujar                      de vermelho, queria fazer bonecos e panelinhas de barro,                      para depois brincar de casinha com as amigas, queria cair no                      mar e fingir que era um lençol quente, me protegendo da água                      que caía do céu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;"Menino não tem querer", era o que diziam os                      mais velhos. E eu tinha que obedecer, sem bico, sem                      reclamação e sem batidinhas no pé. Não adiantava, aquela                      chuva não seria minha. Não seria? Pois bem...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Esperei o primeiro descuido dos meus pais,                      que não dispensavam o cochilo depois do almoço. Olhei em                      volta, conferindo se havia irmã mais velha na área de risco,                      pisquei para a irmã do meio _ que também sonhava com o                      aguaceiro na rua _ e pulei a janela. Quase perco os dedos                      das mãos, na pressa da fuga, e machuquei feio os joelhos,                      quando ganhei as ruas. Nada importava, a chuva era minha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Deus nos abençoa quando manda chuva. Isso eu                      aprendi com minha avó sertaneja. Deus fala com a gente                      através dela. Quando está zangado, manda trovões e raios.                      Quando está contente, manda a garoa fina, para regar o mundo                      todo. Deus é chuva fina, molhando a grama, a calçada, o                      barro vermelho, o mar. Deus corre no riacho, evapora e volta                      para o céu. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Eu já sabia disso, quando era criança.                      Adorava a chuva, quando podia desfrutar dela. Dias de chuva                      só tinham graça se eu podia brincar na rua. A travessura                      daquele dia, é claro, foi descoberta. Rendeu uma febre,                      roupas molhadas e sermões. No entanto, fui feliz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Hoje eu quis muito correr na chuva, chamar                      todo mundo para a minha farra. Não deu. Meu dia foi                      comprido, cheio de saudades e de chuva fina (dentro e fora                      de mim).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-6845585469438584102?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/6845585469438584102/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/banho-de-chuva.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/6845585469438584102'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/6845585469438584102'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/banho-de-chuva.html' title='Banho de Chuva'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S7IqJgCmDBI/AAAAAAAAAZI/bu9ZhjWMYT4/s72-c/Crian%C3%A7a+na+chuva.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-5340170660229385962</id><published>2010-03-16T13:13:00.003-03:00</published><updated>2010-03-16T13:16:44.601-03:00</updated><title type='text'>Estranhos</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-uKJHbOsI/AAAAAAAAAZA/quk0WU7EurQ/s1600-h/humanos.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-uKJHbOsI/AAAAAAAAAZA/quk0WU7EurQ/s320/humanos.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Eu, minhas perspectivas e minhas crenças, de mãos dadas pelas ruas de Tubarão. Com todas as minhas certezas amarradas, achando saber quase tudo do pouco que vivi, esbarrei naquele homem. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;O sol fervente do quase meio-dia não ajudava muito a traduzir qualquer pista sobre pessoas ou coisas. Eu queria mesmo escapar do calor, pagar as contas e apressar o passo, antes do trabalho. Mas ele, ali no meio do caminho, me fez parar e olhar para os lados, diminuindo a marcha agitada da sexta-feira. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Falando apressado _ numa parada de ônibus, apoiado na velha bicicleta _ era ouvido por estranhos, que absorviam sua vida, espantados. Sem paradeiro, ganhava o mundo. Encharcado de suor, maltrapilho, barba por fazer, misturava força e cansaço nas expressões. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Devo ter ficado mesmo impressionada, porque ele me percebeu e se percebeu comigo. Despediu-se dos ouvintes e atravessou a rua, quase ao meu lado. Fingi estar novamente em minha pressa cotidiana e entrei numa loja qualquer. Minutos depois, ele também entrou. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Sem licença, pediu a atenção dos clientes, funcionários, abriu sua maleta e pediu ajuda. Poucos se importaram, cheios de suas vidas, perspectivas e crenças, como eu. Tentei ser um deles, mas não deu. Parei e ouvi. Dei minha parca contribuição e fui abençoada, em retribuição. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Entre os que pareciam não estar ali, alguém lhe jogou a arrogância comum dos humanos na face. Em resposta, ele usou de altivez e desenrolou todo seu novelo. Ficamos ali, acompanhando o duelo dos dois, que não tinha fim. Em seu falatório, disse não se surpreender mais com o mundo. As estradas, as dores, as humilhações e desilusões já haviam lhe ensinado tudo. Desaprendeu a ser gente, disse. Preferia lidar com bichos. "A maldade é o que alimenta esse tempo. Os bons silenciam para não serem tragados", disparou. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Senti covardia e compaixão se apossando de mim. Penso, aqui comigo, o que faz dos homens irmãos? O que faz alguém julgar pela roupa que cobre um corpo, pelo sapato que se usa, pelo suor ou pelo perfume? &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;O que faz um semelhante cuspir veneno no outro pela cor da pele ou pelo dinheiro que se leva no bolso? O que faz de mim alguém melhor do que aquele homem? É triste o desconhecimento humano a respeito da própria raça e dos motivos de estarmos aqui, no mesmo tempo, no mesmo espaço. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Tudo finda, tudo é tão breve, tudo acaba em pó. Voltei para casa lembrando das palavras ásperas que o moço da loja jogou no pedinte e das palavras boas que ele me lançou. Quem na verdade é o miserável dos dois? &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Não sei se mereço as bênçãos que recebi, através dele. No entanto, me sinto bem com o presente. Do moço rude nem lembro o rosto ou os panos que lhe cobriam de arrogância. Mas aquele velho _ que seguiu seu caminho com sua história e sua velha bicicleta _ sei que irá comigo. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-5340170660229385962?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/5340170660229385962/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/estranhos.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/5340170660229385962'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/5340170660229385962'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/estranhos.html' title='Estranhos'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-uKJHbOsI/AAAAAAAAAZA/quk0WU7EurQ/s72-c/humanos.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-563278947724419356</id><published>2010-03-16T13:08:00.001-03:00</published><updated>2010-03-16T13:09:29.783-03:00</updated><title type='text'>O circo</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-s-kE9RHI/AAAAAAAAAY4/K2MCSn_lfCQ/s1600-h/circo.gif" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-s-kE9RHI/AAAAAAAAAY4/K2MCSn_lfCQ/s320/circo.gif" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Tarde calma, com os segundos atravessados em meio aos ponteiros mais poderosos do relógio. Maresia embalando o vento, encrespando os cabelos dos coqueiros, assanhando a areia. Paralelepípedos sobrevivendo ao fogo da terra. E tudo bendizendo a rotina do vilarejo.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Em meio às cores simples do cenário, de repente o alto-falante anunciava a chegada da festa. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Largávamos as tranças das redes, que surgiam das mãos de "Seu" Marinho _ velho pescador, exímio conhecedor dos segredos do mundo. Em dias assim, éramos seus ajudantes, aprendizes de redeiros, entre as muitas descobertas das férias. Mas nada seria mais interessante que aquele anúncio, às quatro da tarde. "Hoje tem espetáculo? Tem, sim senhor!". &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Molecada solta, com chinelos gastos nos pés, arrastando carrinhos de latões, puxados com barbantes. Meninos e meninas de todos os tipos e tamanhos. Loiros, mulatos, cafuzos. Pequeninos, graúdos, barrigudos, bem cuidados. Em São José da Coroa Grande as diferenças eram esquecidas. E, afinal, éramos crianças. Criança vê melhor o que importa nessa vida. Amizade independia de cor, credo, cara limpa, suja ou sapatos engraxados. Valiam mesmo a camaradagem, as criações mirabolantes, a partilha de tudo _ dos piões de madeira à bicicleta ganha no Natal. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O grupo se avolumava a cada esquina. Eu e meus irmãos nos jogávamos no meio da farra. Quem engrossasse o canto do palhaço ganhava balas e balões coloridos. Pois bem, enchíamos a rua de gritos desafinados e os bolsos de guloseimas. Carnaval desfilando no peito. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Atrás do bloco, carros cambaleando, carregados de bailarinas com roupas desbotadas, maquiagem pobre, purpurina fingindo ser ouro em saias de tule amarelado. Cachorros, macacos, leões cansados. Música desencontrada. Tubas, cornetas, tambores... e nós. Finda a exibição no passeio público, voltávamos correndo para casa. Era preciso garantir o ingresso. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Roupa nova, passada sobre a cama, imaginação prestes a escapar, sem destino e sem volta.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;À entrada do espetáculo, pipoca, maçãs carameladas, algodão-doce. Entre os mil furos da lona amarela e azul surgiam estrelas, geradas pelos refletores. Dentro, armações de ferro e madeira separando o palco do público. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Não lembro de algo me extasiar mais do que aquelas noites no circo. Todos os portais da fantasia se abriam à nossa frente. Mergulhávamos sem medo, esquecidos que o mundo lá fora nos esperava, com pressa e cheio de planos para nos fazer adultos. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O encanto foi tão forte que permanece comigo, na caixinha das melhores lembranças. Trago a festa bem guardada, onde o tempo não pode tocar. Sempre que preciso, lanço mão da velha cantoria, me cubro de cores, me jogo no mundo e transformo a vida em espetáculo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-563278947724419356?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/563278947724419356/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/o-circo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/563278947724419356'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/563278947724419356'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/o-circo.html' title='O circo'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-s-kE9RHI/AAAAAAAAAY4/K2MCSn_lfCQ/s72-c/circo.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-452003699220842875</id><published>2010-03-16T13:03:00.001-03:00</published><updated>2010-03-16T13:04:18.172-03:00</updated><title type='text'>O velhinho cor-de-rosa</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-r0L3572I/AAAAAAAAAYw/WuN7dCpjmQg/s1600-h/AutorFotoRender.aspx.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-r0L3572I/AAAAAAAAAYw/WuN7dCpjmQg/s320/AutorFotoRender.aspx.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O mundo parecia bem maior, em meus catorze anos. Maior e mais difícil de vencer. E aqueles dias me faziam virar uma conchinha, em meio à dor da perda do meu melhor irmão, aos vinte anos de idade. Tudo havia virado de cabeça para baixo, como se um tufão fizesse a perfeição virar caos, de uma hora para a outra. Assim, de repente, comecei a duvidar das coisas mais sólidas, nas quais sempre acreditei. &lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Foi num desses dias com cheiro, peso e cor de chumbo, que conheci aquele homem. O colégio - onde ele havia estudado, muitos anos antes de mim - era dirigido por pastores evangélicos, de origem norte-americana. Tudo que uma menina, criada como passarinho solto, não queria, não precisava. &lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Muros altos, arquitetura romana, portões de madeira nobre. Paredes gigantescas, pintadas de cinza. Portas de vermelho vivo, sangue. Eu e o prédio, em cinza e vermelho, guardando crianças perdidas, histórias e um tempo que jamais andaria para trás. Minha rotina era escapar dos bedéis, dos cultos diários, das aulas mornas, e me refugiar no jardim - escondido atrás da marcenaria, nos fundos do colégio. Em casa, procurava fingir normalidade, em nome dos quase-sorrisos que minha mãe tentava nos oferecer, para que continuássemos acreditando nos anjos. Para que ela voltasse a acreditar. &lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Naquele dia, sentei no alto do muro e fiquei esperando o intervalo passar - olhando o Capibaribe correr lento, em meio ao asfalto fervente das dez da manhã. Avisaram: ele chegou. Terno azul marinho, pasta de couro na mão, nuvens no cabelo e pele cor-de-rosa. Sorriso tranqüilo, de quem tem o mundo mais colorido, de quem nunca perdeu a esperança, os sonhos ou o melhor irmão. &lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Pareciam abelhas, meus colegas zanzando em sua volta. Professores virando meninos, jornalistas, todo mundo querendo estar perto. O nome era pomposo e me lembrava a biblioteca de meu pai, onde pela primeira vez li o "Casa Grande e Senzala", escrito por ele _ numa edição amarelada, em papel grosso e palavras antigas soando como novinhas em folha. Gilberto Freyre, o nome, não combinava com aquele senhor de andar lento, corpo frágil e jeito tão feliz. &lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Resolvi também me atrever e chegar perto. Desci de minha ingênua torre adolescente e o esperei no caminho para o auditório. Ao perceber que ele me olhava, enquanto chegava em minha história, sorri _ sem medo de me entregar à alegria. Passou de leve a mão em meus cabelos e seguiu para a palestra, num auditório cheio de jovens, sonhadores como eu. &lt;/span&gt; &lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Depois daquele encontro com o velhinho cor-de-rosa, ouvindo tudo que ele fez, construiu e perdeu, sem temer tempestades, tufões e maremotos, entendi que os anjos de minha mãe existiam. Voltei a acreditar em mim e nas histórias que me contaram. E não deixei mais de escrever.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-452003699220842875?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/452003699220842875/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/o-velhinho-cor-de-rosa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/452003699220842875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/452003699220842875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/o-velhinho-cor-de-rosa.html' title='O velhinho cor-de-rosa'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-r0L3572I/AAAAAAAAAYw/WuN7dCpjmQg/s72-c/AutorFotoRender.aspx.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-2793841031477426641</id><published>2010-03-16T12:59:00.000-03:00</published><updated>2010-03-16T12:59:37.845-03:00</updated><title type='text'>Calor em noite fria</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-q42ahGsI/AAAAAAAAAYo/YyhPR4I7MJg/s1600-h/Desenhos-da-Peque-menina-ao-telefone.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-q42ahGsI/AAAAAAAAAYo/YyhPR4I7MJg/s320/Desenhos-da-Peque-menina-ao-telefone.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;A noite era fria, mas fria mesmo, daquelas de fazer o cristão pensar que os ossos estavam prontos para se despedaçarem. O cansaço, portanto, era dobrado. Acostumada aos quarenta graus a pino sobre a cabeça, a sensação era ainda mais forte para mim. Cheguei em casa, fechei janelas e portas, liguei o chuveiro na temperatura mais quente possível e esperei a casa inteira _ que não era mais que uma caixinha de fósforos _ virar sauna. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;E então, o toque inconfundível do celular me despertou do quase êxtase de me sentir aquecida novamente. Quando já me preparava para desfrutar do jato quente, fui obrigada a largar tudo e correr para o quarto. Até achar o bendito telefone, pensei que sofreria um choque térmico, partiria mesmo ao meio e passaria dessa para melhor. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Pressa e irritação ao atender a chamada. Silêncio do lado de lá e, em seguida, o barulhinho chato de ligação finda. Humor beirando o caos. Nervos à flor da pele. A caminho do chuveiro, toca de novo o telefone. A recepção já não foi a mesma e eu queria realmente que o ser insistente do outro lado percebesse que eu estava para poucos amigos. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Enfim, ouço a respiração ofegante do lado de lá, com a voz infantil, inconfundível, vinda de tão longe. “Titia?”. Coração aos saltos. Entre as minhas declarações de amor, saudade e indagações sobre onde ela estaria, com quem e o que queria, mais uma vez o silêncio e a respiração de quem está mesmo fazendo algo errado. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Insisti nas perguntas. “Estou em casa. Não fui eu que liguei. Apertei no botão verde e você me ligou de volta, tia”. Entendi o porquê da respiração acelerada e sorri. A ligação era clandestina e me trazia a paz considerada impossível minutos antes. Como aquela menininha, com apenas seis anos de vida, tinha tanto poder sobre mim? Como era capaz de me fazer tão bem e domar todas as minhas inquietações assim? &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Tentei falar, com mais calma dessa vez, com toda a doçura do mundo. Busquei as melhores palavras, as mais lindas, as mais fáceis. E quis prolongar aqueles segundos pela vida toda. Ela interrompeu quando eu ainda elaborava a primeira frase: “Eita, mamãe está vindo... Tô acabando com os créditos dela... Vou desligar”. A confissão, feita num quase sussurro, me arrancou a melhor gargalhada e dizimou, num sopapo, todas as atribulações acumuladas durante o dia. Era mesmo uma ligação clandestina, das boas. O barulhinho do telefone dessa vez fez carinho, tomou conta de mim e foi se misturando à batucadinha no peito. Já não sabia se o calor que me tomava naquele instante era do quarto cheio de fumaça ou se a noite havia decidido me mandar a receita certa para recobrar a serenidade e o bem-estar. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: small;"&gt;Entrei no chuveiro com um sorriso colado no rosto. Fui dormir aquecida, com a sensação de que o mundo inteiro ao meu redor havia vencido o frio e descansava em paz. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-2793841031477426641?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/2793841031477426641/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/calor-em-noite-fria.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/2793841031477426641'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/2793841031477426641'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/calor-em-noite-fria.html' title='Calor em noite fria'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-q42ahGsI/AAAAAAAAAYo/YyhPR4I7MJg/s72-c/Desenhos-da-Peque-menina-ao-telefone.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-631929717772291923</id><published>2010-03-16T12:55:00.000-03:00</published><updated>2010-03-16T12:55:19.841-03:00</updated><title type='text'>O gigante dos meus dias</title><content type='html'>&lt;div class="ecxMsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-p05SKUgI/AAAAAAAAAYg/f_cgNWpeS3U/s1600-h/index_avo_neto_ler.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-p05SKUgI/AAAAAAAAAYg/f_cgNWpeS3U/s320/index_avo_neto_ler.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="color: black; font-size: small;"&gt;Ele cheirava a mato e lavanda. Tinha a pele áspera, pintada pelo sol forte. Voz forte de trovão, com a mansidão do vento leve nos fins de tarde. Tudo nele impressionava. Desde o chapéu ao chinelo de couro cru, que nunca ficava gasto. Eu admirava aquele homem, olhava de baixo para cima, como quem encara um gigante. Porém, o que mais me chamava a atenção eram os imensos olhos castanhos _ que falavam alto, gritavam palavras de amor, sem emitir um só gemido. Era grande o meu avô.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="ecxMsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="ecxMsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: small;"&gt;Um dia, sem que ele percebesse, eu invadi sua vida e quase fico por lá, sem achar o caminho de volta. Sem querer achar, sem tentar, sem qualquer motivo que me fizesse puxar o trinco e trocar de cenário.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="ecxMsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="ecxMsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: small;"&gt;Sentei entre a cômoda antiga e a cama de campanha que havia no quarto pequeno _ onde ele ficava durante os verões _ e fui folheando as páginas curtas, amarradas com barbante, que me jogaram na história mais linda que conheci. Caderninhos incontáveis guardados nas gavetas, encapados com papel camurça de todas as cores.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="ecxMsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="ecxMsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: small;"&gt;Tudo anotado ali, com tinta preta. Seus primeiros anos na escola, suas descobertas nas ruas estreitas beirando as pontes, seus “idílios” (eu amei aquela palavra antiga e a incorporei ao meu vocabulário de menina, arrancando gargalhadas dos mais velhos)...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="ecxMsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="ecxMsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: small;"&gt;O casamento com a menina tão mais jovem e com perfil grego em meio à caatinga distante. O nascimento dos filhos, as tarefas e os percalços em seu caminho de pai extremoso e preocupado com as escolhas de cada um. Os dias de chuva no sertão, levando mulheres e meninos às ruas, enlouquecidos com a água vinda do céu. Tudo bem guardado nas páginas que começavam a ser devoradas pelas traças. Traças deveriam ser extintas, pensei. Elas comem as vidas da gente e tudo que ficou delas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="ecxMsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="ecxMsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span style="color: black; font-size: small;"&gt;Um dia ele foi embora. Sem aviso prévio, sem qualquer sinal de que o sopro que lhe empurrava a vida estava chegando ao fim. Guardei comigo sua herança: os cadernos vermelhos de páginas amarelas, o barbante, o cheiro de mato e lavanda e o amor imenso que me banha o corpo através do sangue.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="ecxMsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-631929717772291923?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/631929717772291923/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/o-gigante-dos-meus-dias.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/631929717772291923'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/631929717772291923'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/o-gigante-dos-meus-dias.html' title='O gigante dos meus dias'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-p05SKUgI/AAAAAAAAAYg/f_cgNWpeS3U/s72-c/index_avo_neto_ler.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-1696787821328094113</id><published>2010-03-16T12:51:00.000-03:00</published><updated>2010-03-16T12:51:09.570-03:00</updated><title type='text'>Canto de liberdade</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-o5mMyVNI/AAAAAAAAAYY/w1R5SP_Etpo/s1600-h/menino+de+engenho.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-o5mMyVNI/AAAAAAAAAYY/w1R5SP_Etpo/s320/menino+de+engenho.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;Enquanto a maioria aproveitava o sol e os banhos no riacho, ele andava léguas antes do sol nascer. Saíam, os dois filhos, o pai e um tio, com chinelos gastos, panos protegendo a cabeça, chapéu de abas largas e facões na cintura. Prontos para buscar a sobrevivência, nos cortes grosseiros e firmes nos talos do canavial imenso. &lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;Caminhos estreitos, folhas verdes finas, dançando e apontando pro alto. Quase não dava para ver o céu. Na estrada o caminhão ia recolhendo um a um. Ele se sentia mais bicho que menino. Então, cantava pra dentro, como havia aprendido com a mãe. &lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;Um dia, chegou a arruado onde ele morava uma escola. Ele foi, achando que não ficaria nem um dia sequer ali, parado, sentado numa cadeira tosca, ouvindo alguém lhe falar de coisas que ele jamais veria. A sala era pequena, com poucos lugares e dois velhos candeeiros queimando querosene pendurados nas paredes. A algazarra misturava vozes de meninos e quase homens, querendo descobrir onde aquilo tudo levaria. &lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;Foi então que ela entrou: a professora. Moça mais bonita que já conhecera. Quase criança, se medissem os anos pelo tamanho do corpo. Quase mulher, se contassem os dias pelo olhar de alguém. Com paciência, cuidado e falando de coisas que ele bem conhecia _ riacho, cana caiana, frutas da estação, broa de milho, ela foi mostrando como para cada coisa vivida existiam sinais. Era, talvez, a porta que lhe mostraria a saída para a vida sonhada. Aprendeu a ler, escrever e contar. Aprendeu mais sobre o que existia do lado de fora das cercas. Criou asas. Juntou coragem, moedas e duas mudas de roupas e saiu dali. &lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;Anos depois, com calos nas mãos e na alma velha, voltou à usina. Viu ao longe o canavial em chamas, meninos na mesma função e buscou o riacho. Por tanto tempo viveu ali e jamais pôde aproveitar aquele banho. Ensaiou o primeiro contato, tirou os sapatos e se deixou afundar nas águas geladas. O peito acelerou tanto que a garganta não segurou o que vinha guardando ali dentro. As mãos tentaram jogar o riacho pro céu. O canto de menino, que sempre retumbou dentro dele, saiu aliviado, feliz. &lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;"&gt;Só agora, tanto tempo depois do primeiro dia diante das letras _ que lhe deram rodas aos pés e asas para todos os sonhos _ ele podia ser criança e festejar a vida, com toda a liberdade.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-1696787821328094113?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/1696787821328094113/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/canto-de-liberdade.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1696787821328094113'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1696787821328094113'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2010/03/canto-de-liberdade.html' title='Canto de liberdade'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-o5mMyVNI/AAAAAAAAAYY/w1R5SP_Etpo/s72-c/menino+de+engenho.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-4660683697081682588</id><published>2009-06-27T07:23:00.002-03:00</published><updated>2010-03-16T12:39:57.322-03:00</updated><title type='text'>Michael and Neverland</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-mRqpTXPI/AAAAAAAAAYQ/AwUv613xCXU/s1600-h/Michael-Jackson-Photograph-C1010191.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-mRqpTXPI/AAAAAAAAAYQ/AwUv613xCXU/s320/Michael-Jackson-Photograph-C1010191.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Andávamos apressadas pelas ruas do Centro de Caruaru, eu e minha irmã mais velha, numa tarde de agosto de 1977. As idas ao Centro sempre eram uma farra para mim. Todas aquelas vitrines, o caminhar ligeiro de quem passava, o barulho dos vendedores ambulantes, carrinhos de pipoca, bicicletas. Tudo exigia pressa e nós obedecíamos ao ritmo ditado pela coletividade aflita de tempo, que não tinha mais como ser esticado.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Nada parecia poder deter aquele motor acelerado do dia, nada seria grande o suficiente para impedir a engrenagem, pensávamos. E minha irmã era exímia aprendiz. Cortava carros, ruas, desviava carrinhos-de-mão, postes e mexeriqueiras com arte. Eu ia junto, levada por ela, que apertava tanto minhas mãos a ponto de me fazer pensar que os ossos saltariam, esmagados.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Perninhas de sabiá, finas, pés pequenos compondo xotes, sambas, xaxados, no bater das alpercatas nas calçadas: chelépt, chelépt, chelépt. Naquele dia, eles devem ter impresso um rock no asfalto.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;A tarde, enfim, cedeu à notícia gritada aos quatro ventos pelos alto-falantes da Igreja Matriz: Elvis está morto. Nada, ninguém teria a força de deter a pressa? Engano. Elvis fez a história mudar e girou o mundo ao contrário naquele instante. Todos os ponteiros enlouqueceram, o tempo engatou a ré e puxou o freio de mão. Parecia mágica, pirlimpimpim. Tudo se rendeu à tristeza.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;As mãos da minha irmã finalmente me deram carta de alforria e foram enxugar suas lágrimas. Músicas quentes encheram a cidade. Foi a primeira vez que me dei conta daquela voz, meio rouca, de algodão, cantando “Always on My Mind”. Cada poro se abriu pra deixar entrar aquela ternura, aquele conforto que a voz me trazia.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Conheci Elvis no dia da sua morte e descobri o poder de suas canções e sua voz em meio ao choro de uma cidade inteira, consternada, cortada pela dor. Os carros berraram menos, as buzinas pararam de tocar, as mulheres desistiram das fruticas, os homens cerraram as portas do comércio e o dia acabou antes das seis.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Essa semana voltei àquela tarde, quando o Rei do Rock deixou os palcos para virar lenda. Lembrei cada detalhe do dia em que o mundo começou a duvidar da morte do rei. Alguns ainda duvidam que ele sequer existiu: foi um sonho coletivo e, de repente, acabou. Outros garantem que ele anda disfarçado por aí, observando como conseguimos viver sem ele, desfrutando do anonimato, feliz da vida. Só os grandes têm esse poder, de deixar o corpo e virar lenda.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;O mundo revive o mesmo torpor com a repentina saída de cena do Rei do Pop. Michael Jackson pregou uma peça em seus fãs e fugiu das despedidas. Alguns com certeza teimam em dizer que este foi mais um sonho. Era grande demais, estranho demais, luminoso demais para ser verdade. Agora, é hora de acordar e enfrentar a realidade, sem ele.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;O 25 de junho vai entrar no calendário como o dia em que a Terra pariu mais uma lenda. Talvez Michael tenha se coberto com uma capa mágica, saído pelos fundos, em busca de outros caminhos. Ou, quem sabe, ele era mesmo o menino encantado, que vive entre fadas, duendes e piratas, e agora partiu feliz para a Terra do Nunca _ onde os ponteiros não andam e a juventude é eterna.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-4660683697081682588?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/4660683697081682588/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/06/assim-nascem-as-lendas.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/4660683697081682588'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/4660683697081682588'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/06/assim-nascem-as-lendas.html' title='Michael and Neverland'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-mRqpTXPI/AAAAAAAAAYQ/AwUv613xCXU/s72-c/Michael-Jackson-Photograph-C1010191.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-4511963255288651517</id><published>2009-05-02T22:04:00.001-03:00</published><updated>2010-03-16T12:38:09.072-03:00</updated><title type='text'>Receita perfeita</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-l2vgVXTI/AAAAAAAAAYI/bEnwAHmuNVg/s1600-h/pernas-apaixonadas.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-l2vgVXTI/AAAAAAAAAYI/bEnwAHmuNVg/s320/pernas-apaixonadas.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;E então, de repente, você se vê diante daquele mesmo sorriso que lhe fez tão feliz por breves instantes que duraram uma eternidade. Ou sente novamente o cheiro que tirava o fôlego _ misto de solo molhado pela chuva e frutas da estação. Pressente, de longe e vindo sem pressa, aquele som gostoso de brisa, de água corrente batendo nas pedras, e tudo vira um grande parque de diversões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estômago revira, como se a estrada que se abre bem à sua frente fosse uma enorme montanha russa ou seus pés ganhassem velocidade e lhe empurrassem numa pista de corrida, sem freios e sem medo algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada pode lhe deter, porque você tem a força dos deuses. Nada é mais saboroso do que aquele estalo na face, nada é mais quente do que aquele ardor queimando o rosto. As palmas das mãos viram fontes, de onde jorra um suor frio, regando todas as sementes do mundo. E, assim, um canteiro colorido preenche todos os espaços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O frio na barriga, os tambores no peito, a sensação de paz. É assim que a gente fica quando a paixão chega, sem aviso, sem motivo aparente. Você se vê preso àquela vontade de estar perto do ser humano que resume todas as alegrias, todos os lugares queridos. Uma só pessoa resume tudo que lhe faz bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é por aquele cabelo, de um tom negro inigualável, nem pelo jeito de andar que desconcerta ou pela voz que joga todas as canções preferidas, todas as preces fervorosas, todos os versos dos grandes poetas no ar. Muito menos porque ele faz o melhor brigadeiro de colher ou sabe tocar violão como ninguém. Não é porque naquela noite chuvosa, quando o dinheiro parco no bolso só dá para comprar uma pipoca, ele abre um guaraná e finge que é vinho branco e sorri ao seu lado vendo desenhos animados e transforma isso no melhor programa do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tudo isso junto, é uma panela cheia de coisas boas que lhe é servida à mesa, num prato cheio de felicidade. Estar encantado, enamorado, apaixonado é ficar completamente cego, sem chance alguma de enxergar defeitos ou o resto do planeta em volta. É sentir-se anestesiado, embasbacado, sem direção, embora a vida ganhe todos os sentidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descobri, enquanto passeava por dentro de mim, pensando em todas as escolhas que já fiz para me manter feliz, viva, com a sensação de que achei meu verdadeiro intento nessa vida. É simples, é fácil assim. Descobri isso ontem mesmo: buscamos no outro o que de melhor existe em nós. Não é de um estranho que ganhamos o maior presente. É das melhores lembranças da vida que se faz um grande amor.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-4511963255288651517?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/4511963255288651517/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/05/receita-perfeita.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/4511963255288651517'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/4511963255288651517'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/05/receita-perfeita.html' title='Receita perfeita'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-l2vgVXTI/AAAAAAAAAYI/bEnwAHmuNVg/s72-c/pernas-apaixonadas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-6751820471310592008</id><published>2009-04-07T05:03:00.004-03:00</published><updated>2010-03-16T12:32:25.786-03:00</updated><title type='text'>Louro da Sanfona</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-kchPKwPI/AAAAAAAAAXw/Y_RP9iC_ZdA/s1600-h/SANFONA+ALTERADA.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-kchPKwPI/AAAAAAAAAXw/Y_RP9iC_ZdA/s320/SANFONA+ALTERADA.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/SdsNb1UOCaI/AAAAAAAAAVA/rYxzR0AZxNk/s1600-h/sertao.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Ele tinha sete anos e nunca tinha visto a chuva. Uma vez só, ele quase encontrou com ela, quase chegou a vê-la, mas caiu doente, justo no dia que ela veio e não pode sair da cama. Diziam que foi a coisa mais linda de se ver. Ele só ouviu o barulho dos latões e a algazarra dos amigos, dos velhos, moços e o chororô das mulheres, agradecendo aos santos por toda a lama que invadia a cidade e lambuzava a cara de todo mundo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Chalapt, chalapt, chalapt. As alpargatas zunindo no meio do mundo... E ele doido pra levantar daquela cama de palha, sair do quarto escuro e se fartar de chuva. Não foi. Ele sempre não ia, não sabia, não conhecia, ficava para trás.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Por isso, tomou força, cresceu bem muito aquele intento: ele faria chover, faria sim. Mas como fazer? Um dia ele ouviu Zé da Gaita dizer que a música chamava coisa boa, trazia fartura das boas. Quem canta os males espanta, dizia a mãe. Pois aprenderia a tocar um instrumento. E foi atrás de Xerém, porque ele era sanfoneiro conhecido, tocava em tudo que era festa, e sabendo o motivo pelo qual ele precisava aprender, não se negaria a ensinar. Afinal, quem não queria ver a chuva descendo à terra?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;O homem abriu aquele sorriso amarelo _ porque sim, tudo era amarelo naquela pessoa: dentes, mãos, unhas, olhos e cabelo. “Tocador? Você quer ser tocador, menino?”. O homem ainda zombava dele? Depois de muito balançar a pança redonda, bater os pés com força no chão, jogar o chapéu sobre o balcão e olhar bem firme para ele, Xerém tossiu de leve, cuspiu fora o fumo e aceitou a tarefa. “Pois se você fizer chover mesmo, nem precisa me pagar nada”. Trato feito.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;A sanfona pesava, machucava as pernas finas, calejava, doía. Mas era preciso suportar. O nhém, nhém, nhém desafinado aos poucos foi tomando corpo e ele olhando pro céu. Nenhuma nuvem aparecia, mesmo com os primeiros acordes, depois de duas semanas de aulas _ quando Xerém achava tempo e vontade pra ensinar ou quando não estava bêbado demais para isso.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Numa noite quente, enquanto tentava tirar algumas notas da sanfona velha, pensou: não adianta, vou morrer e não vejo a chuva. Foi sentar embaixo do umbuzeiro no quintal. Desistiu de ser homem, de trancar aquela mágoa da terra seca que lhe impedia de ser feliz, e chorou. Chorou mesmo, de soluçar, feito menino chora. Deixou que toda a raiva saísse pela garganta, que todos os sonhos escapassem nas lágrimas e fossem embora de uma vez, para nunca mais voltar. Porque não adianta sonhar quando a única certeza que se tem é que nada acontece para quem tem sete anos, se mete a besta e quer desafiar Deus nessa vida. A chuva não era para aquela gente. Ali, naquele fim de mundo só tinha era desgraça mesmo, pensou.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;O choro cresceu, o lamento foi ficando fino, feito som de sanfona velha. A música mais triste que ele já havia tocado saía de seu peito pequeno, apertado feito fole gasto. Os primeiros pingos tocaram o chão. Ele não se deu conta, porque era tanta lágrima que nem ligava mais. Mais um, mais outro e mais uns vinte pingos fortes. De repente, ele parou de chorar. Viu as portas dos vizinhos se abrirem. Amuados, sem jeito, como se sentissem vergonha dos seus desejos, eles ganharam a calçada.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;A chuva! A chuva veio! Gritaram os amigos, lhe chamando para a festa. Era a sua vez, era chegada a hora. Sem medo algum de estar sonhando _ e se fosse sonho, ele morreria dentro dele _ Lourival tirou a roupa, correu pro centro do terreiro vermelho e se deixou tocar por Deus, ali, no meio da lama quente.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Nasciam ali, naquele instante, as melhores canções que o sertão conheceu. Morria ali o menino e surgia Louro da Sanfona, o maior tocador que existiu no Pajeú.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-6751820471310592008?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/6751820471310592008/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/04/louro-da-sanfona.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/6751820471310592008'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/6751820471310592008'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/04/louro-da-sanfona.html' title='Louro da Sanfona'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-kchPKwPI/AAAAAAAAAXw/Y_RP9iC_ZdA/s72-c/SANFONA+ALTERADA.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-1546264282585738551</id><published>2009-04-03T02:18:00.005-03:00</published><updated>2010-03-16T12:30:32.908-03:00</updated><title type='text'>A parte do morto</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-kBXHDY8I/AAAAAAAAAXo/lsT5JOkNhV8/s1600-h/des_camal_bebado.gif" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-kBXHDY8I/AAAAAAAAAXo/lsT5JOkNhV8/s320/des_camal_bebado.gif" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/SdWftCcpc2I/AAAAAAAAAU4/SMz7NiBI8s4/s1600-h/bebo.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Ele não era igual aos outros. Tinha fama. Sabia que os colegas o respeitavam pelos feitos extraordinários e por isso queria mais. Seguidores? Alguns. Toda a confraria: vinte e poucos bêbados enchendo o lugarejo com festas e lendas. Maior orgulho de Vanderlei: trânsito livre entre as mesas das autoridades. Do boteco da Nadir ao famoso Castelinho - melhor bar do Abreu do Una - não havia quem lhe negasse um copo. Sabia usar a majestade com maestria. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;"Vanderlei morreu", grito na madrugada. Foi um Deus nos acuda. Nunca se viu tantas velas acesas, tantos lençóis nas varandas, tantas casas silenciosas. Bares arriaram as portas. Caminhões de bebuns dos engenhos vizinhos lotaram a praça. A molecada nova se acabou de tomar cachaça e oferecer ao morto. Travanca, Satú, Ferreiro e Marvina - companheiros de copo - costuravam vielas, sem rumo. Choro e pinga, encharcando golas e punhos amarelados. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Era simples a rua onde morava o rei. A vizinhança tinha lá os arranca-rabos de praxe nos vilarejos do interior, mas isso era coisa de família. E eles eram assim, quase parentes. Dividiam o quarteirão: autoridades, pescadores, pedreiros, lavadeiras. Gente graúda e gente simples. Povo bom de partilhar a calçada e os dias. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Vanderlei, apesar de viver nos balcões, contando histórias, arrancando risos dos frequentadores, dava duro para garantir sua pinga. Isso lhe garantiu certo respeito. E virou personagem diário dos contos nos fins de tarde. Levava marmita para os vizinhos, carregava feixes de lenha, limpava quintais, vendia frutas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Entre os delírios e a razão, encontrou Lica. Morena, baixa, tosca. Corpo levado pelo vento. Braba feito siri na lata. Batia nos filhos e no homem com carrasqueiras, tiradas dos coqueiros e guardadas na soleira, deixando todos de sobreaviso. Catava piolhos, fazia comida, lavava roupas, limpava o terreiro, avançava com unhas e dentes em quem tentasse violar seu reinado.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Com ela, seis filhos. Dizem que Vanderlei descendia de europeus puro-sangue. Olhos azuis, pele clara, nariz pontudo, alto, cabelo bom. Porte de rei. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Sua pompa, temperada com a morenice da mulher, deram aos filhos beleza exaltada no lugar.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;No dia de sua morte, a algazarra ganhou a rua, depois do susto e do silêncio. Baldes, caldeirões e latas choravam nas mãos dos bebuns. Música desencontrada, suor e cachaça na procissão do enterro - que demorou duas horas até chegar ao cemitério. Flores murchas jogadas no caixão roxo, pronto para se despedaçar. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Calor e sede agoniavam os bêbados, loucos para pôr fim à demora. Até que Zé Alcides, coveiro, encarnou um zombeteiro e cobrou todas as garrafas. O homem estrebuchava, se esticava, soltava palavras estranhas. Afasta, afasta! Toda a cachaça deveria ser jogada aos pés da tumba. Multidão dispersa, bêbados tristes, cidade quieta. O coveiro recolheu seu estoque. Contam que, na mesma noite, Vanderlei deu seu último passeio pela terra e entregou cetro e coroa. O Abreu já tinha um novo rei.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-1546264282585738551?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/1546264282585738551/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/04/parte-do-morto.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1546264282585738551'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1546264282585738551'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/04/parte-do-morto.html' title='A parte do morto'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-kBXHDY8I/AAAAAAAAAXo/lsT5JOkNhV8/s72-c/des_camal_bebado.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-8130972858590697345</id><published>2009-04-03T02:04:00.006-03:00</published><updated>2010-03-16T12:28:59.667-03:00</updated><title type='text'>O apito do trem</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/SdWZiphptGI/AAAAAAAAAUw/QmewhwKMFRc/s1600-h/trem.jpg"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5320327355349709922" src="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/SdWZiphptGI/AAAAAAAAAUw/QmewhwKMFRc/s320/trem.jpg" style="float: left; height: 240px; margin: 0px 10px 10px 0px; width: 320px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Desde criança eu quis experimentar. Era sonho fácil, daqueles que a gente desenha, cena por cena, como será na hora em que se fizer real. Mas a vida correu e fui deixando para depois, já imaginando que teria que deixá-lo. O que me incomodava era a certeza de que eu gostaria. Eu já gostava, para ser franca. Sabe aquelas frutas que você nunca comeu e sabe que têm sabor inconfundível? Aquele lugar que você nunca foi e mesmo assim chega a se emocionar só em pensar nele? Assim era minha relação com os trens.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Até que, numa tarde comum de trabalho, fui informada de que faria uma matéria sobre um breve passeio _ entre Imbituba e Tubarão.&lt;br /&gt;Euforia contida, acordei cedo e peguei a carona que me levaria até a estação. Esperei o grupo que estaria comigo na viagem, contando os segundos, ansiosa. Embarcamos no início de uma tarde iluminada, com um sol escancarado fazendo festa, abrindo os caminhos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Olhei a locomotiva, ensaiei passos trôpegos sobre os trilhos, fiz reverência silenciosa. Tentei ouvir o coração da velha máquina. Ela parecia me olhar, desafiadora. Sentia sua respiração, seus olhos fixos na linha reta que teria que vencer. Portas abertas, toquei de leve o vagão e subi. Embarque feito, encantamento de criança.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Fechando os olhos eu seria capaz de rever todas as pessoas que já estiveram ali. Todas as idas e vindas, felizes, desesperadas, tristes, solitárias. Quantas expectativas encheram aquele corpo de madeira, impecavelmente arrumado para receber seus ilustres convidados. Dia após dia.&lt;br /&gt;Lembrei o velho poeta Ascenso Ferreira e seu “vou danado pra Catende com vontade de chegar...”. Sentei e abri as janelas. O peito deu um salto. Avisando que partiria, num choro doído, ela mostrou valentia e soltou fumaça pelas ventas. “Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar...”&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;E lá fomos nós, entre o mar e pequenos montes, estradas largas e estreitas, encantados com o respeito que ela impõem por onde passa. Já fui menina de correr atrás dos trens que cortavam minha terra. Muitas vezes me adiantei e esperei ele chegar em alguma curva, para acenar sozinha, sem que me vissem, esperando um dia ir com ele. Cachorros assustados, meninos em busca de doces, mulheres largando as roupas nos varais, homens no roçado. Todos pararam o que faziam para simples acenar e sorrir, num ritual fraterno. Presente saudando o passado.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;A estrada de ferro aproxima, enfeitiça. Só há aquele caminho. Não há ultrapassagem, não há retorno. Fogo no peito, olhar fixo no horizonte e vontade, muita vontade de chegar. O trem é vivo, parece bicho do mato, tem alma de criança. “Cada maquinista tem seu jeito de puxar o apito. Depende do estado de espírito de cada um, do recado que queira dar”, me diz meu companheiro de viagem.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Na tarde, que terminou num desembarcar na estação de Tubarão, meu grito ganhou o canto do trem, rasgou os caminhos com um apito longo e avisou ao mundo inteiro que meu sonho foi o maquinista daquele passeio. Deixei a criança que ainda insiste em me conduzir, encontrar o seu tempo, o seu espaço. Fui feliz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;*Foto minha feita no dia do passeio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-8130972858590697345?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/8130972858590697345/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/04/o-apito-do-trem.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/8130972858590697345'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/8130972858590697345'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/04/o-apito-do-trem.html' title='O apito do trem'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/SdWZiphptGI/AAAAAAAAAUw/QmewhwKMFRc/s72-c/trem.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-8871085195969068648</id><published>2009-03-26T12:44:00.004-03:00</published><updated>2010-03-16T12:28:45.181-03:00</updated><title type='text'>Banzo</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-jpn0ifhI/AAAAAAAAAXg/epSDD1kIJBg/s1600-h/benza.JPG" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-jpn0ifhI/AAAAAAAAAXg/epSDD1kIJBg/s320/benza.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/Scukn44w_xI/AAAAAAAAAUo/owUqAMgvNAg/s1600-h/pinh%C3%83%C2%A3o+roxo.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Menino quieto só pode estar doente ou aprontou alguma travessura. Essa era a regra dos adultos nos anos de minha infância. E era bem difícil lidar com essa lei torta, pensávamos nós. Afinal, o que mais valia a pena: ser arteiro ou obedecer todas as ordens dos mais velhos? Sim, porque aqueles que saíam da linha eram sempre pegos, de uma forma ou de outra, recebendo algum castigo. E os que mostravam o banzo do vento Nordeste, fatalmente eram levados à casa do pinhão roxo. Era lá que morava seu Biu, o benzedeiro.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Ali moravam todos os mistérios e temores do mundo. Pequena, mal aprumada no pau-a-pique, com palhas sobre as ripas frágeis, teto quase tocando o chão. Na soleira, troncos de coqueiros descascados, cobrindo o barro vermelho do piso tosco. Embaixo do barro do chão deveriam se esconder todos os segredos da cidade, colhidos pelas rezas fortes.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Gatos, dois cachorros magros e muitas galinhas no terreiro, cercado pela plantação do pinhão roxo, usado para arrancar os males de qualquer cristão.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;O banzo, sem querer me encontrou um dia. Não comia, perdi o viço, os ossos saltavam à pele, diziam as comadres de minha mãe. Dona Iracema, preta velha - que me fazia todas as vontades e me dava torrões de café com açúcar nos fins de tarde – pediu e foi atendida. Seu Biu era o remédio.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Busquei o topo da goiabeira. Meus irmãos me encontraram e me entregaram de bandeja. As batidas em meu peito explodiam nos ouvidos, na testa, na palma da mão, nos pés. O banzo só piora, o banzo só piora, leva logo minha comadre. Ouvi a romaria por todo o caminho.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Entrei quase arrastada, mais de medo que de doença. Fechei os olhos e senti o bafo quente do fumo de rolo invadindo meu rosto. Tossi e abri os olhos. Um enorme chapéu tomava todo o espaço do casebre. Dele surgia o rosto caboclo, perfurado, com poros enormes, talhos profundos esculpidos pelas rugas. Aquela mão crespa, descomunal, de unhas marrons, tocou rapidamente meu rosto. “Não tenha medo, menina-nova”. O que veio depois parecia ser dito em língua de outro mundo. O pouco que entendi, enquanto o pinhão roxo lambia meu corpo, jamais esqueci.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;“Todo o mal, seja macumbeiro e seja feiticeiro, saia do teu corpo pelas mãos de Deus. Todo o mal, seja macumbeiro e seja feiticeiro, saia do teu corpo pelas mãos de Deus”. Em seguida, vinha o refrão afinado das comadres de minha mãe: “Amém, Amém”.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Aquilo deve ter durado menos de meia hora, mas para mim foi a eternidade. O pinhão, depois de balançado, batido, maltratado, murchara. “Olhado forte na menina quebrou todo o pinhão. Mas a coisa ruim foi embora. Banho de lavanda e mingau de milho”.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;De vez em quando o banzo do mundo tenta me pegar. Espanto o quebranto com as lembranças, com os amigos e mingau de milho. E, sempre que posso, tento trazer de volta a pureza de minha gente simples, que desconhecia completamente os verdadeiros males do mundo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-8871085195969068648?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/8871085195969068648/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/banzo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/8871085195969068648'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/8871085195969068648'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/banzo.html' title='Banzo'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-jpn0ifhI/AAAAAAAAAXg/epSDD1kIJBg/s72-c/benza.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-3047368721354528111</id><published>2009-03-23T13:21:00.004-03:00</published><updated>2010-03-16T11:43:21.581-03:00</updated><title type='text'>Meia-noite</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-YyynW_0I/AAAAAAAAAVY/Olh1cjiR0rY/s1600-h/cabra01.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-YyynW_0I/AAAAAAAAAVY/Olh1cjiR0rY/s320/cabra01.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/Sce5pEaQuXI/AAAAAAAAAUg/bvPzxY6nhYc/s1600-h/cabra01.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Dizem que as crianças são puras, ingênuas. Penso que sabem tudo e escondem o jogo, para que possam desfrutar em paz dos melhores anos de suas vidas. Dizem também que os cachorros são companheiros, leais. Os gatos ariscos e os cavalos misteriosos. Mas nada dizem das cabras. Sim, sim, as cabras. Com uma delas aprendi que os bichos nos mantêm cativos, e não o contrário.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Morando numa cidadezinha do interior pernambucano - onde o apito da usina de açúcar mantinha a vida dos moradores sob controle e os banhos de rio eram o melhor programa do fim de semana - meus companheiros de brincadeiras eram os filhos dos marceneiros, pedreiros e aboiadores. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Nossa rotina era escola, campinho tomado de lama perto da linha do trem, bolas de gude, piões, pipas e circos improvisados no quintal de casa. Meninos e meninas desempenhavam o mesmo papel: o de exercer a liberdade plena.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Um dia, porém, a cabra do vizinho deu cria. Rebuliço geral. Larguei as sandálias de borracha, esqueci tudo e corri para ver. De dentro da bolsa rosada, vimos a cabeça abrir caminho. O dono dos bodes e cabras, que dividiam a rua conosco durante o dia, ajudou o filhote. Fêmea, preta, com uma mancha branca em forma de nuvem na testa. Pernas tortas e frágeis. Tratou de ficar de pé. Quis, no mesmo minuto, ela para mim.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;“Por favor, eu como tudo, durmo cedo, vou para a escola sem chorar e nunca mais brigo na rua”, prometi em casa. A ladainha durou dias. Meus apelos foram ouvidos. Voltei da escola e passei na garagem de tábuas úmidas onde ela morava. Não estava mais lá. “Foi vendida”.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Entrei na cozinha com a gola do uniforme encharcada. Culparia meus pais até o fim dos meus dias pela maldade de me afastar dela. Meu lamento não durou cinco minutos. Um berro estridente e fino chamou minha atenção e me levou ao quintal. Lá estava ela. Amarrada, com sino de latão no pescoço, tentando se livrar da corda entre saltos e balançar de cabeça, agitada.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Meia-noite, batizei. Chamava e ela atendia correndo. Levei para o campinho e surpreendeu nas roubadas de bola, enlouquecendo os meninos – que tentavam ensinar o truque aos seus tolos cachorros. Esperava minha chegada das aulas feito cão de guarda. Ao primeiro sinal de meus passos na esquina, apoiava as patas no muro e berrava. Foi assim por quase três anos.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Num sábado, igual a todos os sábados, fizeram almoço de despedida da cidade em nossa casa. Pai transferido para a capital. Vida nova. Festa. Vizinhos, colegas da repartição, parentada.&lt;br /&gt;Estranhei o silêncio no quintal. Corda jogada num canto. Baque no peito. “Ela fugiu”, me disseram. “E não teremos como procurar. Mudamos amanhã”. Chorei a viagem inteira. Pensava que ela voltaria e encontraria tudo vazio, sem ninguém. Sofri por mim e por ela.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Anos mais tarde, numa conversa informal de domingo - enquanto saboreávamos o bode na brasa em casa – me contaram a verdade. “Você comeu a Meia-noite no almoço de despedida. Não havia como trazer”.&lt;br /&gt;Meus vinte e poucos anos não adiantaram de nada. Fechei os olhos, corri para aquele quintal, naquela casa de cidade pequena, soltei a corda e deixei que fugisse. “Desculpe, minha filha, não havia como trazer”, repetiram. “Ela veio, ela veio”, disse em meio a um sorriso desbotado. Perdoamos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-3047368721354528111?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/3047368721354528111/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/meia-noite.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/3047368721354528111'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/3047368721354528111'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/meia-noite.html' title='Meia-noite'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-YyynW_0I/AAAAAAAAAVY/Olh1cjiR0rY/s72-c/cabra01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-5362311394016958835</id><published>2009-03-23T13:10:00.005-03:00</published><updated>2010-03-16T11:45:53.001-03:00</updated><title type='text'>Manga com leite</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: left;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-ZlBKfxgI/AAAAAAAAAVg/K6j1mGH4yJU/s1600-h/manga+com+leite.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-ZlBKfxgI/AAAAAAAAAVg/K6j1mGH4yJU/s320/manga+com+leite.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/Sce2Ab0DlrI/AAAAAAAAAUY/q1wX9V-OXxo/s1600-h/manga.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Misturar manga com leite pode fazer mal. Assim como tomar banho depois do almoço, lavar cabelo em noite de lua cheia, vestir a roupa pelo lado avesso. Crendices que regem a vida e vão nos ensinando, sob o carinho das mães e avós, a ter limites. Demorei a tomar manga com leite e ainda hoje vou guiando meus passos segundo o que me ensinaram em casa. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Por via das dúvidas, por exemplo, não corto encruzilhadas, não passo embaixo de escadas, não vou nadar depois do almoço. Se uma coruja pia perto de casa, bato na madeira, peço proteção aos céus. Se alguém engasga, apelo para São Braz, levanto os braços e acredito ter salvado a vida do cristão afogado. Tem coisas que são assim, não saem de nós e vão moldando nosso caráter, desenhando nosso destino. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Entre as coisas que ficaram em mim, grudadas entre a pele e a alma, está o meu modo de olhar o ser humano. E, falando muito sério, não consigo achar que um carro do ano possa valer mais do que um bom amigo. Não consigo entender como há quem meça o valor de gente como quem põe preço num saco de farinha. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Dia desses, lá em casa, me falaram que preciso ter mais ambição nessa vida. Que o mundo não gosta de quem gosta do mundo. Eu não sei não. Prefiro mesmo apostar no que me ensinaram. Eu gosto de gostar das pessoas. Claro que não é qualquer um que atravessa minha intimidade. Dou preferência a quem me encara e me enxerga. Compro briga por quem tem os pés no chão e conhece a textura da areia fina. Argumentando com a pessoa que tentava me dar mais rumo na vida, contei a história de Maria e seus sapatos finos. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Ela colecionava mais de oitenta pares. Botas, sandálias, tênis, altos, baixos, pretos, brancos, coloridos... Tinha um orgulho, a moça, de seus sapatinhos... Um dia, olhou meus pés e queixou-se do meu velho tênis esfolado. Mas ele está em meus pés, criatura! O que te incomoda? "Não parece com você e não vai lhe levar a lugar algum", argumentou. Não tentei lhe dizer o que pensei, naquele momento. Palavras ao vento, apenas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Voltei para casa tentando entender como alguém poderia viver assim: num relacionamento apaixonado com oitenta pares de sapatos. Eu, com meu tênis surrado, andei em mil estradas, fiz mil amigos e estiquei minha história. Ela não pisou solo algum além dos limites de seu quarto. Desde aquele dia, não a procurei mais. Não daria certo levar adiante aquele convívio. Somos feitas de massas distintas, moldadas por oleiros bem desiguais. Dei razão à minha mãe, minhas tias e minha avó. Não se deve misturar manga com leite. A mistura pode ser bem ácida e pode fazer mal.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-5362311394016958835?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/5362311394016958835/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/manga-com-leite.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/5362311394016958835'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/5362311394016958835'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/manga-com-leite.html' title='Manga com leite'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-ZlBKfxgI/AAAAAAAAAVg/K6j1mGH4yJU/s72-c/manga+com+leite.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-484443040869094092</id><published>2009-03-21T14:40:00.004-03:00</published><updated>2010-03-16T12:25:00.035-03:00</updated><title type='text'>A descoberta do mundo</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-iwxs-ELI/AAAAAAAAAXY/uOa-tmQjj5A/s1600-h/bicicleta.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-iwxs-ELI/AAAAAAAAAXY/uOa-tmQjj5A/s320/bicicleta.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Eu só queria andar de bicicleta. Esse foi o argumento repetido dezenas de vezes enquanto os adultos me sabatinavam, pediam explicações e me acusavam de quase matar minha mãe do coração. “Menina sem juízo. Quer matar todo mundo de susto?”. Mas eu só queria andar de bicicleta... &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Coração desbravador, desde menina, me levava a deixar os adultos completamente desorientados. Meu desejo era ganhar as ruas, dobrar esquinas, ver quem estava do lado de lá. E eu sempre dava um jeito de escapar, de fazer a mochilinha e me jogar. Mesmo quando dentro dela iam bonecas, panelinhas, gibis e bolachas. Aquela foi a primeira fuga. Esperei que todos fossem se ocupar de suas coisas e aprontei minha lancheira. Ouvi as recomendações de minha mãe à minha prima Tereza, que me cuidaria por algumas horas, e fiz meu papel de anjinho. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Prometi obediência e me plantei em frente à televisão. Bastaram alguns instantes de distração e driblei Tereza. Corri ao portão, sentei na calçada e esperei. Todos os dias o padeiro passava de bicicleta, entregando as encomendas da vizinhança. O cesto enorme me chamava. Eu queria ir com ele, entregar pão, ganhar sorrisos e conhecer toda a cidade. Ouvi a sineta da bicicleta ao longe e me preparei. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Conferi se ainda não haviam dado por minha falta e acenei. Ele parou. “Sua mãe não pediu pão hoje”. Nem esperei mais nada. “Me leva com você pra passear? Eu pedi e já deixaram”. Quem poderia prever que aquele anjinho de candura estaria faltando com a verdade? Também não havia como imaginar que o padeiro fosse levar uma criança que pede carona na calçada, agarrada a uma lancheira. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Encontro de impossibilidades com a sorte e em segundos eu já estava entre sacos de pão, dentro do cesto de entrega. Foi a viagem dos sonhos. Vendo minha satisfação, ele aumentava as pedaladas e sorria. Fiquei responsável pela entrega. Parávamos, eu teria que dar boa tarde, deixar o embrulho e desejar boa refeição à família. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Criança aprende rápido. Assim, fui a mais eficiente das ajudantes de padeiro das redondezas. E a mais feliz também. No fim da tarde o frio do sertão chega a doer. Serração caindo, hora de ir para casa. “Me deixa na esquina”, pedi. Desci e assim que ganhei nossa calçada percebi o tamanho da encrenca que me esperava. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Carro de polícia, ambulância e praticamente a cidade inteira no portão de minha casa. “Olha ela alí!”. Eu realmente estava em apuros. Pensei em correr, voltar pro cesto do pão, ganhar o mundo e nunca mais voltar. Foi quando vi Tereza, aos prantos, vindo ao meu encontro. Não fui castigada como pensei. Só ganhei abraço apertado e ouvi preces de agradecimento a todos os santos e anjos. Burburinho dos vizinhos crescia a cada tentativa de explicação minha. Pai e irmãos tentando acalmar minha mãe, que ainda não acreditava que eu estava em casa e sem um arranhão. “Eu só queria andar de bicicleta”, repeti. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Queriam mandar prender o padeiro, saber por onde ele havia me levado, fizeram mal juízo do moço, foi um Deus-nos-acuda. Chorei, roguei, contei da maravilhosa aventura dentro do cesto do pão, assumi a culpa. Mesmo assim, o rapaz foi interrogado. No fim, tudo foi esclarecido e no dia seguinte não vi mais a bicicleta passar. Nem no outro, nem qualquer outro dia. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Deixamos a serra alguns anos depois e nunca mais voltei por lá. Queria dobrar novamente aquelas ruas, passar pelo portão, pela calçada que viu minha estréia na descoberta do mundo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Sou uma apaixonada por gente, por esquinas, por estradas. Adoro vencer as impossibilidades e me lançar à sorte que a vida oferece. Foi assim que ganhei os melhores amigos que alguém pode ter. Assim pude desfrutar de lugares, saborear sotaques e pratos fartos. Aprendi, dentro de um cesto de pão, a bater à porta, deixar algo de bom com quem me recebe e desejar bonança aos que me dão sorrisos.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-484443040869094092?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/484443040869094092/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/descoberta-do-mundo.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/484443040869094092'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/484443040869094092'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/descoberta-do-mundo.html' title='A descoberta do mundo'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-iwxs-ELI/AAAAAAAAAXY/uOa-tmQjj5A/s72-c/bicicleta.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-7147205128168052089</id><published>2009-03-21T14:33:00.004-03:00</published><updated>2010-03-16T12:22:25.051-03:00</updated><title type='text'>Entre a terra e as estrelas</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-iGsl5ygI/AAAAAAAAAXQ/5K8S0ukrRgc/s1600-h/estrexuyxu.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-iGsl5ygI/AAAAAAAAAXQ/5K8S0ukrRgc/s320/estrexuyxu.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/ScUuaXUs7hI/AAAAAAAAASY/xxLL25htzGM/s1600-h/estrela.jpg"&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-family: arial;"&gt;Naquele ano nós decidimos não fazer grande ceia no Natal. Por motivos nossos, meus pais nos consultaram sobre o que pensávamos e concordamos com eles. Nostalgia imperando em casa, comemos cedo, vimos a programação da televisão e nos rendemos aos pijamas antes das dez badaladas noturnas.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Sabia que a praça estaria cheia àquela hora, para a celebração da Missa do Galo. E o grupo de sempre estaria desfilando as roupas novas, festejando os presentes e as férias de verão. Eu sabia e queria também estar lá, mas como nos anos anteriores, feliz. Não fui. E deitei para dormir depressa.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Entre o primeiro e o segundo sono, pedrinhas na janela incomodaram. Tentei ignorar. Mais e mais pedrinhas. Chuva de pedras.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Quase ganho cicatriz na testa. O coro desafinado mais lindo que já vi, entoando um Noite Feliz partido em risadas. Eram eles. Todos juntos, vestidos de festa, vindo me buscar.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Aquele foi um dos mais felizes entre tantos natais. Vesti rápido a roupa nova, pedi a bênção e ganhei a rua com eles. Onde passávamos, cantávamos juntos. E a fonte que fazia jorrar sorrisos era inesgotável. Nunca vi tanto assunto, tanta fome de alegria, tanta gana de ser e fazer feliz.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Éramos 15 aprendizes do destino, ligados pela amizade que unia nossos pais e pela força que nos juntava, em qualquer circunstância da vida.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Naquela noite, fomos à missa, lotamos a pizzaria, visitamos conhecidos e decidimos terminar nossa festa na praia. Jogamos futebol e caímos no mar, encharcando as roupas novas com água salgada, para o desespero de nossas mães.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Para mim, mesmo depois de 20 anos, nada abalaria aqueles meninos e meninas _ que supunha viverem guardados num espaço alternativo, mantendo intactos os sorrisos, a ingenuidade e a vida plena, sem máculas, sem riscos, sem fim.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Seríamos eternos, naquelas ruas de paralelepípedos. Não deixaríamos de passar embaixo dos castanheiros, com pressa e medo de assombração. Teríamos todos os caminhos abertos ao nosso desejo de ganhar o mundo. Nossas casas conservariam o tom da tinta fresca, renovada a cada fim de ano. Nossas portas ficariam sempre abertas, esperando os amigos. Nossos pais sempre estariam deitados, à nossa espera, nos fins de noite. Aniversários, natais, carnavais, páscoas, bailes, festas de ruas, batizados. Tudo seria eterno, naquele arruado de interior.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Lembrei desse Natal, em pleno mês de março, porque essa semana recebi a notícia de que nosso grupo começou a se partir. A ciranda perfeita perdeu um par de mãos e metade da alegria com a despedida de alguém.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Fomos pegos de surpresa e tomamos ciência: não somos imortais. Alguém vai embora aos 39 do primeiro tempo, sim. Alguém que incendiava os dias com energia intensa. Que nos puxava e nos levantava do chão, se ensaiássemos um tombo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Podem dizer que ela foi embora, que não volta mais, que não terei mais pedrinhas na janela nem gargalhada brincando na rua. Eu sei que terei. Porque tenho certeza de que aqueles meninos e meninas hão de viver para sempre, nos anos guardados pelos anjos, nalgum lugar entre a terra e as estrelas.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-7147205128168052089?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/7147205128168052089/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/entre-terra-e-as-estrelas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/7147205128168052089'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/7147205128168052089'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/entre-terra-e-as-estrelas.html' title='Entre a terra e as estrelas'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-iGsl5ygI/AAAAAAAAAXQ/5K8S0ukrRgc/s72-c/estrexuyxu.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-1898776089343479725</id><published>2009-03-21T14:30:00.005-03:00</published><updated>2010-03-16T12:18:37.784-03:00</updated><title type='text'>A dona da história</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-hR8UHoKI/AAAAAAAAAXI/SqLQOcKuySA/s1600-h/preta-velha.png" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-hR8UHoKI/AAAAAAAAAXI/SqLQOcKuySA/s320/preta-velha.png" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Éramos mais que vizinhos, naquela rua larga onde morávamos três meses por ano, durante as férias de verão. Havia algo que nos ligava, não só por afeto ou camaradagem. A paixão pelo lugar, a cumplicidade em correr de madrugada à praia para ouvir o batuque do candomblé e saudar Iemanjá nas noites de lua, os acordos para ver o nascer do sol - sem "ter nem pra quê" - as buscas por lenha no coqueiral, em tardes mornas. Talvez fossem as caças às tanajuras nos dias de sol com trovoada, os banhos de mar ao entardecer, os almoços coletivos nos quintais, cozidos em fogões a lenha. Podiam ser também as cantorias das comadres, cada uma em seu quintal, soprando o calor e as dores. Há quem diga que eram os abraços apertados e sem jeito nos aniversários, nas viradas de ano, nos nascimentos dos filhos, nas avistagens dos barcos chegando do alto-mar, com maridos sedentos, cansados, carregados de peixes e saudades. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Ninguém define, até hoje. Sabemos, porém, que éramos mais que vizinhos. E ela, senhora daquele arruado, era um mito para mim. Cansados dos folguedos diurnos, jantávamos cedo e esperávamos o primeiro sinal: o lampião aceso no terreiro avisava que ela abriria a roda de causos. Troncos vencidos de coqueiros mortos, tombados no terreiro central, eram os bancos - onde meninos, mulheres, velhos e jovens se acomodavam. Rua à meia-luz, cortada pelos candeeiros tímidos nas casas, onde a única eletricidade presente vinha do peito de cada um, tremente, descompassada, à espera. Ela então começava: foi assim, eu vi, ninguém me contou não. E desenrolava o novelo bem alinhavado de cenas. A cabra alada era nossa velha conhecida. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Fruto de uma ingratidão de filha, que não respeitou a carne de sua carne e ousou bater na própria mãe. Castigo divino: virar cabra em noites escuras, voando perdida pelas ruas da cidade. Diziam que durante o dia era a mulher mais linda do vilarejo. Mas o cansaço das peregrinações assombrosas tirava a força de desfrutar a vida. E ela só dormia, todo o dia, o dia inteiro. Entre uma história e outra, deixava seus ouvintes petrificados com seus arrepios gelados, mudando o tom da voz, grave: um irmão do outro mundo acabou de passar por aqui. Boa noite, irmão. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Murmúrios, sinal da cruz, chapéus ao peito. Quando se empolgava ou se perdia no enredo confuso, inventado e recriado um milhão de vezes, soltava o bordão: “lai vai, lai vai, lai vai...pei, pei, pei...e foi aquele pandimonho...”. Em minhas últimas férias, já morando no sul catarinense, fui visitar o canto dos meus verões. No lugar dos troncos, bancos de praça. Rua cheia de luzes de mercúrio. Bati à porta. Caminhando com dificuldade _ arrastando uma perna doente, apertando os olhos para reconhecer a visita _ vi se aproximar de mim a velha cabocla, encorpada, de vestido largo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;"Meu Deus, não é que o mundo não se acaba mais?" Renovamos nosso abraço e ficamos assim, por bom tempo, esmagando a saudade. Falei que agora moro longe e trabalho escrevendo sobre os dias das pessoas, contando _ de outro jeito _ histórias. Ela sorriu, bateu de leve em meu rosto e me beijou a mão. Por alguns segundos, finalmente entendi o que nos ligava. Na despedida, me pediu que não esquecesse de voltar. Retribui o beijo e lhe disse, com toda a certeza do mundo: Eu nunca fui, Dona Iracema. Nunca fui.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-1898776089343479725?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/1898776089343479725/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/dona-da-historia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1898776089343479725'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1898776089343479725'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/dona-da-historia.html' title='A dona da história'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-hR8UHoKI/AAAAAAAAAXI/SqLQOcKuySA/s72-c/preta-velha.png' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-746994265754002412</id><published>2009-03-21T14:26:00.005-03:00</published><updated>2010-03-16T12:16:49.386-03:00</updated><title type='text'>Coração</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-gxge0JSI/AAAAAAAAAXA/jT3mGGiVDSw/s1600-h/biblioteca.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-gxge0JSI/AAAAAAAAAXA/jT3mGGiVDSw/s320/biblioteca.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/ScU0GR8vs8I/AAAAAAAAASo/Ktdi70-pUu0/s1600-h/coracao.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Aquelas portas exerciam fascínio. Éramos nós ali, num constante exercício de domínio, medo e sedução. Eu e as duas portas de correr. Elas: pesadas, de madeira nobre, verniz escuro, envelhecidas. Eu: medindo talvez menos de meio metro, franzina, cinco anos de idade. A casa inteira parecia dar abrigo à festa diária de cheiros vindos da cozinha, vozes infantis e adultas povoando paredes, jardim, móveis, fotografias, lençóis, janelas e muros. Tudo tinha a mão da liberdade desenhando aquele lugar. Mas, por trás daquelas portas, um mundo estranho e ao mesmo tempo encantador parecia se esconder de mim, ser proibido. Não que o fosse. Meu pai jamais as deixou trancadas. Tínhamos passe livre. Eu é que me sentia intimidada por não ser capaz de decifrar o segredo escondido.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Inúmeras vezes vi meu pai entrar ali com minha mãe, irmãos mais velhos e amigos que visitavam nossa casa. Ali - parada nalgum canto, à espreita - eu espiava rapidamente estantes da mesma madeira das portas, livros de cores, texturas e tamanhos diversos. Todas as paredes tinham livros, que cresciam até o teto e depois dele. De onde eu estava, em meu meio metro, a impressão é que eles poderiam atravessar o telhado e tocar as nuvens. E pareciam ter também olhos, bocas e ouvidos. No centro daquela sala gigante, mesa perfeitamente lustrada e cadeira forrada com couro de cabra. No chão, tapete de veludo, cor de vinho. Era ali que eu queria ficar.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Meus cinco anos, no entanto, me empurravam para as bonecas, a rua e o velocípede de metal amarelo e azul. Um dia, porém, resolvi arriscar e invadir o mundo estranho. Entrei, sorrateira, enquanto todos dormiam. Busquei o livro ao alcance de minhas mãos pequenas. Escalei a cadeira com couro de cabra, abri a primeira página e esperei que a mágica acontecesse. Nada. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Nenhuma folha lá fora se mexeu, o vento não abriu as janelas, nenhuma voz, nenhum som. Fiquei esperando, até adormecer. Fui acordada quando meu pai já me colocava na cama. “Não consegui”, reclamei, antes de voltar a dormir. Não sei se ele entendeu, ouviu ou respondeu.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Não desisti. Continuei indo à biblioteca. Sentava ao lado de meu pai, meus irmãos, e folheava os livros – no sonho vão de traduzir os sinais impressos. Meses depois da primeira tentativa, finalmente aprendi a ler. Fui tropeçando, esquecendo a pontuação, querendo devorar as palavras. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Precisava descobrir a senha que me levasse àquele encanto. No dia em que entrei de férias na escola, meu pai me deu uma boneca de pano – perdida numa de nossas mudanças – e o embrulho, em papel-madeira. Abri e lá estava ele: o livro que peguei na estante, quando tentei entrar à força no mundo encantado. Sem que nenhuma folha mexesse, janelas fossem abertas ou vozes ordenassem a magia, eu joguei o nome no ar: “Coração”. Pronto. Estava feito. O encanto foi quebrado.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Guardo comigo até hoje o livro, editado em 1923 – quando meu pai tinha 12 anos – que conta a história de um menino europeu descobrindo as armadilhas e encantos do sentimento humano, no final do século dezenove. Através do amor e da imensa sabedoria de meu velho pai, entrei no mundo da leitura pela porta da frente, com o Coração nas mãos e a alma em festa.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-746994265754002412?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/746994265754002412/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/coracao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/746994265754002412'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/746994265754002412'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/coracao.html' title='Coração'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-gxge0JSI/AAAAAAAAAXA/jT3mGGiVDSw/s72-c/biblioteca.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-1199312668426872833</id><published>2009-03-21T14:23:00.006-03:00</published><updated>2010-03-16T12:14:22.835-03:00</updated><title type='text'>Ana Branca da Silva</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-gPt-KQGI/AAAAAAAAAW4/YjREiSVvSA0/s1600-h/velhinha.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-gPt-KQGI/AAAAAAAAAW4/YjREiSVvSA0/s320/velhinha.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/ScU0tP3UkJI/AAAAAAAAASw/11Vt7PGcCgQ/s1600-h/ana+branca.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Ela apareceu de repente em nossa vida. Um dia, pela manhã, acordamos e estava lá. Sentada num banco tosco de madeira pobre. Quieta, calada. Antes de ir à escola, sempre aproveitávamos os goles rápidos do primeiro vento fresco do dia. Observávamos a rua querendo acordar, com os carros abafando os passarinhos, e seguíamos, mãos apertadas entre os dedos firmes de meu pai. Eu e minha irmã. Naquele dia, ela estava lá. Encostada no muro, com chinelos gastos, roupas puídas, olhos fixos no asfalto, que certamente a levavam a um lugar bem longe dali. Congelei a imagem, nos breves segundos em que me olhou e sorriu.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Tive medo. Das mãos gastas, surradas e ásperas. Das unhas grossas, amareladas e partidas em linhas horizontais, como ondas na cartilagem.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Os cabelos lisos misturavam o amarelo, o branco, o cinza e um leve tom preto, amarrados com pano rasgado. Ao lado do banco, saco plástico e bugigangas.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Minha manhã demorou a passar. Eu não conseguia esquecer. Piedade, medo e curiosidade imploravam aos ponteiros que voassem. Naquela tarde, depois que cheguei em casa, fiz as tarefas mais rápido e desci ao seu encontro. Depois de me oferecer biscoitos e um lugar na calçada, desenrolamos nossos novelos.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Ela pedia esmolas, descobri, e tinha 80 anos. Eu aprendia lições na escola, contei, e faria oito anos em pouco tempo. Não tinha lar, parentes, amigos nem história, me disse. Eu tinha um armário com brinquedos, pais, irmãos e agora uma amiga. Viramos boas companheiras de história, por longos meses. A calçada passou a ser meu melhor lugar depois das aulas. Fui promovida a tesoureira de seus ganhos diários. Contava as moedas, separava as cédulas e guardava no saco de bolinhas de gude. Em troca, ganhava o lanche da tarde, abraços calorosos e o melhor sorriso. Aquele era o nosso segredo, pensava. No fim do dia ela levantava, recolhia banco e sacolas e ia embora. Nunca soube para onde.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Um dia, porém, alguém se encarregou de contar aos meus pais. "Onde já se viu? Pedindo esmolas?". Eu só queria cuidar dela, é a minha melhor amiga, argumentei. A história ganhou os corredores do prédio. Fui proibida de sentar na calçada.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-gPt-KQGI/AAAAAAAAAW4/YjREiSVvSA0/s1600-h/velhinha.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-gPt-KQGI/AAAAAAAAAW4/YjREiSVvSA0/s320/velhinha.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Diante de minha tristeza incômoda em casa, minha mãe resolveu a questão com uma surpresa. Reuniu amigas, vizinhas e descobriram onde ela morava. Juntaram comida, dinheiro, remédios, roupas e se encarregaram de fazer a doação. Só então descobri seu nome: Ana Branca da Silva.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Depois daquele dia, nunca mais nos vimos. Voltei à calçada e esperei, sentada, no mesmo lugar. Semanas seguindo o mesmo ritual. Até me dar conta de que ela não voltaria. Mais de vinte anos passaram e eu ainda busco, em todos os caminhos por onde passo, o conforto e um abraço igual ao dela.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-1199312668426872833?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/1199312668426872833/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/ana-branca-da-silva.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1199312668426872833'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1199312668426872833'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/ana-branca-da-silva.html' title='Ana Branca da Silva'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-gPt-KQGI/AAAAAAAAAW4/YjREiSVvSA0/s72-c/velhinha.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-4442239797370180526</id><published>2009-03-21T11:59:00.003-03:00</published><updated>2010-03-16T12:12:07.021-03:00</updated><title type='text'>A menina e eu</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-fwNrL8jI/AAAAAAAAAWw/8VxxPcK5BS8/s1600-h/kima_menina.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-fwNrL8jI/AAAAAAAAAWw/8VxxPcK5BS8/s320/kima_menina.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/ScU2UQN2cdI/AAAAAAAAAS4/_A5aqxpsfiY/s1600-h/Abraco_Amigas-787616.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Seria mais um dia de trabalho. Nublado, entre o verão e o outono, em pleno mês de março no Sul catarina. A pauta chegou e me apressei em cumpri-la, já que envolvia crianças _ e elas sempre conseguem fazer a diferença em mim. Não estava em meus melhores dias. Tudo acontecia ao mesmo tempo e enquanto o céu mostrava nuvens negras, elas explodiam em temporais pesados dentro de mim. Um aguaceiro sem fim.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Emergência do hospital lotada. Virose tomando os pequenos de assalto e eu ali, à espera da fonte que me passaria as informações e os possíveis contatos para a matéria. Tentando me concentrar no trabalho, via pessoas chegando e saindo, gente muito ferida dando entrada, gente feliz com a alta. Sirenes, macas, médicos com suas roupas brancas, luvas, máscaras... Enfermeiras dando o melhor de si, na corrida contra o tempo. E eu ali, achando a minha dor a maior do mundo todo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Foi então que me falaram que eu poderia conversar com uma família que aguardava a internação de sua menininha. Caminhei apressada pelo corredor, tentando não me deixar atingir pelas dores alheias, tentando ser o que preciso ser quando estou com bloco e caneta na mão: mero transmissor dos fatos, antena que capta e joga os acontecimentos, sem interferência de qualquer natureza.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Ali estavam, na sala de observação, a menininha e seus pais. Olhos assustados, desconfiando de tudo em sua volta. A vontade era abraçar, dar colo, pintar as paredes frias com aquarela, tirá-la daquele lugar. Deveria haver uma lei universal que determinasse: hospitais não são para as crianças. Pronto, seria perfeito.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Mandei o maior sorriso que pude esboçar em meio aos meus atropelos daquele dia. Falei brevemente com os pais e me concentrei nela. Começou a contar, feito gente grande, o que estava acontecendo. Aquela voz doce, suave, passando as suas reclamações, foi o tranquilizante que eu precisava. O relato inocente e cheio de mágoa com o vírus malvado nos fez sorrir. E ela nos acompanhou, tagarelando, retomando em segundos o viço da idade.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Sua grande preocupação era perder as aulas. Prometi que ela tomaria uns remedinhos e logo estaria de volta à escola e às brincadeiras com os amigos. Foi minha vez de ganhar o maior sorriso, com um sinal de consentimento.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Prossegui com os pais, colhi o que precisava e comecei a me despedir e agradecer. Foi então que ela deu um salto do colo da mãe e me abriu os braços. Dobrei-me diante dela e acolhi aquele abraço forte, demoradinho. Fiz mais uma promessa: ela sairia logo dali e ainda nos veríamos em alguma esquina da cidade, só para ela me dizer que eu estava certa.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;“Você foi a melhor médica”, falou. Mais sorrisos encheram a sala. Não desfiz sua crença. Já que confiou em mim, seria bom que continuasse assim, para que todos os outros que chegassem perto fossem recebidos do mesmo modo. Seria mais fácil pra todo mundo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Agradeci o elogio e saí pelo mesmo corredor por onde havia entrado minutos antes. O temporal estava manso em mim. As nuvens começavam a se dispersar. Nada do que quiseram me fazer acreditar sobre mim importava. Eu ainda consigo falar a língua dos anjos. Tenho salvação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-4442239797370180526?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/4442239797370180526/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/menina-e-eu.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/4442239797370180526'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/4442239797370180526'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/menina-e-eu.html' title='A menina e eu'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-fwNrL8jI/AAAAAAAAAWw/8VxxPcK5BS8/s72-c/kima_menina.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-7556147741067212470</id><published>2009-03-20T00:24:00.004-03:00</published><updated>2010-03-16T12:09:43.593-03:00</updated><title type='text'>Caranguejada</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-fEI4P9VI/AAAAAAAAAWo/HWsya-TKhlQ/s1600-h/caranguejo.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-fEI4P9VI/AAAAAAAAAWo/HWsya-TKhlQ/s320/caranguejo.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/ScU3JBErCxI/AAAAAAAAATA/y_Tm1JewT4w/s1600-h/caranguejo.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Sempre que tem chuva caindo, batendo na janela aqui em casa, penso naquele passeio que fizemos. Nada era igual às aventuras que inventávamos quando queríamos festa e a calmaria imperava, absoluta.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Pois naquele dia, a chuva de julho _ que sempre nos empurrava ao recolhimento forçado em casa, longe dos amigos, dos caminhos até a Mata do Cajueiro, dos araçás, pitangas e goiabas fresquinhas, tiradas do pé _ decidimos que a festa viria.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Arrumamos as mochilas, pegamos os samburás, preparamos as iscas e esperamos a chuva dar um pouco de trégua. Caindo fina, que mal dava para ser notada, ela nos deu a pista de que poderíamos sair sem causar problema em casa.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Nos juntamos, bando de crianças entre os dez e os quinze anos, e partimos felizes em direção à mata. No meio do caminho, decidimos que a mata era pouca aventura para um dia como aquele e resolvemos que o mangue era nosso ponto de chegada. Fomos, sem saber que em lugar estranho não se deve entrar sem licença.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Entramos no caminho de lama e já na primeira pisada perdemos as sandálias de borracha. Enrolamos os pés nos sacos de plástico que enrolavam as iscas e nos enfiamos entre árvores pontudas, com cuidado para não sermos alvos dos cascos de ostras pelos galhos e na lama. Às vezes o atoleiro era pouco, em outros momentos parecia que nos engoliria.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Sérgio, nosso amigo mais esperto, filho e neto de pescadores, jogava o braço inteiro nas tocas dos caranguejos e demorava ali. Mexia, puxava e voltava, até nos trazer os bichos. Patonas abertas, olhos pulados, chiando e espumando de raiva por terem sido arrancados do seu canto. Dali para o samburá e do samburá para o caldeirão.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;A farra estava boa, até que os trovões começaram a trazer os doces bichinhos à superfície. Caranguejo sai da toca quando o barulho incomoda. Todo praieiro sabe disso. Nós descobrimos ali, nos vendo cercados de bichos brabos por todos os lados, sem poder correr _ com a chuva deixando nossa visão bem turva _ desesperados.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Quanto mais queríamos correr, mais afundávamos. Até que alguém lembrou dos galhos finos das árvores, onde eles também subiam, mas seria mais fácil sair pulando entre os galhos do que tentar andar na lama grudenta, em meio às patas afiadas.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Depois de muitos gritos, choro e medo, conseguimos vencer o mangue. Ao pisar na areia firme, nem quisemos olhar para trás. Corremos, nos limpando da lama escura na chuva, encharcados. Antes de chegarmos em casa, a chuva deu nova trégua e levou nosso medo embora. Começamos a lembrar do que aconteceu e as gargalhadas vieram, com resquícios de aflição.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Nos samburás, Sérgio _ enquanto nos borrávamos _ ia colhendo a caranguejada doida. Nossa festa estava garantida à noite. Fizemos caranguejo e pirão e devoramos os bichos com vontade, afinal, tudo sempre terminava bem.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Sempre que tem chuva caindo, batendo na janela aqui em casa, tento lembrar do passeio e desse aprendizado. É preciso cautela para pisar em terreno estranho e, se você souber tirar proveito das adversidades, tudo há de terminar bem.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-7556147741067212470?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/7556147741067212470/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/caranguejada.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/7556147741067212470'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/7556147741067212470'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/caranguejada.html' title='Caranguejada'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-fEI4P9VI/AAAAAAAAAWo/HWsya-TKhlQ/s72-c/caranguejo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-853675683666270818</id><published>2009-03-20T00:20:00.007-03:00</published><updated>2010-03-16T12:07:28.849-03:00</updated><title type='text'>Retrato de amigo depois dos 30</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-eqDpqlQI/AAAAAAAAAWg/Ir-XElfnmqs/s1600-h/amigos1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-eqDpqlQI/AAAAAAAAAWg/Ir-XElfnmqs/s320/amigos1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/ScU4nkqPU7I/AAAAAAAAATI/JUPk_FitLBQ/s1600-h/amigos.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;É que nós tínhamos a certeza de que nossos sorrisos estariam congelados. O tempo nos seria piedoso, amigo, guardião de nossos mundos perfeitos.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;É que nada ou quase nada sabíamos da vida e assim usufruíamos do agridoce sumo, com um punhado de sal nas mãos. Por isso, não vimos nossa história ir tecendo o cenário, mudando o figurino, a mobília, os panos de fundo, a maquiagem que refaz nossos rostos, dia após dia.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Nossos passos tinham o caminho gravado na sola dos pés. Íamos, com o mapa na palma das mãos, com a certeza de semideuses nos olhos, com a respiração de quem domina o ar rarefeito, os sete mares e a força da gravidade no mais baixo abismo. Éramos os donos da verdade mais que relativa, sem qualquer ponderação, longe de qualquer teoria bem estabelecida. O absoluto havia sido extinto de nossas convicções mal-balanceadas.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Éramos jovens. Em meio aos quase vinte, aos vinte, aos vinte e poucos, aos quase trinta. E tudo era eterno, assim. Até que um dia, a idade nos tomou conta, nos pegou de assalto. Vimos, em meio a quedas _ ausências repentinas e seculares de pai e mãe, irmãos, companheiros de jornadas, falta de dinheiro, segurança e alegrias _ que nossos grãos de areia começavam a ficar pela metade no relógio.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Onde antes tudo era belo, aos poucos as rugas foram ganhando terreno. As mãos viram brotar novos montes, novos marcos, novas trilhas na palma e nos dedos. O sorriso ficou mais sereno, meia-boca, mentindo tranqüilidade em meio à desconfiança absurda de tudo e de todos.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Vimos longe os nossos passos, o nosso chão, a casa onde nascemos, a escola, os parquinhos, as festas, os vizinhos, os primos, os avós, os natais, as páscoas, os almoços de domingo, as corridas malucas de bicicleta, os bailinhos dos sábados. Já não havia as esperas das sextas-feiras nas paradas de ônibus, quando os que faziam faculdade davam o ar da graça e refaziam as brincadeiras de sempre.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Quem havia ficado, sem se aventurar na boa-esperança, celebrava com o mesmo ar de criança. Quem havia partido e encontrado todas as desilusões e as brechas apertadas das soluções do mundo, chegava como quem renascia. Estar ali era como reestréia no ventre da mãe. Aconchego, coisa boa sem nome, euforia, segurança, paz, tudo junto no meio do estômago, num rebuliço indefinido e eterno. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Quinze cavaleiros do apocalipse à espera do futuro. Assim éramos nós.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;A tecnologia me faz espectadora das vidas que o futuro fez. Vejo pequenos fios brancos espalhados nas cabeleiras castanhas. Traços quase imperceptíveis contornando os olhos, bocas, nariz. Sulcos profundos nas retinas, no peito, nas lembranças.&lt;br /&gt;Saudade, fazendo todo mundo pedir trégua a Deus. Porque a vida é breve demais para tanto amor.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-853675683666270818?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/853675683666270818/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/retrato-de-amigo-depois-dos-30.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/853675683666270818'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/853675683666270818'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/retrato-de-amigo-depois-dos-30.html' title='Retrato de amigo depois dos 30'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-eqDpqlQI/AAAAAAAAAWg/Ir-XElfnmqs/s72-c/amigos1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-1554414920385761002</id><published>2009-03-20T00:16:00.005-03:00</published><updated>2010-03-16T12:04:47.217-03:00</updated><title type='text'>Permanecer</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-eB-q9MPI/AAAAAAAAAWY/OxJWksEFFUI/s1600-h/estrela3.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-eB-q9MPI/AAAAAAAAAWY/OxJWksEFFUI/s320/estrela3.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/ScU5VpvHxiI/AAAAAAAAATQ/1CpBOrHbOzs/s1600-h/irm%C3%83%C2%A3os.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Ele tinha vinte anos e alma de senhor maduro. Falava manso, sorria como menino que acabou de ganhar bicicleta novinha em folha e serenava nossas dores com maestria. Não havia quem não gostasse de estar perto, de partilhar a mesa, o campinho de futebol, as caminhadas na praia com ele.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Com paciência e desvelo me ensinou a andar. Com carinho, me deixava brincar com seus soldados de borracha _ mesmo quando eu desmontava tudo _ e contava histórias antes de me fazer adormecer. Um dia ele me falou das estrelas. “A luz que elas têm é tão forte que mesmo depois que elas morrem, permanecem acesas, por milhares de anos. Algumas dessas que vemos lá em cima nem estão mais ali”.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Achei aquilo tão forte, tão bonito. Morrer e permanecer. Nunca apagar. Pensei em como seria bom se isso fosse possível para a humanidade. Nunca deixar de iluminar o mundo. Explodir e espalhar luminosidade, brilho. Guardei aquilo comigo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Num dia ensolarado de abril ele saiu para mais uma caminhada com um amigo. Nunca mais voltou para casa. Minha mãe havia preparado seu prato preferido: polvo ao molho de coco. Ficou ali no fogão, por horas, até que alguém se compadeceu e jogou no lixo. Na travessia do braço de mar que ligava nossa praia a um vilarejo, ele foi levado para o fundo do rio. O amigo tentou lhe trazer de volta. Em vão. A correnteza foi mais forte. Essa é a versão que temos.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;A cidade inteira se mobilizou. Pescadores jogaram suas jangadas nas águas, benzedeiros pediram aos seus mestres que mostrassem o caminho. Homens, mulheres e meninos fizeram barcos de isopor com velas para iluminar a noite e trazê-lo de volta. Nada adiantou. Foram dois dias de espera, angústia e muito medo que não desse mais tempo, que não houvesse jeito algum.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Não houve. Os bombeiros o encontraram, numa praia próxima, e nos trouxeram. Aquele moço calmo, alegre, de coração leve, partiu sem aviso prévio. Nos deixou sem qualquer motivo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Demorei muito tempo tentando aceitar. Muito tempo mesmo. Penso que entendi, assimilei, fui forçada a conviver com isso, mas não tenho certeza da minha aceitação. Era meu único irmão, meu companheiro, confidente, meu poetinha preferido. E tinha apenas vinte anos.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Nos juntamos bem mais depois de sua partida. Nossa família grudou, virou mesmo um ninho mais fechadinho. Mas sempre esperei que ele chegasse, depois dos portões fechados em casa. Cheguei a ouvir seus passos na cozinha, abrindo a geladeira, pegando a metade do refrigerante que eu dividia, comendo o doce predileto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Esperei por muito tempo vê-lo sorrir ao pé da minha cama, me acordando e dizendo que foi um sonho ruim e que ele jamais saiu de casa assim, tão cedo. Hoje eu sei que ele está iluminando outros mundos. Creio fervorosamente na vida e na luz que não cessa. Meu menino virou estrela, explodiu de tanta coisa boa que havia em si. Vou soprar minha cantilena por todos os meus dias, em seu nome. Para que a chama jamais apague e nosso amor, talvez um dia, vire uma estrela. Permaneça.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-1554414920385761002?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/1554414920385761002/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/moleque-bagunceiro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1554414920385761002'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/1554414920385761002'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/moleque-bagunceiro.html' title='Permanecer'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-eB-q9MPI/AAAAAAAAAWY/OxJWksEFFUI/s72-c/estrela3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-3823207281212523354</id><published>2009-03-20T00:13:00.005-03:00</published><updated>2010-03-16T12:02:51.518-03:00</updated><title type='text'>De amor e simplicidade</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-dlKmoujI/AAAAAAAAAWQ/Z53YJ0G8kxk/s1600-h/casamento.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-dlKmoujI/AAAAAAAAAWQ/Z53YJ0G8kxk/s320/casamento.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/ScU55RbqdyI/AAAAAAAAATY/3vP5w1O4Ju0/s1600-h/Velhos+tempos.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;O asfalto ainda demoraria a chegar. Chão batido, estrada improvisada entre caminhos abertos à marra por homens e mulheres que criaram o vilarejo. Casas simples desenhavam arruados charmosos, onde as pessoas colocavam toalhas bordadas nas janelas e conversavam sobre a vida, do amanhecer ao pôr-do-sol.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;À noite a rotina era a mesma: cadeiras nas calçadas, vizinhos e histórias repartidas, como quem divide o pão. Cansados, os moradores se recolhiam bem antes da noite ensaiar a madrugada. Tudo brindado pela trilha do mar, suave, sendo abrandado pelo vento manso. Foi nesse lugar que ela encontrou o amor da sua vida, o homem de sua história. Caixeiro viajante _ e dos bons, como fazia questão de frisar _ ele bateu os olhos e a quis. Ela rejeitou a idéia de se render ao vocabulário farto daquele estranho, que conhecia o mundo inteiro, mas nada poderia saber a seu respeito.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;No entanto, aqueles olhos, aquelas maneiras de quem pega a dor com as unhas e esmaga, lhe arrastaram. Seria dele. Entre idas e vindas, resolveram casar no mês de agosto. Vento forte, chuva sem tréguas. Despesas dobradas, para montar palhoça que guardasse os convidados do temporal.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Na manhã da festa o céu se curvou ao amor dos dois. Sol, calmaria, caminhos abertos aos noivos. A casa se abriu às 8h em ponto. Todos os moradores deveriam saber: ela sairia da casa dos pais e seria entregue ao marido, a quem deveria seguir pelo resto de seus dias. As moças das redondezas, vestidas de branco, a esperavam com flores de laranjeira nas mãos.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;O caminho havia sido bordado com rosas e folhagens, num tapete primoroso por onde seus pés descalços a levariam até a capela.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Lá, um jovem caixeiro tremia, da cabeça aos pés. Suava, dobrava e desprendia a gravata, secava o rosto, contava o tempo _ que insistia em lhe fazer desfeita e demorava a passar, de propósito. Ao longe, viu surgir o cortejo. A procissão seguia, silenciosa, pela rua. De braços dados com o pai, ela tentava acelerar os passos. Tinha pressa de começar aquela vida, que agora, sim, seria sua. Nasceria a partir de então.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Casaram. Tiveram oito filhos e viveram por 20 anos juntos. O caixeiro se foi, num mal súbito, num dia de agosto. Desde então, seus filhos e netos passaram a ser sua vida. E a cidade inteira começou a lhe pegar de empréstimo os sentimentos mais preciosos e as melhores histórias. Jamais se rendeu à tristeza. Tinha a gargalhada mais farta que já ouvi.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Já a conheci como “Vó Benedita”. Fui uma das que lhe pegou o amor, os sonhos e os guardou consigo. Passava horas e horas conversando com ela, em meus dias de férias, em muitos janeiros. Nunca esqueci a história do caixeiro.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Passei por sua casa, há poucos dias, e quase bato à porta. Ela também já partiu. A cadeira branca, de palhinha, continua no terraço, junto ao cesto com linhas e agulhas de tricô. Na parede, um enorme Coração de Jesus. Deu saudade.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Revivi, por instantes, tudo que me contou um dia. Busquei o ar daquela casa, puxei bem forte as lembranças. Em silêncio, pedi as bênçãos daquela que um dia me ensinou como é simples ser feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-3823207281212523354?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/3823207281212523354/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/de-amor-e-simplicidade.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/3823207281212523354'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/3823207281212523354'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/de-amor-e-simplicidade.html' title='De amor e simplicidade'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-dlKmoujI/AAAAAAAAAWQ/Z53YJ0G8kxk/s72-c/casamento.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-8086074643118581814</id><published>2009-03-20T00:10:00.005-03:00</published><updated>2010-03-16T11:59:07.596-03:00</updated><title type='text'>Humanidade Catarina</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-cjcFtW5I/AAAAAAAAAWI/dgFxwNMYDzM/s1600-h/solidariedade1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-cjcFtW5I/AAAAAAAAAWI/dgFxwNMYDzM/s320/solidariedade1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/ScVYOWeSF7I/AAAAAAAAATg/qgAeces_-z8/s1600-h/lages-monumento-o-tropeiro-01.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Quando cheguei aqui, a primeira vez, eu vi que algo muito forte esperava por mim. Era caso de amor. Vi um lugar diferente de tudo que já havia visto na vida. Gente que falava com um charme, uma cadência, um dobrado... Gente e terra que me encantaram demais. Eu estava em Santa Catarina. Terra com nome de santa. Terra abençoada que me fez render todos as honras e me apaixonou de modo arrebatador.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Vinda de um lugar mágico, iluminado, quente, me via enfeitiçada por algo novo, límpido. Por um lugar com cara de novo mundo. Era uma coisa estranha me tomando as entranhas, me pedindo para ficar. Não sei mesmo o que mais me prendeu aqui. Não sei. Eu busco e não consigo atinar mesmo ao que me prendeu.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Lembro de uma procissão de São José, lá na terra onde nasci e de onde vim. Lembro de pedir pela saúde de minha mãe, abraçada a foto dela, e de rezar para voltar a Santa Catarina. Porque eu queria mais daquela sensação de porto seguro, de fertilidade, de hospitalidade, de retidão, que vem do ventre dos catarinas.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Só sabe o que é Santa Catarina quem está aqui, quem vive, quem partilha, quem descobre essa terra de imigrantes fortes, desbravadores, determinados, firmes, teimosos, corretos, honestos.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Meu grande orgulho é ter sido aceita, recebida com festa, com amor, com afeto de família. Eu amo esse solo, esses amigos feitos, esses dias vividos e conquistados. Catarinense tem um brio tão desconcertante que modifica o modo de qualquer pessoa ver o mundo. O ritmo é oposto a todos os que já havia experimentado. E eu quis esse baile. Eu quero viver com essa gente que me desperta admiração a cada dia.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Nas últimas semanas eu fui, nós fomos pegos de surpresa. A terra da beleza e do trabalho, dos homens fortes, das mulheres quase de Atenas, se viu em meio a um mar grosso de barro vermelho. A chuva derrubou os morros e as fortalezas do peito dessas pessoas vistas por mim como invencíveis, inquebrantáveis. Meu peito foi ficando apertado, miúdo, triste.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;O pior era sentir que as estradas bloqueavam o acesso, as possibilidades. Foi terrível ver aquelas pessoas gigantes com os olhos marejados, tomados de dor e de medo. Foi indescritível temer por gente que eu nem conhecia, mas que já é tão minha.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Tudo aqui inspira cuidado. No entanto, mais uma vez, Santa Catarina me ensina que esse solo é mesmo diferente de todos os caminhos por onde passei. Em meio ao tormento, o catarinense esboça sorrisos. No meio do vendaval, dos saques, do desespero, famílias antes estruturadas para receber cem gerações à frente, vencem rugas, idade, cansaço, desesperança e fazem todo o caminho feito pelos ancestrais. É hora de refazer, então, mãos à obra, sem tempo para lamentações.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Esse é o segredo Catarina: a força, a vontade, o destemor, a valentia, a dignidade, a hombridade, a valentia. Eu quero estar aqui. Por quantas tempestades o planeta resolver mandar, se ainda tiver a impiedade de mandar. Porque aqui, mais do que em qualquer outro lugar no mundo, eu aprendo a viver e a ser um ser humano de verdade.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-8086074643118581814?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/8086074643118581814/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/humanidade-catarina.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/8086074643118581814'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/8086074643118581814'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/humanidade-catarina.html' title='Humanidade Catarina'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-cjcFtW5I/AAAAAAAAAWI/dgFxwNMYDzM/s72-c/solidariedade1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-4163976767404525836</id><published>2009-03-20T00:08:00.007-03:00</published><updated>2010-03-16T12:00:35.170-03:00</updated><title type='text'>O piano</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-bj1iVQMI/AAAAAAAAAWA/vMcEjw5zwZ4/s1600-h/piano.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-bj1iVQMI/AAAAAAAAAWA/vMcEjw5zwZ4/s320/piano.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/ScVgSurQQ0I/AAAAAAAAATw/5eazBYkiRNo/s1600-h/piano.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Então, num dia de Natal ganhamos um piano. Não era de cauda, nem enorme como os dedilhados pelos grandes músicos, mas era nosso. E aquilo foi um festerê em casa. Três Marias disputando um lugar no banquinho, tentando tirar alguma coisa parecida com música daquelas teclas mágicas e, até então, misteriosas. Até que um dia eu desisti de tentar adivinhar como fazia aquilo e pedi para aprender de verdade.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Fui matriculada na melhor escola da cidade e aprenderia numa turma cheia de menininhas da mesma idade. Meus pés mal tocavam os pedais e as mãos _ que até hoje são minúsculas _ passavam trabalho para alcançar as notas mais longas. No entanto, eu havia cismado que seria pianista e persistiria no intento, mesmo que para isso meu mindinho fosse sacrificado.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Saía da escola, almoçava, e três vezes por semana minhas tardes eram da música. Aprendi rápido e impressionei Norma, a professora mais paciente e dedicada que já conheci. Em pouco tempo eu já tocava bem. Fui selecionada para a audição da escola. Tocaríamos numa rádio local e seríamos ouvidas por toda a cidade. Alvoroço em casa. Ensaios dobrados, orgulho enchendo peito de pai e mãe. Roupa nova, corte de cabelo, expectativa. Eu nem sabia porque tanta confusão, mas desconfiava que eu tinha conseguido algo grande.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Minha avó mandou presente, tias pediam fotografias e a escola convidou todo mundo para a festa. Tudo correria como o previsto e o sonhado, não fosse uma sardentinha ruiva, de olhos enormes e azuis, que atravessou o meu caminho.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Entre as arrumações feitas em mim, que me sentia praticamente um mamulengo nas mãos dos adultos, a idéia aprovada por Norma e por minha mãe para que meus cabelos _ mais finos do que seda na época (antes de dar o curto-circuito na adolescência), não caíssem sobre os olhos e atrapalhassem minha concentração _ foi colocar uma tiara na cabeça, empurrando a franja para trás. Pois bem, elas não contavam com minhas benditas orelhas de abano. No meio do caminho havia as orelhas. Elas destruíram o que poderia ser uma bem sucedida carreira de pianista.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;A sardenta foi o instrumento do infortúnio. Ela, que havia ficado de fora da audição e não conseguia passar do “Pastorzinho (dó-ré-mi-fá)”, resolveu me tirar da jogada com a maldade peculiar de algumas crianças e me fez perceber a semelhança entre minha pobre cabeça e a do elefante Dumbo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Foi um tal de Dumbo pra lá e Dumbo pra cá. Quando percebi, eu era o alvo dos risinhos maquiavélicos e da gozação ensurdecedora dos coleguinhas ingênuos e inocentes da escola.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Pronto, deu-se o drama. Bati o pé, empinei um bico quilométrico, cruzei os braços e endureci. Mula empacada, cara de bicho brabo, não mexia nem os olhos. As lágrimas caiam como se fossem lavas vulcânicas pelo rosto e eu não dava um gemido sequer.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Mandaram Kekéia (minha irmã que sempre conseguiu tudo de mim) me convencer. “Não vou”. Veio meu pai. “Não vou”. E o meu tempo de apresentação chegando. Não, vou, não vou, não vou. Arranquei a desgraçada da tiara da cabeça, puxei os cabelos pra frente, limpei o nariz encharcado na gola do vestido e corri para o carro.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Nunca mais voltei às lições. Toquei por alguns anos o que havia aprendido com Norma, com uma ponta de arrependimento, mas com o orgulho ferido demais para voltar atrás. Aos poucos, fui me afeiçoando ao violão. Aos doze anos ganhei o primeiro de presente e nunca mais soube o que era viver sem ter o bom e velho companheiro por perto. As orelhas de abano? São boas amigas, que me fazem ouvir melhor a música do mundo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-4163976767404525836?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/4163976767404525836/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/o-piano.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/4163976767404525836'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/4163976767404525836'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/o-piano.html' title='O piano'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-bj1iVQMI/AAAAAAAAAWA/vMcEjw5zwZ4/s72-c/piano.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-7877443166670898286</id><published>2009-03-20T00:06:00.005-03:00</published><updated>2010-03-16T12:00:13.242-03:00</updated><title type='text'>Lição de amigo</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-bLRucVYI/AAAAAAAAAV4/rSqUg7Oe0xg/s1600-h/velho.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-bLRucVYI/AAAAAAAAAV4/rSqUg7Oe0xg/s320/velho.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/ScVkhbYD87I/AAAAAAAAAT4/lIoGXntAwx0/s1600-h/brinca1.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Ele levava jeito pra um monte de coisas. Corria de um lado para o outro, sempre apressado para construir sua vida, dando a impressão de que o futuro era mesmo algo pra ontem e grandioso.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Entre suas múltiplas funções, foi barbeiro, carregador de caminhão, frentista, lavador de carros, entregador de pizza, leiteiro e até arriscou jogar futebol, mas não deu certo. Quando o conheci ele ajudava o dono da mercearia, na esquina da casa dos meus avós. Toda tarde eu ia lá, pedia o mesmo refrigerante, o mesmo bolo com calda de chocolate. E ele sempre com aquele sorriso, enorme.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;No dia que aprendi a andar de bicicleta, levei o maior tombo da história e quase fiquei sem dentes, foi ele que pulou o balcão e veio me socorrer. Nesse dia não precisei pagar pelo bolo nem pelo refrigerante. Tudo por conta da casa e do coração generoso daquele moço guerreiro de coração generoso.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;No último Natal, fui levar minhas sobrinhas para o tradicional abraço no Papai Noel, lá na casinha montada pra ele, no meio da pracinha do lugar de minha infância. A fila enorme não me fez desistir e, entre um papo aqui e ali com velhos conhecidos, logo chegou a nossa vez.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Fotos, beijos, pedidos e aquele olhar me chamou a atenção. Eu conhecia aquele homem, por trás daquela barba de algodão e de toda aquela roupa e enchimentos. Mãozinhas cheias de pirulitos, rostinhos rosados com felicidade estampada, era a hora da pizza, do sorvete e de tudo que faz parte dos sonhos delas.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Enquanto elas lanchavam, eu olhava de longe pro velhinho. De repente, me veio a lembrança. Era ele, o meu velho amigo Moacir. O Papai Noel da pracinha era o moço das minhas lembranças.&lt;br /&gt;Voltei à casinha e conversamos longamente, vendo as crianças brincarem no parque. Ele já era avô, tinha uma lista enorme de nomes dos netos, comprou uma casa à beira-mar _ como havia planejado _ e agora não corria mais. Estava aposentado, só cuidando do que plantou um dia.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Rimos muito lembrando a espoleta que fui, contei como estava longe agora e quanta saudade sentia de tudo que não volta mais. “Não sinta saudade, menina. O tempo não anda pra trás. O longe não significa o distante”. Fiquei batucando aquilo na cabeça: o longe não é o distante, o longe não é o distante.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Este ano, não consegui chegar a tempo no guichê para comprar a passagem que me levaria até minhas meninas e ao meu lugar. Desde que nasci, é o primeiro Natal fora de casa. E isso dói. Muito. Mas hoje eu acordei pensando no Moacir, que partiu no início do ano para um lugar bem longe. E me dei conta de que estarei lá sim, seja qual for o chão que eu pise. Porque um velho amigo me ensinou que não há distância quando se tem amor.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-7877443166670898286?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/7877443166670898286/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/licao-de-amigo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/7877443166670898286'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/7877443166670898286'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/licao-de-amigo.html' title='Lição de amigo'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-bLRucVYI/AAAAAAAAAV4/rSqUg7Oe0xg/s72-c/velho.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-6907537316757470995</id><published>2009-03-19T23:57:00.016-03:00</published><updated>2010-03-16T11:59:43.489-03:00</updated><title type='text'>Verbos de ligação</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-ap8h-0eI/AAAAAAAAAVw/gAwCKn2Drjg/s1600-h/de%2Bmaos%2Bdadas.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-ap8h-0eI/AAAAAAAAAVw/gAwCKn2Drjg/s320/de%2Bmaos%2Bdadas.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/ScVqXlenZ0I/AAAAAAAAAUQ/o0pmdz-THL8/s1600-h/maos.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Era como discutir o sal e o açúcar. Como pensar em barro seco e molhado, decidir entre a polenta e o sabugo verde do milho. Coisas distintas, mas tão próximas. Éramos assim, nós dois. E ele sempre insistia que éramos iguais. Eu e o meu melhor namorado. Se é que existe o melhor entre os amores. Amores são amores, ora essa... Não é, não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nós sempre discutíamos sobre tudo. Era falar em azul, ele vinha com vermelho. Com um charme infernal. E isso se prolongava, até que um dia a coisa descambou do simples pro complexo. As mulheres tendem a ser pura volúpia e os homens gostam mesmo é do preto no branco: do futebol com cerveja, amigos e saldos bancários. Gostam de mostrar que os filhos são filhos mesmo da grana que pingou no orçamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada de leite do peito alimentando as crias, de colo quente de mãe, de fraldas descartáveis bem aprumadas, de febres vigiadas, brotoejas curadas com pasta d’água, de mãozinhas grudadas com os filhotes, choros sem explicação. Eles são os provedores e isso é o que importa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, descambamos para os planos de família _ eu e meu futuro marido. Apaixonados, lembramos do nosso primeiro encontro. Eu, começando a vida de jornalista, em meus vinte e poucos anos _ achando que o mundo inteiro seria refém dos meus sonhos. Ele, mais novo do que eu, achando que aquela menina segura, com caderno de poesia no colo, em meio à reunião política (que prometia salvar a comunidade) era a mais bela pérola da literatura brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos apaixonamos. E dali para a boneca de louça, depois de ter minha mãe como cúmplice, foi um pulo. Ganhei a boneca, amei, dividi os poemas num barco no meio do Capibaribe e disse: vou te namorar para sempre. O que nós não sabíamos é que, entre os sonhos do Che (meus), os poemas, a barba dele sempre por fazer e minha boneca de louça, havia nossa vontade (mútua) de ganhar o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele queria ter. Eu, ser. Entre o ter e o ser _ esquecemos _ havia linha tênue. Ser bom era ter boas intenções. Ter boas intenções implicava em querer ser algo bom. Ter o castelo dos sonhos implicava, por conseguinte, em ser bom em tudo que se fizesse. Ser bom em tudo significava ter vontade e competência. Isso para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ele, ser bom era acumular bens. Ter, ter, ter. Não importava como. E isso se conseguia mostrando ao mundo o que não se era realmente, mas o que o mundo gostaria de ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meio aos dois verbos _ ser e ter_ nos perdemos. Ele, por querer ter demais. Eu, por querer me fartar de ser. Crescer nisso, ganhar a mim e ao mundo em tudo que o mundo e a vida me dessem. Ele, por querer se fartar daquilo: ganhar ao mundo e tudo que ele pudesse acumular através disso. Sem ressalvas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, ele se viu envolvido num caminho bem longe do meu. E eu não sabia mais como encontrar o rastro deixado por ele nos primeiros dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo girou e cansamos de tentar encontrar portais que nos levassem de volta. Ficamos assim, entre o ser e o ter. Acabamos por perder o maior tesouro que a vida nos deu. A vontade de inventar o que já existia foi o mais cruel dos carrascos: envenenou, dia após dia, o grande amor de nossas vidas. E nos fez entender todos os verbos de ligação, após a perda que nos amarrou para sempre: ser, estar, parecer, permanecer... Ficar.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-6907537316757470995?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/6907537316757470995/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/verbos-de-ligacao.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/6907537316757470995'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/6907537316757470995'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/verbos-de-ligacao.html' title='Verbos de ligação'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-ap8h-0eI/AAAAAAAAAVw/gAwCKn2Drjg/s72-c/de%2Bmaos%2Bdadas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5370933551056809590.post-326708243933197247</id><published>2009-03-18T21:12:00.004-03:00</published><updated>2010-03-16T11:59:22.423-03:00</updated><title type='text'>O Foca</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: left;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-aWpkWu5I/AAAAAAAAAVo/nJFTYUVdROU/s1600-h/foca.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-aWpkWu5I/AAAAAAAAAVo/nJFTYUVdROU/s320/foca.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'times new roman';"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'times new roman';"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 85%;"&gt;Nossos sonhos sempre foram parecidos. Diferença mínima de idade, muito pouco, quase nada, mas escolhas parecidas e toda a vontade de engolir o mundo. Mas ela estava à nossa frente, porque tinha mais pressa do que nós para buscar o que queria e nos vimos sentados, naquelas tardes mornas, nos bancos da faculdade colhendo seus ensinamentos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'times new roman';"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 85%;"&gt;Movidos pela paixão ao jornalismo, íamos engatinhando na profissão, com ideais explodindo nos olhos, nos poros e na palma das mãos. E ela adorava jogar lenha na fogueira. Fazia isso com sutileza, provocando o bichinho que cada um trazia dentro de si, pronto para fazer misérias com o que colhíamos pelo caminho.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'times new roman';"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 85%;"&gt;Num desses dias, surgiu a ideia de darmos voz ao que queríamos. O jornal laboratório só seria possível em meados do curso e não sabíamos esperar. Tudo urgia, era pra ontem, anteontem, pro ano passado. O desperdício das horas era pecado e queríamos o amanhã bem antes do galo cantar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'times new roman';"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 85%;"&gt;Dos nossos desejos, nasceu O Foca. Datilografado na minha velha Olivetti, depois do horário das aulas, recortado, colado e xerocado, ele ganhou corpo e os corredores da faculdade. Aos poucos foi ficando conhecido, servindo de vitrine para os textos, inclusive dos veteranos, envolvidos com o movimento estudantil _ que queria tirar o presidente louco do poder.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'times new roman';"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 85%;"&gt;Não cobrávamos por recados, publicações de textos e trocávamos pequenos anúncios por rodadas de milk shake e hambúrgueres na lanchonete da esquina. Porém, um dia não houve dinheiro suficiente para tocarmos o projeto. A equipe, que começou em três, já somava quase 15 futuros jornalistas ávidos de reportagens e reconhecimento. Juntamos passes estudantis, vales-refeições, moedas, trocados... Não dava nem pro começo. Teríamos que parar as copiadoras e o sonho.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'times new roman';"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 85%;"&gt;Não sei quem falou para quem, quantos contaram a quantos... A notícia se espalhou e chegou até ela, a nossa mestra-companheira. Em menos de um dia o dinheiro dava para imprimir a edição da semana e sobrava para o resto do mês.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'times new roman';"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 85%;"&gt;Dizem que ela contou nosso caso, colocou uma bela cédula sobre a mesa _ no café das quatro na sala dos professores _ e esperou que os outros a seguissem. Todos colaboraram. Numa caixinha, o dinheiro chegou em nossas mãos. Pagamos as quatro edições, ganhamos a admiração do pró-reitor acadêmico e o patrocínio que precisávamos para continuar o sonho.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'times new roman';"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 85%;"&gt;O Foca até hoje é lembrado em nossos raros encontros. Quando deixamos a faculdade, ele foi engavetado. Faltou quem quisesse tocar em frente. Hoje os mais jovens não precisam enfrentar teclas pesadas e sem óleo em Olivettis emperradas, nem passar a noite recortando fotos e textos para depois enfrentar as copiadoras.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'times new roman';"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 85%;"&gt;As dificuldades fizeram com que superássemos qualquer dificuldade, nos uniram e fortaleceram nosso querer. No meio delas, um anjo amigo, com vinte e poucos anos, nos abrindo caminhos e fazendo valer a pena acreditar que valeria.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'times new roman';"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana; font-size: 85%;"&gt;Preciso voltar a ser aquela, reencontrar o caminho, esquecer os fios brancos na testa, renovando a certeza de que só quem persiste e não duvida nunca, consegue ver o sol rasgar a noite e iluminar o mundo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'times new roman';"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5370933551056809590-326708243933197247?l=dedo-de-prosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/feeds/326708243933197247/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/o-foca.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/326708243933197247'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5370933551056809590/posts/default/326708243933197247'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dedo-de-prosa.blogspot.com/2009/03/o-foca.html' title='O Foca'/><author><name>Um dedo de prosa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08011567934338707653</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/TCD14H0wzWI/AAAAAAAAAbU/muet27O00IY/S220/trabalhando.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_jA4bz8oG92I/S5-aWpkWu5I/AAAAAAAAAVo/nJFTYUVdROU/s72-c/foca.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
